Mostrando postagens com marcador máfia da faxina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador máfia da faxina. Mostrar todas as postagens

26 abril 2014

A Puffy Shirt

Como comentei várias vezes, ainda procurava mais um emprego que me garantisse dinheiro para sair da casa da Marciana, precisava ganhar mais pra pagar algum lugar mais decente e, de preferência, sem dividir quarto...

Uma amiga da minha Roommate, que estava voltando pro Brasil, estava vendendo as casas dela e Roommate me ligou perguntando se eu não queria duas casas que essa amiga vendia, uma casa de dois dias e outra penas um. O pagamento total era de 200 libras - o que a menina fazia durante o mês nessas casas.
Fiquei na dúvida, mas precisava arriscar e aceitei.
A menina que era a cleaner das casas ia viajar e quando voltasse, eu pagaria para ela.
Não me levou na casas para conhecer e ver como seria o trabalho - como a maioria faz - apenas me deu os celulares e mandei mensagem para as donas.

A botocada vocês já conhecem o caso. Durou uma semana, perdi o dinheiro com essa...

Puffy Shirt eu nunca falei dela aqui, só no Twitter. Fiquei na casa dela até ir embora de Londres, quer dizer, até começar a viajar (tem que ter algo de bom, né?) em outubro.

Ela queria que a casa dela fosse sempre limpa às sextas-feiras, porque ela queria que a casa estivesse limpa no final de semana, fui até à casa dela num dia à noite para conhecê-la e ela me dar a chave da casa - claro, conhecer com o marido do lado como sempre fazem, por precaução.

Como fui depois que saí do Império, cheguei tarde em casa e não havia contado nada para a Marciana - que nunca soube que trabalhei nessas casas nem o que aconteceu com a italiana - e como sempre chegava por volta das 9 da noite, Marciana me liga no meu celular para saber se estou bem (isso por volta de umas 10:30), na verdade, só para xeretar e controlar a vida dos inquilinos, já que os filhos dela ela não poderia controlar...

Acertei de ficar na casa, eram só duas horas na sexta, a casa não era grande, mas casa velha, com sala e quartos com pisos daqueles de madeira, de ripas, com buracos  (que, sim, eu me aproveitava e jogava a poeira lá porque não dava tempo de ser de outro jeito), uma cozinha que se caía qualquer coisa no chão, digamos, sábado à noite, só seria limpo por mim na sexta que vem.; um quarto de hóspedes, mas que Puffy usava como closet e um pequeno banheiro, corredor da parte da cozinha e o quarto de hóspedes com carpete pra me ajudar.
E, claro: tinha que passar roupa! Tudo isso em DUAS horas numa sexta-feira.

Nos primeiros dias, para mostrar serviço, fiz muito mais que duas horas, para dar aquela limpezona ou a tal "spring clean" deles: a origem da palavra é que o povo esperava a primavera para limpar a casa - o que mesmo com aquecedores em casa e um monte de produtos de limpeza, ainda fazem hoje, ou não rs...

Ela sempre me deixava uma folha de caderno de coisas para fazer, chegava e lá estava a lista.
Do tipo:
Faça
- tire a capa do edredon da cama e a roupa de cama e ponha na máquina no programa 4, o sabão tem que se o que está debaixo da pia e não é o azul, é o rosa; pegue a roupa que está seca no varalzinho da cozinha e coloque a roupa limpa na cama; (esse ela pedia toda semana e eu já sabia de cor, como se eu fosse uma débil mental e não entendesse que toda semana era pra ser, além de cleaner, arrumadeira de hotel e trocar aquele edredon fedido e sujo e colocar a roupa de cama que foi lavada na semana passada: sim, ela só tinha duas roupas de cama, a que eu lavava essa semana e a que eu tinha lavado semana passada);
Entre a cama dela e o colchão, ou no chão debaixo da cama também havia a mesma prática da porcona patroa da marciana: papéis higiênicos jogados, que eu pegava com o hoover (aspirador)...

- tire o pó e varra a sala;

- mop (aquele esfregão nojento) e limpe o banheiro (limpe a pia, o chão, a banheira e a privada - precisa dizer o que precisa ser limpo no banheiro ou vc gosta mesmo de escrever?) e a cozinha;

- passe o aspirador em tudo;

- passe a roupa que está na cadeira da direita (na maior parte das vezes eram sempre as mesmas roupas, inclusive a tal puffy shirt, ela adorava blusas assim, dão um gosto de passar quando você tem que limpar uma casa inteira e mais essas roupas em duas horas...);

Não contente com esse pingo de coisas que ela me dava pra fazer, ela ainda cismava muitas vezes que a casa não estava bem limpa e a roupa mal passada - claro, né?
A menina anterior da casa e a anterior a ela, segundo soube, todas pediram por mais uma hora de trabalho para dar conta de tudo, e a muquirana sul-africana negava, deveria estar acostumada na terra dela a escravizar os outros... só não sabia que isso tinha acabado...

Eu corria como uma louca naquela casa para dar conta de tudo!
Eu chegava correndo e não parava! Não poderia ficar sempre fazendo horas sem serem pagas e fui desandando aos poucos: passava hoover quando era realmente essencial. E o cabelo da mulher estava por toda a parte... parecia que ela devia sofrer de uma queda muito da agressiva porque os bichos (carpete e o hooover) ficava entupidos de tanto cabelo loiro tingido...

Ah! O hoover!
No primeiro dia que cheguei na casa, o hoover não funcionava. Tentei de todas as maneiras, todas as potências fazê-lo funcionar e ele funcionava mal e porcamente (como a casa), troquei o filtro, nada... ele estava mesmo pedindo arrego...
o aspirador da barbie
Descobri que muitas casas em Londres são alugadas com tudo que está dentro, então, acreditava que aquele hoover deveria ter sido da casa do Jack Stripador... ou, na melhor das hipóseses da Yoko Ono, já não seria tão velho e imprestável assim...

Vivia pedindo para  a mulher um hoover novo... sempre dizia que não funcionava e ela sempre pedindo pra eu usá-lo. Até que um dia ela me apareceu com um totalmente de plástico, pensei que era brincadeira com a minha cara: nem o cano ficava no lugar, caía toda hora, não encaixava, mas a adEvogada era mesmo uma muquirana, junto com o bocó do marido irlandês que nem servia pra olhar um aspirador... era mais fácil culpar a faxineira de preguiçosa, já que não dava pra pôr no tronco...

Ela reclamava horrores do tapete da sala, que não precisava ser "hoovado" e sim lavado, propus isso a ela: iria lá um dia só pra lavar o tapete - ela tinha quintal no fundo como todo mundo. Nunca me respondeu, mas reclamava das manchas nele. O que eu ia fazer se já tinha chegado com aquelas manchas feitas no tempo de Winston Churchill? Se eu resolvesse passar algum produto tira-manchas ela teria que comprar e ela nem comprava bombril quando eu pedia...

Ela era tão pão dura, mas tão pão dura que pedi Brillo (a versão 'ingrish' do bombril) e ela me comprou uma daquelas esponjinhas brilhosas, sabem? aquelas que são moles e parecem cheias de glitter e que não limpam panela nenhuma? Que não arejam panela nenhuma... Panelas com marcas de terem sido queimadas na primeira filmagem do Monty Phynton Flying Circus...


fotos explicativas
Num dos refratários dela eu cheguei a deixar de molho na cândida e não saiu... nem com um produto tenebroso de limpeza hiper forte (viacal)... que ela tinha posto no lixo e eu peguei: outro ela não ia comprar e eu ia ter que me matar pra limpar, né?




o maravilhoso mop e o maravilhoso chão



Foi o único produto que consegui tirar a sujeira que um "pedreiro" fez no banheiro quando tentou arrumar um encanamento e jogou tinta para todos os cantos - adivinha quem teve que tirar as manchas porque ela reclamou que o banheiro estava cheio de manchas (como se fosse culpa minha)?

No quarto que ela usava de closet só tinha que tirar o pó e trocar roupa de cama quando algum amigo deles iria dormir lá.
Uma vez uma amiga dela dormiu lá, saiu quando eu cheguei e na outra semana Puffy veio me acusar: você deixou a porta do quintal aberta, não deixe!
Nunca abria ali, nunca me foi pedido limpar lá fora, por que eu abriria a porta?

Ela não queria pagar para limpar a casa, mas jogava fora de tudo: até um Dior que peguei pra mim. O negocinho que você aperta do spray tinha enroscado na tampa, daí ela não pensou duas vezes: pôs no lixo do closet e eu peguei, tirei o negocinho da tampa, arrumei e peguei pra mim.
Fiquei esperando ela jogar o ipod dela, mas não rolou, só ficava jogado no chão enchendo de poeira (sim, no chão do quarto de hóspedes).
As roupas que ela jogava fora - novas e de marcas caras - ela jogava sem dó no lixo, até mesmo misturado com lixo mesmo, não doava nada  (e olha que tem várias lojas de ONGs pela cidade, como Oxfam, os famosos car boot sales etc...  e muito menos ela separava o lixo para a reciclagem que a cidade faz e dá os sacos para separar: amarelos para recicláveis, pretos para lixo comum) nenhuma das roupas me servia, porque ela era menor que eu...

Eu já disse que esse povo tem uma mania louca de largar tudo no chão?
TU-DO!
Principalmente roupa, fica tudo pelo chão... e ela não era diferente, fora as roupas de ginástica e tudo mais...

Não contente, um dia, queria que pegasse a roupa que ela tinha deixado na máquina, estendesse tudo e dobrasse a roupa seca do varal. E eu escrevi: se eu tiver tempo, farei isso.
Assim como a louça seca da máquina - que eu tirava para pôr as novas imundices - ela queria que eu guardasse no armário. Disse o mesmo, nem sabia quais eram os lugares das coisas, pra depois ela ainda reclamar que pus no lugar errado? E ela começou a toda semana pedir e eu a não fazer: não tinha tempo!

Dessas roupas que tirava da máquina para colocar a roupa de cama também veio a porqueira total: elas têm mania de tirarem a calcinha, jogarem no chão e quando vão lavar, jogam tudo misturado, sem ver se precisaria de, digamos, um cuidado melhor. E fui, numa dessas vezes tirar as roupas e dou de cara com calcinhas que é melhor eu não descrever... senão vocês não vão querer mais ler meus relatos... mas imagine como fica um pano que você usou para limpar graxa e como ele continua do mesmo jeito se você não faz uma limpeza separada e com água quente, por exemplo, não deixa de molho...
Ou mesmo a famosa freada...
Peguei tudo com a luva e estendi no maravilhoso varal na cozinha (sim, a roupa tinha sido lavada... apesar de não parecer...), ela e o marido também estendiam roupas todas pela casa nos heatings... ficava lindo!

E ainda tem mais: o cabo da escovinha do banheiro tinha quebrado, era só um cotoco... tive que comprar com meu dinheiro um porque a mulher nunca se deu ao trabalho de comprar. Assim como também comprei um mop decente porque ela não comprava um novo (que eu sempre pedia porque o outro eram 3 paninhos pendurados) e estava sempre cobrando uma limpeza mais bem feita no chão do banheiro e da cozinha.
Como faria essa limpeza mais bem feita se o mop era ruim, os produtos de limpeza acabam e ela não comprava e sempre ela inventava mais coisas para eu fazer? EM DUAS HORAS?

Acredito que ela também tenha ficado ainda mais no meu pé, porque eu um dia deixei um bilhete perguntando se ela não tinha amigas que precisavam de cleaner: ela deve ter percebido que eu precisava de trabalho e aí pisou mesmo...

Eu sempre quis largar a casa se conseguisse outro trabalho, o que acabou não acontecendo, então continuei porque bem ou mal eram vinte libras que aliviavam no aluguel semanal...

Um dia, cheguei na casa e estava tudo como tinha deixado na semana anterior, inclusive o mesmo bilhete da semana passada e nada de dinheiro (ela "esqueceu" algumas vezes de me pagar e pagava tudo na outra semana), percebi que só poderia ser uma coisa: ela e o marido deveriam ter viajado. Mandei mensagem e ela me respondeu muito depois dizendo que tinha esquecido de me avisar que iria viajar.
Na outra semana me deixou de presente uma caixa de bombom para que eu a perdoasse (essa mulher era bipolar, né?). 
Até que o chocolate era bom...
Numa dessas viagens pediu para eu limpar por três horas a casa - porque a casa tinha ficado sem limpar na semana anterior, ou seja: pagaria 30 juntando as duas semanas e eu tomava o prejuízo de 10 libras...
Em outra vez que foi viajar disse para eu limpar a geladeira e o micro-ondas que nunca devem ter sabido na vida o que era ser limpo... 

Não "vendi a casa", não dava pra vender: seria muita safadeza da minha parte cobrar um mês dessa casa para passá-la para outra pessoa. Dei a casa para uma brasileira, amiga de outras que entrarão na história em breve e eram da geração de 20 anos em Londres.
A brasileira que ficou com a casa me disse que pediu mais cinco libras para a muquirana, porque disse pra Puffy que morava longe e chegaria tarde em casa e a puffy concordou!! Ela me disse que assim, se se atrasasse, o dia estava ganho... essa foi até esperta, mas eu sei que ela vai limpar muito menos do que eu limpava...

Quando fui embora, no último dia que limpei a casa ela me deixou de presente uma garrafa de champagne. Fiquei com raiva: bando de bebuns que acham que a gente é bebum como eles, porra! 
Eu queria dinheiro!
Dinheiro era o que eu precisava e sempre precisei vivendo lá - era difícil entender isso?

BEBIDA NÃO É PRESENTE! É VÍCIO! é assim que penso e ODEIO quando alguém dá bebida de presente, é o mesmo que dar um baseado pro drogado, não que eu seja alcóolatra, mas passei a vida vendo isso acontecer com um.

Não bebi, deixei na minha última casa, como o vinho da história da mala...
A dona deve ter feito melhor uso que eu... já era perto do Natal mesmo... e na minha mala pra voltar já ia pagar muito de bagagem extra...
a calça que a figura usava

Demorei pra postar porque não achei a foto que queria: da puffy shirt, não sei o que aconteceu, se encontrar um dia a foto da camisa verdadeira, posto aqui

26 maio 2012

Mãe é quem cria, não quem manda dinheiro...

Sempre comento sobre Marciana e Bruxa do Centro-Oeste criarem a família no Brasil, mas nunca dei maiores detalhes, hoje é o dia!

Como uma maioria de mães ilegais, elas trabalham na faxina de casas, não se precisa de passaporte ou insurance number, é só comprar as casas de alguma brasileira que esteja vendendo - nos últimos tempos, muitas estavam voltando para o Brasil e começar a limpar, desde que a família goste de você, caso contrário, você perderá seu dinheiro... (aconteceu comigo no caso botocada).

Bruxa do Centro-Oeste, como já comentei, morava há alguns meses a mais que eu em Londres, eu cheguei em agosto e ela em junho ou algo assim. Fugiu da crise espanhola, assim como já tinha fugido da crise portuguesa, onde chegou primeiro e morou pouco, segundo contou.
O engraçado é que se ela tivesse sido esperta e não entrado ilegal na Espanha, teria já o direito a ser residente. Ou seja, fez burrada por não ter permanecido por lá por 3 anos de forma legal, mas como ela tinha entrado e ficado em Portugal, ilegamente, só poderia ir pra Espanha da mesma forma e acabou perdendo essa boquinha que não sei se com a crise do jeito que está a Espanha ainda mantém: 3 anos na Espanha e você se torna residente e com direito a quase ser um cidadão, ou pelo menos andar pela Europa na boa.

Ela chegou e foi trabalhar nas vans, quando me acordava às 4:30 da manhã para sair de casa quase 7. Isso você já sabem, depois ela juntou dinheiro e comprou casas. Assim como Marciana que trabalhou um período para a mesma empresa de limpeza que eu - e mostrava feliz pra mim o aventalzinho "tia do jardim" (aqueles que são fechados com botões dos lados e tem um bolso canguru na frente) como se ter trabalhado na mesma empresa de limpeza que eu era como ter trabalhado na Microsoft...
E depois começou a comprar casas para limpar e só reclamava das patroas porcas.

Bruxa dizia que tinha comprado casa pra mãe no Brasil, junto com a irmã que morava em outro estado, e as filhas dela moravam com a mãe, junto com a sobrinha que ela "bullyingnava" todo dia no telefone.
Já Marciana sonhava com seu apartamento mobiliado e carro na garagem  - algo como prêmio do bau da felicidade! E aparentemente ainda não tinha conseguido comprar nem apê em CDHU, o que seria barato, mas para a arrogância dela, não era bom o suficiente.

Com a crise e cada vez menos casas para se limpar e menos donas de casa pagando bem para isso, o trabalho delas ia ficando mais difícil, afinal, elas sustentavam a família no Brasil.

Marciana quando foi morar em Londres levou junto o filho mais novo, na época com 9 para 10 anos. Seu primeiro plano foi morar com a irmã, que tinha os filhos criados na Inglaterra (foi ilegal, separou do marido  brasileiro e casou com um norte-irlandês, virou residente e reclamava que o marido transava, virava pro lado e continuava a ler o livro... quem escolheu isso? eu?).
Pelo que entendi, ela e a irmã brigaram, o motivo não sei, mas sabendo que brasileiros que se estabelecem em Londres não ajudam ninguém... acho que não abrem mão nem pra irmã... fora que ela teria que ter no mesmo teto uma ilegal com o filho menor de idade - o que é um problemão!

Marciana teve que se virar e procurar outro lugar pra morar e procurar emprego com um filho pequeno. Não sem deixar uma filha noiva e outra com 15 anos em Sampa. 
A filha noiva,ela deixou na casa dela, que ficava no quintal das cunhadas. A menina não aguentou a pressão e foi morar com o noivo - o que Marciana teve que engolir (a religião dela não permite, mas, segundo Woman from Mars, permite que largue os filhos assim e que se virem).
Já a adolescente ficou mal, depressão.
E assim que ela teve um novo teto, mandou buscar a filha adolescente, que chegou em pleno inverno em Londres: muito frio e os dias se acabando às 3:30 da tarde. Não sem antes ter que fazer sozinha a escala em Paris, pra ser mais fácil pra entrar por aeroporto pequeno.

A menina só foi de mal a pior até onde sei: a depressão de se sentir abandonada virou, segundo os médicos ingleses, esquizofrenia, afinal, ela chegou numa época muito ruim para quem já não está bem e já chegou para ajudar na faxina da mãe, enquanto o irmão tinha de tudo.

Marciana contava a história com tristeza, pois a mãe dela teve que vir buscar a menina para viver novamente no Brasil sob os cuidados da avó que nem internet deixa que ela use, e aí ela usa na lan house. E que não voltou mais a estudar enquanto o irmão estava em escolas inglesas.
Marciana falava todos os dias com a mãe e a filha, mas sempre cobrando a menina para que fizesse curso de cabeleireira e voltasse para ganhar dinheiro e a ajudasse em Londres também com as casas.
E sempre dizia "a marcianinha é rápida, é ágil! vai me ajudar a juntar dinheiro aqui" o que ela não tinha conseguido fazer em 6 anos.
Primeiro porque tinha exatamente essas despesas médicas com a filha no Brasil e o casamento da outra que ela pagou tudo, se sentiu culpada de ir pra Londres faltando meses para a filha casar, filha que sempre falavam no telefone parecia jogar na cara que a mãe não estava em seu casamento e que a deixou sozinha com as tias que queriam pegar a casa pra elas.

O filho viveu um pouco mais de 5 anos com ela em Londres, tinha uma vida de inglesinho: blackberry, playstation com acessórios, como a cadeira entre outras coisas, mas ele reclamava - segundo Marciana - que aquilo não era vida.
Bem, se você pensar que você viveu dos seus 9 anos aos quase 15 em várias casas dividindo quarto com sua mãe e estranhos, sem nenhuma privacidade, sem saber mais o que é uma casa e uma família. Bem, você também diria o mesmo, talvez...

Ele quis porque quis voltar pro Brasil e ela com medo que mais um ficasse doente, deixou. Gastou mais um bom dinheiro porque ele só tinha ido de férias ao Brasil, voltou e decidiu voltar novamente e ela teve que pagar a passagem do pai dela para acompanhar o filho de volta ao Brasil.
O ex-marido de Marciana, segundo consta, a traía com todas, não saía do boteco e faliu uma pequena empresa que tinham juntos e quando ela dizia que se separaria dele, ele pegava a Bíblia, colocava debaixo do braço e encontrava novamente Jesus, numa dessas, ela se separou realmente dele e foi pra Londres.
Isso tudo é o que ela contava, não cheguei a conhecer nenhum dos filhos ou parentes dela, tudo são relatos da própria.

O menino voltou ao Brasil e foi morar com uma irmã casada de Marciana, ele que não era bobo de morar com os avós que botavam restrição até pra TV, a irmã que já estava acostumada que aguentasse...

Daí era todo dia as ligações para saber dos filhos. E que não tinha como não se ouvir porque ela ligava do quarto dela, que ela deixava que nós usássemos como sala.
Eu nunca telefonava da casa, só se fosse muito urgente. Nunca, preferia o transporte público ou uma praça perto do trabalho.

O filho queria voltar pra Londres: caiu a ficha dele que ele tinha vida de rei e que no Brasil o pai lhe dava 20 reais que não davam pro Mc do fim de semana...
Ficava a infernizando no telefone porque queria os jogos novos e que no Brasil tudo era muito caro!
Quebrou coisas do ps3 e queria que a mãe mandasse, detonou com o Blackberry e queria um novo, queria roupas de marca que usava em Londres para se exibir pros amigos da nova escola - particular porque a Marciana disse que "Deus me livre meu filho na escola pública no Brasil!". 
Sim, ela tinha gastos com a escola particular (o mais engraçado é que era uma escola católica mesmo eles sendo protestantes, mas achavam que isso iria 'resguardar' o pivete) além da mensalidade, o curso era todo apostilado e tudo que você sabe o que tem que pagar na escola particular, além do luxo de se exibir com tênis e roupas de esporte da Lonslade (super barata) e da GAP (a C&A inglesa... 10 libras e vc compra qualquer camiseta...) para os amiguinhos brasileiros tão fúteis e mimados quanto ele.
Ele sempre dizia pra mãe: NÃO VOLTA! AQUI É HORRÍVEL!
Isso quer dizer: se mata de trabalhar aí e paga meus luxos!

Quando não tinha essa discussão com ele, discustia com a do meio, a que tem problemas de depressão e já estava com 20 e não terminou o segundo grau.
Algumas conversas eram realmente dignos de Marciana!
A filha se tratava com psicólogo e ela perguntava pra filha: 
Foi no psicólogo hoje? E o que vocês conversaram? Do que vocês falaram hoje, oras! Eu quero saber!

 Isso deve ajudar muito em qualquer tratamento... Uma mãe bem participativa!

Ou discutiam sempre por causa de dinheiro que ela sempre dizia que mandava - e mandava toda a semana - e reclamava que os filhos queriam sempre mais. Um dia me disse que gastava quase 3 mil reais por mês com os filhos no Brasil... bem, difícil querer ainda comprar casa no Brasil, com mobilía e um carro "bom" como ela dizia...

 A filha mais velha já casada sofria poque não conseguia engravidar e reclamava da falta da mãe, dizia que deveria ser porque a mãe nunca estava com ela que ela não conseguia engravidar e ainda tinha que ouvir da mãe:
Vi suas fotos com seu marido no orkut! Como é que você, fulana, tira fotos fumando narguile? Você sabe o mal que qualquer uma dessas coisas faz? Vocês tem que ir com sua avó na igreja!

Ou pra irmã que cuidava do filho mais novo:
Ele vai ter prova de espanhol? Mas espanhol é fácil! é igual português! Vai ter prova de biologia? Faz um questionário pra ele estudar e você toma dele!

A irmã, além de aturá-lo em casa, ainda tinha que fazer ele estudar do jeito Marciano...
E as conversas se estendiam assim por horas... ela ligava várias vezes à noite e sempre brigando, reclamando que os filhos tinham que fazer o que ela mandava, ela era a mãe, a que mandava o dinheiro!

Com a Bruxa sucedia algo parecido.
Ela ainda saiu casada do Brasil e deixou as filhas por conta da mãe, o marido ficava com elas, mas quando a Bruxa, voltou ao Brasil, 6 anos depois, antes de ir morar em Londres. Fez a separação e o marido assinou que a guarda da mais nova ficaria com a mãe dela.
A mais velha já era maior de idade, fazia faculdade de publicidade lá no centro-oeste e sempre reclamava que não havia estágio nem emprego e que ela queria um emprego de meio período, não integral, porque ela estava de manhã e não queria estudar à noite... coitada! sofria! porque no Brasil não tem emprego pra ninguém que país horrível! (palavras da Bruxa)

Ela me lembrava a personagem da novela das 7, quando voltei e vi a personagem Grace Kelly na novela das 7 do Falabella, achei igual!

A menina queria tudo da mãe: você me largou aqui? agora vai me dar tudo que eu quero!
E tinham altas discussões porque ela queria, apenas, óculos de sol Dolce & Gabbana (o que mesmo em Londres é caro, é uma marca porsh não é pra qualquer um!) e depois ela vinha desesperada pra gente perguntar se sabíamos se nas promoções tinham óculos D&G... porque a filha queria porque queria... coitada, como a filha sofria por ela não mandar pra ela um d&g entre outras coisas que ela precisava mostrar pras amigas de faculdade.
A filha mais nova ela lutou pra ter a guarda, quer dizer, pra mãe dela ter a guarda porque quando ela foi tentar um "futuro melhor" no estrangeiro a menina só tinha 5 anos e também entrou em depressão. 
Fico imaginando como deve ser para uma menina de 5 anos esperar a mãe que leva 6 anos pra visitá-la...
Ela dizia que nunca ia deixar a filha com a família do marido - família que ela viu que a menina preferia, segundo contava a menina adorava ficar com a avó paterna e ela odiava isso!
Bem, a menina tinha que se identificar com alguém... e Bruxa sempre brigava com a mãe porque tinha deixado a menina ir pra casa da outra avó... bem, você faz o quê do outro lado do Atlântico? Só manda e todos têm que obedecer? 
Só porque pagava escola particular, kumon, inglês etc etc não parecia dar muito jeito das filhas gostaram da mãe, como ela queria.

Ah! A sobrinha que morava com as filhas dela - porque fazia faculdade tb na belissima cidade capital do centro-oeste lindo que ninguém quer morar lá - ela cansava de chamá-la de gorda e outras coisas, tirava o sarro da menina, talvez porque a menina devia ser a única que aturava a conversa dela, diferente das filhas que mal falavam no telefone com ela.

Isso era bem comum: elas queriam falar com as filhas, tentavam e tentavam estabelecer uma conversa e os filhos nem aí... a Marciana era a que mais reclamava: você só diz anh? sou sua mãe! você tá me ouvindo? fala comigo!

Eu também presenciei isso em ônibus, como sempre digo: brasileiro não se toca que Londres está infestada deles e sempre vai ter um ouvindo sua conversa.
Lembro de uma que queria que o bolo do filho no Brasil fosse do jeito, da cor e do SABOR!!! que ela queria... ela já tinha escolhido tudo, só não ia estar lá, né?
Pra ela, deveria parecer porque está mandando, coordenando tudo, é o mesmo que estar lá, mas não é! De jeito nenhum! Por mais que elas adorem se enganar. 

Por tudo que vi, digo que elas não têm filhos, elas os perderam. Pra eles são só umas fulanas que mandam dinheiro e coisas de marca. Nunca estão presentes em festas, doenças ou qualquer outra coisa, elas nunca estão nas fotos... elas só mandam o dinheiro que se vai e não deixa rastro, lembrança nem nada.

Como dizia a Bruxa: eu sou ambiciosa e enquanto o bichinho da ambição estiver comigo eu não sossego!
E quando o bicho da ambição sossegar, sua filha vai falar o quê pra você se nem te chama mais de mãe e sim pelo nome? (a mais nova fazia isso)

Fico triste por elas, porque, por uma ambição, uma ganância um não querer se humilhar ou mesmo ser humilde de trabalhar em trabalhos "menores" no Brasil, preferem mentir e dizer que trabalham bem na Europa e que isso vai fazer que filhos a entendam...
Não, eles não entendem, raras excessões, porque o que eles queriam era uma mãe ao lado. 
E elas perderam a melhor fase da vida deles só para não lavarem chão no Brasil e sim em Londres e outros lugares da Europa.
Quando a ficha cair que o tempo não volta, a ambição não vai ter mais sentido nenhum...








06 dezembro 2011

Vida de Gado, Vida de Cleaner - parte 2 (terça-feira e sexta)

Como andei contando sobre os donos das casas, terça-feira era pior dia, era o dia da casa da "Feiona" ou porcona mesmo... o nome dela é o mesmo da esposa do Shrek, daí feiona...

Bem, começávamos por ela... era uma casa longe... longe... longe... todas as casas de Marciana são longe... na região de Lewisham, sul de Londres, e do outro lado da rua ficava a casa da amiga dela que também era cliente de Marciana, iriamos pra lá depois... e mais história...

Mas Feiona tinha dois filhos e uma casa como as tradicionais inglesas e não lembro se já falei aqui sobre isso: por fora, você não dá nada, por dentro, ela expande para o fundo e para cima... são enormes!

A Feiona deixava a casa simplesmente emporcalhada... eu não cheguei a conhecer uma pessoa mais imunda que ela, mas várias que chegaram beeem perto, porque inglesa não liga muito pra manter a casa limpa, acha que é só se faxinada algumas horas na semana por uma cleaner...

O primeiro dia que cheguei, já assustei com a cozinha: ela também deixa a louça naquela bacia nojenta, só que a bacia nojenta dela é mais do que nojenta! Toda a louça estava lá no meio da gordura e restos de comida.
Marciana não sabia ligar a máquina de lavar louça (já estou dando uma pista do porquê do apelido dela...) e não me avisou que havia uma e lavei aquela nojeira na mão, claro, jogando beeem longe aquela bacia imunda. E Marciana reclamando comigo porque tem um jeito próprio de se lavar louça na bacia, que é uma combinação com as torneiras fria e quente e eu pouco ligando pro puxassaquismo dela. Combinação de água quente com fria? Jeito certo de lavar? Economizar água?
O caralho pra aquela porquice!

Imagine: o fogão estava todo cheio de porridge, o mingau de café da manhã dos ingleses, cheio de leite grudado com aveia e... Feiona é tão boa dona de casa que para fazer tudo mais rápido, pelo rastro que deixou no chão, tirava correndo do fogão imundo e jogava na mesa de jantar para que comessem, também tinha restos do café da manhã pela mesa e chão, claro!
Todos os cereais das crianças e suas canequinhas etc.

A cozinha, como deu pra perceber era imunda. E Marciana ficava mandando eu limpar melhor a cozinha. Juro que quando vi aquela cozinha desanimei e fiquei pensando que dar uma enganada naquela casa seria o melhor, mas Marciana ia lá e falava pra eu deixar brilhando o vidro do fogão... era pra tirar uma meleca danada! E imagina que Marciana fazia isso toda a semana!
Quer dizer, só uma vez na semana o fogão era limpo.

A sala era enorme, dividida em sala e sala pras crianças brincarem, ou seja: muita bagunça. Era fácil achar pedaços de doces no meio dos sofás.
O banheiro não era tão imundo, afinal, ainda bem! Era janeiro e eles não tomam banho! Mas... a mulher deixava cabelo por todo o lado...acho que ela precisava de um tratamento pra queda de cabelo porque era um inferno de cabelo pra todo canto!
Eu não tinha muito saco mesmo pra limpar aquela imundice toda e tentava dar um jeitinho, mas Marciana pra mostrar serviço (pra mim, claro) ia lá e mostrava como limpar bem. Então que limpasse, a minha mão estava bem, a dela que não estava e numa casa daquelas, não se merecia muita coisa.
O quarto das crianças também não eram tão problemáticos, mas o problema é sempre o carpete... aspirar os malditos carpetes...

Mas não é só isso!
Como diriam aquelas propagandas...
Tinha o quarto da figura pra limpar e eu já disse, elas querem que se faça até a cama, como se fôssemos camareiras de hotel.
Bem, cama desarrumada já era de se esperar, né? mas roupas todas jogada pelo chão?
As inglesas tem uma péssima mania de largar todas as roupas pelo chão ao invés de guardarem no armário ou pôr numa cadeira... fica tudo jogado... não jogado porque ela e o marido tiveram muito o que fazer durante à noite, jogado porque largam a roupa pra qualquer canto, bangunçado mesmo. No quarto que ela tinha pras roupas, com armários, era igual!
Só que ainda há o pior!
Entre os cantos que sobram entre o colchão e a cama havia vários papéis higiênicos dobrados... não tiramos... nem a Marciana dessa vez pôs a mão... e ficaram lá por quatro semanas, porque o casal Shrek não tirou (ogros...), daí, na última semana resolvemos fazer algo: aspirador neles! rs
Só poríamos a mão com luva, mas até assim ficamos com nojo!

Nas outras semanas, dona Marciana me falou da existência da máquina de lavar louça e eu joguei tudo lá, toda aquela melequice e não via a hora de passarem os dias pra não ir mais naquela casa e ao mesmo tempo pensava que precisava daquele dinheiro...

Ah! tinha que se passar a roupa também! E a feiona queria que passasse até a toalha de banho... mulherzinha dos infernos, a casa uma imundice e cada vez inventava uma coisa: pra limpar rodapé, limpar sei lá o quê... como se em quatro horas (quando eu ia era em 2 horas, duas horas pra cada) desse pra limpar a imundice que ela acumulava a semana toda e ainda queria mais coisas!
Só com um "spring cleaning" a casa ficaria decente.
Spring Cleaning é isso mesmo: a limpeza da primavera, porque no inverno (e em todo o resto do ano rs) a sujeira fica lá se acumulando até que um belo dia de "primavera" a dona da casa pensa: oh! essa casa precisa de uma limpeza pesada!

Marciana me pagava 7 libras a hora para ajudá-la. Nessa casa, na da segunda-feira e da próxima, elas eram amigas e pagavam igual: £8,50 a hora. Em algumas casas ela ganhava 12, em outras 10.

Dessa casa, íamos pra amiga da Feiona que tinha um casal de filhos, casa mais bem arrumada, tinham acabado de reformar e para me alegrar a vida colocaram nos quatro andares carpete creme... ah! como eu amava ir naquela casa e passar aspirador cômodo por cômodo, escada por escada... e sempre os malditos carpetes felpudinhos pegavam e não largavam os fiapos de roupa... ah, que lindo que era ver aquele monte de bolinha de roupa naquela merda creme...
E o aspirador que pesava uns 10 kilos... ah, que vontade de jogá-lo pelos 4 andares abaixo... ou na cabeça de quem comprou aquela merda que mal aspirava, só pesava.
A menina, de graça, tinha uma beliche no quarto, só pra ela e eu pensava: vc tem uma beliche porque é divertido quando é criança, né? Vai dormir na minha!

Eu ficava olhando... a mãe levava a menina pra escola e o menino, muito pequeno, pra passear no parque, aí ela voltava, mas como ela era uma mãe estranha... ou todas as inglesas têm essa estranhice maternal?
Ela não fazia almoço, comia um lanchinho como todo inglês e fazia o mesmo com o menino de uns 2 anos que amava Toy Story e tinha os bonecos. Um menino fofo!!
Um dia, ela voltava pra casa com o menino dormindo no carrinho e empurrava, empurrava o carrinho pra entrar e não entrava, tive que ir lá falar e mostrar pra ela: o pézinho do menino ia se enfiando cada vez mais debaixo do carrinho, dobrando por conta da pressão que ela fazia pra empurrar e o tapete de entrada.
O menino não chegou a chorar, mas eu a vi como uma louca que não reparou um só momento e que nem ficou preocupda quando mostrei, só tirou o pé do bebê... e ficou lá... mandando mensagens sem parar no celular, como sempre a via fazer.

Marciana, como boa puxa-saco, achando que a dona da casa se importava com ela, começou a falar que estava com saudade do filho que tinha ido pro Brasil (história pra outro post) e também comentou da enchente no Rio de Janeiro que aconteceu naquele mês de janeiro.
Falava no inglês dela: see the flódi in Rio de Janeiro? My son is in Brazil.
A mulher só olhou pra ela e disse: não sei disso não. E continou com a vida atarefada de mandadora de mensagens por IPhone.

Dessa casa, tínhamos uma terceira, ainda mais longe e que pra voltar tínnhamos que pegar o trem até London Bridge se estivéssemos com pressa.
Era a casa de um espanhol e como bom latino, a casa de um homem solteiro era mais limpa que qualquer casa de uma inglesa casada.
Aí sim fazíamos o que a faxineira faz no Brasil: limpa o que não dá pra limpar no dia a dia com a correria. Era uma casa tranquila, sem grandes problemas por ser muito limpa e organizada.

Mas Marciana acabou dando um grande fora e a máscara de boa mãe, religiosa, temente a Deus, fiel aos bons costumes e honesta começou a cair...
Ela, dias depois, acabou comentando que o espanhol era tão gente boa que como não a dispensou do trabalho por conta de ela estar com a mão operada resolveu pagar além da hora para ela, para a ajudante (ou seja, eu!). Ela sem perceber me contou que era pra eu estar ganhando mais, não só 7 por 1 hora e meia nessa casa... mas acho que 10 por 3 horas! 10,50 para 30 libras é uma boa diferença no bolso meu e, claro, de Marciana...

Quarta e quinta-feira as donas das casas, algumas a dispensaram e até pagaram pra ela ficar em casa, outras não queriam ajudante e só fui numa das casas de quinta, de, como diria a própria Marciana: a casa do gay. Nunca o conheci, mas era uma casa também tranquila e longe, essa era preciso pegar o metrô e era em outro sentido, noroeste de Londres, perto de Wembley.
Só tinha muitas camisas sociais para passar e aí aprendi a passar (ou a enganar) essas horripilantes roupas...
Ela o chamava assim porque fazia a casa do companheiro dele, então, ela sabia bem a vida dos patrões...
Ela não fala inglês, entende pouco, mas acredito que muita das coisas que tenha percebido sobre a vida deles, foi porque anotou e mostrou pro filho, não só esse casal, mas das outras famílias.
O filho mandava e respondia as mensagens do celular para ela. Como já disse, outra história.

E sexta tinha mais! Tinha uma casa também tranquila que era de 15 em 15 dias que se tinha que passar roupa e uma de uma professora quase para se aposentar que Marciana, finíssima, chamava de "a casa da sapatona".
A dona da casa era simpática e até deu uma garrafa de vinho para Marciana e outra pra mim, pelo Ano Novo que se iniciava - o vinho da minha mala, sabem já a história toda dele... - ela conversava bastante e saia para podermos limpar a casa tranquilamente.
Eu não vou esquecer de um dia, arrumando a cama de um dos quartos da casa, que era uma espécie de duas camas juntas formando uma cama de casal com um aparato tipo aqueles de deixar a cama mais alta igual em macas e a mulher de Marte disse: sei lá que cama maluca é essa, deve ser pra imundices de sapatona!
Não sei que tipo de cama era aquela, me parecia pra algum tipo de problema de coluna ou algo assim, mas Martian (rs) como uma pessoa sem preconceito, já tinha julgado e condenado a professora.

Salvem a professorinha!

Havia outra casa na sexta, mas era a mesma de uma mulher da quarta que a dispensou.
E assim minhas semanas de janeiro se passaram, mas antes que janeiro terminasse, tive que conciliar esse trabalho com um durante os finais da tarde, limpando escritórios, nooooooooooo

Império do Fado!
(próxima parada)

02 novembro 2011

Vida de gado, vida de cleaner - parte 1 - casas da segunda-feira

Comecei o ano de 2011 sem alunos de português.
A médica monstra sumiu - e eu não queria mais dar aulas mesmo pra ela -, o espanhol deve ter pedido outra professora para a agência, se continuou com as aulas; e o jornalista casado com um brasileiro disse que estava trabalhando muito e não ia continuar.
Sou muito perfeccionista e me cobro demais e acredito que por meu inglês ruim, minhas aulas de português não sairam bem, não só por isso já que os outros dois sabiam bem já o português, mas porque eu não conseguia me concentrar para preparar aulas boas... também porque era minha primeira experiência nessa área e estava mesmo perdida...
Eu não faria aulas comigo de novo naquele momento, sou sincera, precisaria ter melhorado muito e espero que se voltar a dar aulas no Brasil, eu esteja melhor preparada.
Primeiro, eu terei minha casa pra preparar aulas, ambiente com todos os materiais que preciso, principalmente um boa mesa grande pra espalhar as coisas, como gosto de fazer.

A questão é que ainda consegui uma aluna que morava na região de Greenwich (aprendam com os ingreis: "grênich"), mas não pude dar aulas pra ela porque ela só queria na parte do começo da noite e exatamente quando arrumei um emprego de cleaner de escritórios nesse horário...
Só que antes do escritório, mais conhecido como o Império do Fado (logo vocês conhecerão Darthvedrina e seu celular com toque musical do Robie Williams), vou contar a penúria anterior, ser cleaner de casa em Londres, ou diarista que aqui deveria se chamar "horista".

A horista é como o nome diz, trabalha por hora, não há faxineira diarista nas casas daqui. Como tudo gira em torno de se pagar a hora, a diarista não seria diferente e muitas casas pagam por 4 horas num dia ou essas mesmas 4 horas divididas em 2 dias e assim por diante... tudo depende da patroa e da "criná" para organizar os horários.

Como eu acho que contei um pouco aqui na postagem resumão de quando conheci a Marciana e suas amigas cleaners que passavam a perna nos patrões. Agora vou contar como é realmente todo o esquema delas.

Precisava de dinheiro e Marciana teve que operar perto do Natal uma das mãos, a outra também já era operada. Tudo isso graças ao esforço repetitivo de limpar até quatro ou cinco casas por dia na correria. Ela precisava de uma ajudante e me pagava 7 libras a hora, fui, precisava pagar o aluguel.

As casas da segunda-feira era a primeira de um homem, acho que polonês que morava só morava ele e seu rotweiller que veio pra cima de mim. O dono não o amarrava, o cão era bonzinho...
Pegamos uns 4 ônibus pra chegar lá.. era quase na cidade de Kent... sul de Londres.
A casa era um casarão, mas a parte toda de cima ele alugava os quartos. Nosso trabalho era só a casa dele que não tinha heating (em janeiro freezing...) e nas sala de jantar e na de estar não tinha luz também... tudo no escuro, sem aquecimento e os tapetes e carpetes imundos de tanto pelo de cachorro!
Fora os brinquedos do cachorro todos espalhados pela casa, brinquedos não, tinha um monte de garrafa de Lucozade (um refri meio redbull). Calma! São de plástico, mas os pedaços ficavam por toda a casa... fora os pedaços de bola e etc que a pequena criança destruia...
O nome do bichinho?
Jack e eu pus sobrenome, claro: Bauer rs

Tinha que ligar o aspirador na cozinha, imunda (que Marciana diz ter sido ainda mais imunda quando ela chegou e tirou um cascão do chão) e tentar ver se o fio alcançava toda a sala. Até ia... mas no escuro, no inverno, difícil limpar...
Mas como tudo é por hora, Marciana falava pra eu correr porque o tempo era pouco pra limpar aquela casa de cachorro...
Ela foi limpar o quarto do dono que estava inundado de pelo, inclusive na cama porque o cachorro dormia com o seu amigo dono. A casa fedia cachorro...
Tudo era velho e mal cuidado - meses depois o cara resolveu derrubar e começou a fazer a casa tudo de novo - ainda as escadas era preciso passar aspirador... correndo!
Tudo era com carpete... todos os corredores... e aja tomada pra achar ou extensão pra o aspirador...

Marciana é um tipo que tem preconceito de tudo, mas o dinheiro sempre é bem vindo. Ela desconfiava que o dono da casa, por dormi de dia, deveria trabalhar em boate, ela achava que ele deveria ser cafetão. Então, ela falava mal dele e das pessoas nas fotos da casa, tipo, achando que todas as mulheres nas fotos (tirando uma que era óbvio ser a mãe do cara) eram prostitutas.
Estava eu passando aspirador na escada e ele passou.
Daí Marciana veio falar pra mim:

Ele é assim, mas é respeitador! Os homens daqui são respeitadores, fiquei reparando quando ele desceu as escadas e ele não olhou pra trás pra olhar sua bunda!

Que simpático, né? Ela queria dizer: ele é cafetão, mas respeita as que não são suas empregadas à noite!
Achei imbecil o comentário... e mais ainda ela ficar reparando...
Corri como uma louca pra limpar toda aquele carpete... não estava acostumada com o hoover... e eles aqui são pesados e toda casa quer que você use...

Saimos dessa casa e pegamos mais alguns buses para a casa da "porquinha" porque Marciana disse que ouviu o marido da mulher a chamar assim... mas se Marciana não sabia quase nada de inglês... não sei como entendeu... acho que deve ter sido alguma vez que ela levou o filho e ele estava nas escolas daqui, já sabia entendia tudo em inglês. (ele terá sua história contada)

O caso é que era sim uma porca, mas perto da amiga dela (casa da terça-feira) ela era a limpeza em pessoa!
Os ingleses têm uma mania nojenta de usar uma bacia na pia pra lavar a louça, aí fica aquela água já suja pra lavar outras louças... coisas do tempos da guerra... mas é totalmente contraditório porque eu nunca vi tanta gente disperdiçando na vida e depois querem economizar água pra lavar louça... porquice total!
Aí eu joguei toda aquela água nojenta, cheia de gordura e resto de comida fora e fui lavar a louça!
Sim! Eles deixam TUDO pra cleaner limpar! Mesmo que ela só seja paga pra trabalhar por 2 horas...
Daí a correira: só tenho duas horas pra limpar tudo!
E o que dá?
Naquela velha história deeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!

Só pra inglês ver!!!!!

Sim, o que seria uma faxina, é só uma enganação porque não dá pra vc limpar uma casa inteira em 2, 3 horas, mesmo em quatro se deixam até camas pra fazer e jogar lixo fora... além da louça e da roupa pra pôr pra lavar, secar e, o pior, passar!

Lavei a louça, limpei a pia... e aí fui pro maldito hoover...
Como Marciana estava com a mão machucada é claro que eu teria que "hoovar" a casa...

O mais engraçado dessa casa é que ficava na única rua sem asfalto que vi em Londres... até pus foto dela no meu facebook...
Hoje não acho essa casa tão suja... vi piores...

Também tive que passar roupas... foi aí que aprendi a passar camisa social, coisa que nunca tinha feito na vida e Marciana me ensinou com aquela cara: essas moças de hoje em dia não sabem fazer nada!
Melhor não saber, assim se se vive com um cara que usa camisa social fala pra ele ir na tinturaria rs
Mas aprendi... naquelas porque eu não tenho saco pra passar roupa... mas dá pra enganar bem... acho rs

A casa era até bonita, cheia de fotos de lugares exóticos que o casal já tinha visitado e o pai da dona da casa, pela foto, deveria ser uma figuraça, tinha foto dele e da esposa quando eram jovens, nos anos de 1960, ele parecia um dos caras dos Animals... é muito interessante entrar em casas realmente inglesas pra ver a história vivida dentro delas...

E claro que eu não poderia terminar essa postagem sem uma linda observação de Marciana quando me mostrou a foto de casamento do casal: ele de camisa rosa e ela:
Só aqui que homem usa camisa rosa e no casamento e ninguém fala nada!

Já perceberam a figuraça, né?

08 setembro 2011

Mais coisas ainda do final de 2010

Quando trabalhava com o casal do sul, eles trabalhavam quase no esquema de vans, ainda em começo de carreira, mas é o que eles deveriam fazer em breve, pelo menos pretendiam. Tinha várias casas e pra trabalhar em várias no mesmo dia precisa-se de um batalhão.

Porque você ganha pra limpar uma casa em 5 horas, como já contei, e com um monte de gente, faz em 1,2 horas e paga uma miséria pros "assistentes".

Voltando, eles estavam procurando um ajudante pra todos os dias, integral e eu não quis, porque nunca foi esse meu objetivo aqui, por menos que ganhasse e passasse sufoco vendo meu dinheiro ir embora...
Trabalhei judando nos dias que pude e eles conseguiram um outro ajudante, um rapaz de São Paulo, de uma cidade próxima da capital, das várias dormitórios ao redor da big city.
Ele me disse que estava aqui há uns 2 anos, que em São Paulo trabalhava no palácio do governo, como garçom, um dia, encheu o saco, pegou férias e veio tentar a vida aqui...
Não fala praticamente nada de inglês, ilegal, procurava uma documentação ou um casamento fajuto. Eu fiquei beeem quieta...

O nosso grande amigo de trabalho é o famoso Henry, um dos aspiradores de pó mais usados nas casas aqui, ele tem uma carinha simpática:

Só a cara simpática... porque é pesado que a p*rr@! rs

O rapaz me disse que achava esse "hoover" (já até esqueço o nome em português de tanto que falo 'hoover', 'cleaner', 'shower', 'toilet', 'feather', 'mop', 'brush', 'brum', 'kitchen', 'tissue', 'wepping', 'bin', 'cloth'... esse é o vocabulário da "criner" rs), então, o rapaz achava que esse hoover é muito bom e disse que comprou um e mandou de presente pra mãe dele...
Eu fiquei só olhando e pensando: coitada dessa mãe, homem só acha que mulher tem que ganhar mais trabalho, né? aff mais uma vez, fiquei quieta...

A mulher só ouvia no rádio do carro, indo de uma casa pra outra, uma rádio no estilo Antena 1 e virou pra mim e disse: só músicas do NOSSO tempo!
E eu: ãh?????? Bee Gees e outros não são do MEU tempo... quem ela pensa que eu sou?
Mais uma vez, não lembro se falei minha idade pra figura... mas ela é mais velha que eu e tem um filho de 20 anos...
Não que eu não pudesse ser, se tivesse sido precoce... mas daí a ouvir Bee Gees e dizer que é do meu tempo??? Vai a PQP!!!!!

****
Nem tudo foi ruim na casa de GG, lá, finalmente, consegui ir em um Job Centre e tirar meu famoso insurance number e num GP (posto de saúde) e tirar minha carteirinha pra usar...
A carteirinha pra usar o GP do NHS (INSS daqui) eu consegui até mais fácil que da vez que tive alergia na casa da Collorida... depois, não sei se comentei, descobri que não era bicho que tinha me mordido em Portugal e sim, que naquele colchão tinha o famoso bedbug...
Imagine: só chove, faz frio, nunca a casa e o colchão tomam sol... o que acontece? Claro que não ia descobrir isso pela Collorida, por ela, que os bichos me comessem, desde que pagassem o aluguel...

Dessa vez quis marcar um médico porque não aguenta, achava que tinha gripe e era minha alergia ataca à enésima potência, graças ao meu amigo do coração: o heating, ou o aquecimento e o meu carpete fedido de rato e que a Pureza (lembram?) falou que se eu quisesse ela tinha a máquina pra EU lavar o traste...

O que acontecia era o seguinte: minha garganta ardia como fogo, não conseguia falar direito como se tivesse perdido a voz de tanta dor de garganta e nada disso era gripe.
Cansei de tomar chá de pomegranate, ou a famosa romã que todo mundo come aqui e eu só via se tomar chá pra garganta no Brasil. E lá se foi xarope, remédio pra gripe que diziam ser tiro e queda...
Claro que não faziam o mínimo efeito: o problema era a alergia.
O heating também devia ser tão limpo quanto o carpete e ficava bem na cabeceira da minha cama... troquei de lado, comecei a pôr a cabeça pra dormir no lado dos pés. O ruim é que era onde ficava a tv e ficava complicado. Desligava o heating durante à noite, deixava o quarto quente e desligava pra conter o transtorno...
Só depois percebi que a garrafinha de água que deixava no quarto enchia de bolhas, como se estivesse esquentando... não era só esquentando por conta do heating, era porque ela ia secando, como minha garganta, porque esses aquecedores dos infernos, para aquecer, precisam tirar toda a umidade do quarto, inclusive a umidade da pessoa que dorme ali...

****

Nesse mesmo período ia até a casa da Marciana, fiz amizade com ela, porque estava numa fase de quase perguntar a todo mundo: você quer ser meu amigo? eu queria taaaaaanto um amigo...

E é aquela coisa: você só conhece realmente a pessoa quando convive diariamente com ela...

Só que depois de quase 4 meses em Londres e sozinha, já não aguentava mais me sentir sozinha...
Um amigo que mora em Dublin até esteve aqui e me senti a pessoa mais feliz do mundo de ter alguém pra passar uma tarde de sábado batendo papo num Costa (uma cafeteria famosa aqui e mil vezes melhor que o Star-água-bucks). É horrível estar sozinha, tão sozinha...

Foi assim que comecei a engordar... descontava toda a minha tristeza na comida, comia potes de Haagen Dazs  (é barato, ainda mais no inverno), um chocolate delícia com gostinho de laranja... e eu nunca curti esse tipo de coisa, mas esse... nossa:
Ele é assim, todo em gomos, como se fosse laranja e eu comia sem ver assistindo Friends na TV rs
Entre outros quitutes... me enchia...

E aí resolvi ser amiga da Marciana, mas muito em dúvida se ia ou não pra casa dela... tinha que ter outro jeito... (mas não teve).

Um dos fatos mais loucos foi quando fui até a casa de um casal de amigos dela, eles voltariam pro Brasil e a moça trabalhava com casas, e um dessas casas que ela limpava era de uma italiana, como ela soube que eu estudei italiano, passou a casa pra mim, antes de voltar pro Brasil.

Dois jovens de BH que moraram aqui por 3 anos, se mataram de  tanto trabalhar, ela nas casas e ele em restaurante para juntar dinheiro.
Juntaram tanto que a primeira vez que juntaram, pra comprar um terreno na cidade onde moravam, deram pros parentes comprarem, segundo conta a história, compraram de uma imobiliária de mentira que levou o dinheiro deles...
Da segunda vez, não foram bobos, guardaram pra comprar quando voltaram...
Só que ele abriu um negócio e ela comprou seu próprio apartamento, fizeram bem, apesar de ilegais, como sempre...
Ele teve a graça de me mostrar o passaporte e identidade portugueses para comparar com o meu, original, pesado e bem feito. E ficava: nossa, o seu é bem pesado, mais bem feito (dã!).

Daí descobri a nova: inglês de rua...
Ele me disse que falava bem o inglês, mas o de rua, assim como a irmã dessa menina também me falou o mesmo...
Nova definição...
Não, não se trata de gíria, de slang, se trata de brasileiro que mal sabe falar seu idioma e falar o dos outros mal e porcamente... daí inglês de rua...
Não que ele falasse mal, o cara tinha fluência, mas não queria dizer 100% aprendizado Murphy rs - nem 50% acho rs
Porque você aprende falar inglês "na rua" com outros estrangeiros que também falam como lords na câmara...
Aí a irmã falava: eXcRusivi e me dizia:

eu prestei o IELTS, na parte de gramática eu não devo ter passado, mas na conversação eu passei! Eu falo inglês de rua, mas falo!

Ela fazia curso de inglês aqui só pra ter visto, mais faltava do que ia na escola, o que interessa é o visto de estudante... por 6 longos anos... (no caso dela).
Fazia numa das famosas escolas da chamada "fábrica de visto"... (já deu pra sacar o nível só pela aluna rs)

Eles juntaram dinheiro e coisas... mandaram por navio 200 kilos de coisas antes de viajarem... e fui com Marciana no aeroporto dar tchau pras figuras...
Levaram mais 4 malas, chegaram atrasados, se eu não tinha falado pra Marciana de ficar na fila, teriam perdido o voo...
Chegaram no guichê: peso extra (isso porque mandaram 200 kilos por navio...).
E vai a correria da irmã da menina ir comprar outra mala no aeroporto e eles abrirem mala pra todo lado, no meio do caminho e pesar na balança que fica perto do guichê da TAM... (o preferido pelos brasileiros).
E daí só se via tênis com perfume dentro, um monte de tranqueira saindo das malas... como até patins...
A menina tão simplória, eu diria, levava na mão um Toblerone enorme que comprou, queria comer dentro do avião... tive que avisar que ela não poderia fazer aquilo... que seria barrada, só se comprasse lá dentro e levasse na sacolinha do freeshop...
Ajudei com as malas e ficava vendo aquele desespero louco, primeiro porque chegaram atrasados, segundo porque não ia dar pra levar tudo...
E não deu: a irmã ficou com algumas coisas por aqui...
A maior parte das coisas que compraram eram futilidades para mostrar pros parentes e amigos no Brasil, como uma câmera digital que você pode fotografar no escuro que sai perfeito e que tira fotos de uma plano maior do que se consiguiria numa câmera normal: não se precisa tirar várias fotos pra pegar um plano todo... ela faz isso...
Babei na câmera, mas... não deixa de ser futilidade...

Conseguiram embarcar... na volta, de metrô, a irmã dessa garota e a prima falavam das casas que lipam aqui. Que fazem as casas de gato e sapato.
Limpam de qualquer jeito porque tem várias casas no mesmo dia (mesmo esquema do dono da van, mas sem escravos, digo, empregados), ou seja, eu tenho 4 casas de 4 horas. 16 horas de trabalho? Claaaaro que não! Eu faço a famosa limpeza "pra inglês ver", almoço na casa (pegam comida da casa ou fazem comida com os alimentos dos donos da casa) e vou pra outra!
Outra palavra bem comum entre as "cleaners" aqui é tapa "ah, eu dou um tapa" é, pra mim, de tapear...

Não que toda faxineira é desonesta, mas uma grande parte sacaneia o patrão na cara dura...

Soube de casos em que se a cleaner ficou cansada e tem tempo sobrando, dorme na cama do dono da casa, ele está trabalhando mesmo...

A maioria das faxineiras têm chave da casa, os donos foram trabalhar e deixam um chave cópia pra cleaner. Ela vai a hora que convir e limpa, do jeito que convir também...
Deixam também o dinheiro de pagamento. Bom para pessoas ilegais, bom para ingleses que querem fugir do "tax" (imposto) de ter um empregado em sua casa e parecer rico pro leão daqui.
Mas não se preocupem! Em breve eu vou contar o outro lado da moeda: de que muitos desses patrões ainda tem empregadas muito legais para a porquice que são as casas deles... não é porquice de falta de limpeza, em alguns casos, falta de higiene mesmo...

29 agosto 2011

Mais acontecimentos, ainda na casa do GG

Durante os dois meses que morei na casa de GG e Pureza, além de morar com um rato, também passei por várias situações.

A primeira foi conhecer a neve, o primeiro dia que caiu neve aqui, dia 30 de novembro do ano passado, ainda me lembro, começou a nevar... estava na rua. Fiquei emocionada, ria como criança, deviam me achar uma boba no meio da rua, mas foi muito, muito legal!
Aquelas bolinhas que não eram gotas de chuvas e caiam forte, todos se protegiam, menos eu, eu queria sentir, ter certeza de que o que via era neve... incrível essa sensação... realmente voltei a ser criança naquele dia, de tão feliz.

Comecei a trabalhar numa escola para filhos de brasileiros, para que eles aprendam português e a cultura do Brasil, sou praticamente um voluntária, mas meus sábados mudaram e conheci pessoas diferentes que tenho amizade hoje.

Também comecei a trabalhar com faxina... infelizmente não  tinha como: meu dinheiro estava acabando, a semana a 85 libras de aluguel pra dividir com um rato e dormir com um carpete imundo que me dava uma alergia louca, não me davam alternativa: tinha que ver o primeiro trabalho que viesse e tinha que ver outro lugar pra morar.

Uma prima da minha mãe, contou para a minha tia que uma mulher que ela conhecia, que tinha uma perua em que vende ovos etc tinha uma filha que morava em Londres e ela alugava quartos.
Minha mãe achou que talvez esse fosse o caminho para eu mudar de casa.

Minha tia passou o contato da mulher e fui eu em Elephant & Castle (parte centro-sul de Londres, impregnada de brasileiros, latinos e caribenhos) é um lugar muito perto do centro. De ônibus você leva uns 15 minutos até o Big Ben, por exemplo.
Só que chegando lá, conforme as indicações da dona, fui achando o lugar extremamente horrível: me vi numa Cohab (desculpa você que mora na Cohab, mas aqui é pior) imunda, caindo aos pedaços, um lugar que não imaginava achar em Londres, pessoas com caras mal encaradas, rua principal entre as cohabs suja porque todos os dias tinha feira ali (aqui, a rua da feira, ou do market, é todo dia feira, menos segunda).
Ia andando e pensando: não pode ser nesse lugar! Prédios iguais, não pareciam velhos, mas muito mal cuidados. A mulher me disse pelo celular que me encontraria no caminho porque o elevador estava quebrado...
Eu pensei seriamente em voltar pra trás... mas não tinha dinheiro pra ficar de luxo e precisava pelos menos ver...
Encontrei a mulher, que nomeei de Marciana, em breve entenderão o porquê, uma mulher bem simpática e que me levou até o prédio certo que eu não acharia.
Entramos por outro prédio, pelo elevador do outro prédio.
Ela se gabava de morar tendo como vista a London Eye, se via quase todos os principais "heritages" de Londres dali: Big Ben, London Eye, Saint Paul...

Daí conheci a casa... cheia de mofos pelos cantos das paredes, meio escura, precisando seriamente de uma reforma e na qual teria que dividir com outra pessoa o quarto...
Até aquele momento, parecia até tranquilo, mas não queria, iria aguentar mais um pouco na casa do GG, o rato iria sumir...
Ela prometeu me ajudar, que logo eu arrumaria um emprego fixo, que ela tinha muitos contatos e dizia porque eu morava tão longe, ali era uma ótima localização!
Realmente, geograficamente, a localização é ótima, as moradias é que não prestam... por conta de seus donos e landlords... eles naõ cuidam como todos fazem: só querem dinheiro no bolso.

Para ir embora, ela me disse pra descer as escadas, que ficaria mais fácil...
Conforme descia as escadas, cinco andares, mal iluminadas e sujas... fui pensando que não queria morar ali de jeito nenhum! Encontrei até um absorvente feminino sujo na escada e sai como louca, corri nas escadas e só pensava: aqui eu não quero morar!!!

Marciana realmente me indicou empregos, falou porque eu não trabalhava nas vans (já contei aqui sobre elas, né?) e achei aquilo o fim da picada, mas ela me passou a indicação de uma mulher que precisava de ajuda apenas por alguns dias na limpeza de casas...

E lá fui eu acordar às 4:30 da manhã num domingo, o domingo em que o rapaz goiano levou peixe pra casa e ouvi aquela conversa que me pareceu muito estranha...
Teria que pegar o trem, era beeem longe onde encontraria a mulher para a limpeza... e teria que estar na estação certa às 7 da manhã.

Cheguei, a encontrei, ela e o marido, do sul do Brasil, me levaram até a primeira casa. Na verdade, não era a casa, só um escritório que ficava bem nos fundos do quintal. Um escritório que ficava cheio de folhas das árvores que caiam e só era limpado uma vez por ano...

Depois fomos limpar a casa de um senhor inglês viúvo e que tinha estado na 2a Guerra. Ele ficava na dele enquanto limpávamos e eu só pensava: cadê a família dele? é Domingo!
Daí ele foi no forno pôr um congelado pra ser o almoço dele... que vida triste, gente!
Só que no final eu entendi: quando íamos embora, ele dava bye-bye pra gente quase nos botando porta pra fora... educação britânica!

A moça me dizia que muita gente gostava de trabalhar com ela e o marido, porque as pessoas diziam que riam muito com eles.
Eu não ri nenhuma vez: só via ela dar altas cortadas nele e ele, quieto...
E ela ainda me dizia: já consegui casar, tá bom, ou seja: casei e pronto, ninguém pode falar o contrário, seja bom ou ruim.
Ele tinha cidadania italiana e ela ganhou de lambuja...

Nesse dia, voltei cedo pra casa, cansada, mas tudo bem...
O problema foram as casas que fiz durante a semana: 7 casas num dia...
E ela sempre me dizia:
Você fica com o banheiro.

E virei uma expert em limpar banheiro... morria de raiva, nem era raiva, era tristeza mesmo... tinha que me sujeitar porque as aulas eram poucos, o dinheiro acabava e o aluguel que eu queria manter era arrasador...

Cheguei em casa depois de sete casas e só quis deitar na cama.
Fiquei lá estirada, tentando descansar, não aguentava mais. Estava extremamente cansada, acabada, moída... e ainda tinha GG e Pureza no seu banho de espuma... e pra eu tomar banho?

Fiquei pensando enquanto estava derrotada na cama: se aquilo era vida, se isso seria só por aquele momento, que precisava fazer algo... pensar... pensar... sofrer... sofrer...

E nada mudou muito na minha vida, ainda comecei a fazer aulas de inglês, minha mãe mandou dinheiro pra que eu fizesse, e parti pras aulas particulares para ver se isso adiantaria meu aprendizado, fiz amizade com a professora e a mãe da professora que me ajudou em muitos momentos.

Tive que pedir dinheiro para o meu pai, para, pelo menos, ter um Natal digno: ir pra Portugal na casa das minhas tias, quando voltei de lá, voltei para morar na Cohab...não teve jeito, foi a única alternativa que me restou naquele momento.

27 abril 2011

E se Kate Middleton fosse uma indoc?

Para quem não me acompanha no  twitter ou qualquer outro contato além desse blog, ainda não sabe o que é um "indoc".
Indoc foi um apelido carinhoso que dei aos brasileiros ilegais aqui.
Uma mulher que mora comigo, e eu sei que vocês estão loucos para conhecê-la, a Bruxa do Centro-Oeste, sempre se refere a ela e aos amigos como "indocumentados", ela inventou um eufemismo para ilegais. E quem lembra o que é eufemismo já entendeu a razão... (não lembra? aqui rs)

E eu peguei e abreviei carinhosamente para "indoc", pra ficar meio anglicismo rsrs (hoje tô relembrando como é ser professora de português rs).

Bem, tem coisas sobre os brasileiros ilegais, digo, indocs que eu ainda não contei aqui e vou tentar resumir tudo na figura da Kate se ela fosse uma brasileira indoc vivendo em Londres.
Muitos podem ver preconceitos nas coisas que colocarei, mas não será quando eu escrever sobre exatamente essas coisas no futuro, então, nada é "de graça", tudo é o que eu já vi, ouvi, li e presenciei acontecer aqui. Só juntarei todas as peças em uma única pessoa para exemplificar tudo isso.
Discordem ou não, achem ruim ou não é o que eu vivo, nada a mais, nada a menos.

Se Catherine Elizabeth Middleton fosse indoc ela seria Kate Jennifer da Silva, no mínimo, teria nascido em Goiás e estaria aqui em Londres para juntar dinheiro e comprar uma fazenda (??!!!) na sua terra.
Para todos os que estão aqui ela diria que a família tem fazenda em Goiás (é o estado campeão em pessoas não só aqui como na Europa toda), mas que resolveu ter sua própria vida e buscar sua independência financeira (e tem gente que acredita piamente nisso...). Para os que estão no Brasil ela diz: estou cansada de ganhar dinheiro em Londres, está até chato essa vida de roupas, perfumes e acessórios de marca...

Como ganha dinheiro?

Para a família e amigos do Brasil deve dizer que é nanny, babysitter ou que trabalha em loja de marca, mas na maioria das vezes, a verdade é que ela trabalha de diarista (ou "horista" o que é mais comum aqui) e ganha entre 8 e 12 libras por hora cada casa que faz, muitas vezes se mata para limpar até 4 casas num dia para ganhar mais.
Faz o que a maioria faz: dá um tapa. Essa é a expressão mais usada pelas "cleaners" aqui: eu dou um tapa e vou pra outra casa. E assim limpa 4 casas num dia, por volta de 20 na semana se não trabalhar também no sábado. Esse "tapa" é de "tapiar" mesmo.
Afinal, como eu já disse, quem consegue limpar bem uma casa em 2, 3 horas na semana? Ninguém. Sim, é uma limpeza para inglês ver e que eles acreditam...

Se ela não fizer nada disso, pode estar metida em coisa não tão legal, como prostituição, dançarina de boate e até ajudando a fazer documentação falsa.
Afinal, não se esqueça: ela é uma indoc e a maioria dos indocs aqui pode viver 10 anos e não saber falar inglês, pode entender contextos, mas não sabe falar, muito menos escrever em inglês - mal sabe em português muitas vezes. E o trabalho de cleaner não é registrado, não paga impostos, fácil para quem não tem documentação conseguir.
Nos outros trabalhos pode ficar escondida mesmo sem documentação ou fazer um falso, seria muito comum se ela tivesse um passaporte italiano, espanhol ou português falso, além de todo o restante da documentação como o meu querido e famoso insurance number.

Se as casas são dela, ótimo! Senão, se trabalhar para outra pessoa entrará no famoso (aqui) esquema das vans: uma van pega em determinada região da cidade pessoas para trabalhar em casas de luxo no interior de Londres ou já em cidades vizinhas fora de Londres, leva o povo indoc pra lá para limparem várias casas num dia, divide o pessoal para ir mais rápido e fazer mais casas num dia.
Por exemplo: eu fico com a cozinha, Kate com o banheiro, fulano passa o hoover (aspirador), sicrana passa a roupa. O dono da van é o que ganha a grana e paga 5 libras a hora para cada uma dessas pessoas.
Uma casa que foi paga para ele passar o dia ou, digamos, 6 horas e ganhar 15 a hora (num lugar de luxo), ele faz aquela casa em 2 horas, porque o povo trabalhou junto pra limpar, ele ganha 90 por essas 6 horas, e só paga 2 horas de trabalho para cada indoc, pagando 5 que é menos que salário mínimo daqui, mas se você é indoc não pode reclamar de ganhar menos... o dono da van é sempre alguém "documentado" e que se se irritar com você, lhe denuncia pra imigração, afinal, indoc tem de monte, manda esses pra casa e vem outros...
Daí vão pra outras casas...

Kate Jennifer teria uma dessas vidas e sempre tiraria fotos e mandaria roupas de marca para os parentes no Brasil (ué? mas o povo não é fazendeiro? por que ela tem que mandar roupa de marca pra eles? eles não compram no Brasil!???!  pois é...)

Se ela fosse garota de programa ganharia tão bem que passaria metade do dia na academia cuidando do ganha pão e falando no celular. Estaria muito afim de encontrar um príncipe como Willliam para conseguir sair do mundo dos indocs e passar a ser uma "documentada".
A maioria tenta e até consegue: ou conquista o cara na cama ou paga mesmo pelo passaporte britânico ou europeu. O famoso passaporte da alegria  não é do Playcenter aqui ...

Claro que nem todos conseguem, para comprar uma cidadania tem que juntar uma senhora grana  (já me proporam casamento por 9 mil libras e já me disseram que eu poderia conseguir um "noivo" que pagasse até 12 mil pela minha cidadania) ou realmente "amar" o cara e casar. Claro que muita gente ama de verdade, não vou desmerecer, mas na maioria dos casos não é entre um cidadão e um indoc que rola amor.
Claro que aí você casa e tem que morar no mesmo teto que a pessoa, Kate agora moraria com a rainha, mas mesmo que não goste, teria que aceitar... e aceitar "dormir" com seu príncipe...
E nem sempre é fácil dormir com esse tal príncipe. Já ouvi dizer que inglês é ruim de cama, outras dizem que inglês faz o que tem que fazer e acabou, vira do lado e volta a ler o livro...
Se você ama esse cara, se sentirá uma merda, imagine se não amar...

Bem, eu torço para que se salve algum inglês rs
Mas é muito pior pensar que porque está no mesmo teto que o cara ele poderá querer algo mais de você além das 9 mil libras... e aceitar para não ser denunciada e extraditada.

Kate Jennifer não mediria esforços para casar com esse cara e aturaria tudo isso, falaria depois mal dele para as mais chegadas no celular, dentro do busão e esqueceria que poderia ter mais brasileiros que entenderiam a conversa dela, mas seria só esperar o tempo de conseguir o passaporte britânico e aí partir para outro que quisesse, até um indoc que amaria casar com ela e depois ter também seu passaporte.

E outra: melhor morar só com o príncipe e a avó rainha do que dividir casa com outros indocs ou pior: dividir vaga em quarto - é um roubo o aluguel em Londres e pra ficar mais barato muitas vezes o jeito é alugar uma vaga e dormir no mesmo quarto com gente que você não tem ideia de quem seja... além de saber que são indocs.
E ter um landlord que não se importa se a casa tem rato, se o chuveiro quebrou, se a água do banho está gelada, se a casa está imunda porque ninguém limpou... dane-se, eu só apareço na casa pra receber e falar 'ah, vou ver isso'...

Kate Jennifer ficaria sem ver a família por anos a fio, porque seu passaporte, na hora de ir embora, poderia ser carimbado pela imigração como tendo passado mais tempo do que deveria e não poder mais voltar para Londres, mas quem disse que não há jeito pra isso?
Antes da viagem, um mês antes, ela vai na delegacia e diz que foi assaltada: levaram dinheiro, celular, PASSAPORTE etc.
Faz a queixa, registra b.o. e leva isso no dia da sua partida para garantir: eu fui roubada, não tive tempo hábil para fazer um novo passaporte ou... fui roubada e esse é meu passaporte novo... novinho... sem carimbo de data de entrada...

Mas casando-se com um príncipe todos esses problemas acabam e pode-se visitar quando quiser a família com o maridão estrangeiro, fazer a cidadezinha babar nas suas roupas, sapatos e bolsas de marca - algumas marcas são realmente muito mais baratas aqui, como a GAP - viu brasileiro com camiseta da GAP de Londres? não se engane, ele comprou em promoção por 9,90 £ -, e claro, se seu maridão for bonito, a mulherada vai sonhar em vir pra cá casar com inglês... e vai vir mesmo!
Achando que tudo é um sonho. Um conto de fadas.

09 março 2011

A patada da Botocada

... e parando mais uma vez a saga... pra mais uma patada...

Bem, como já deu pra perceber, patada aqui é mato... (ou parque, se acharem mais a cara de Londres).
Comecei semana passada, exatamente quarta passada, a limpar a casa de uma mulher.

As faxineiras aqui "vendem" casas e eu comprei essa por 120 libras (sim, vou chorar de raiva...) que seria o que a ex-dona ganha por mês com a casa: 3 horas por semana, cada hora 10 libras.
É a máfia da faxina daqui... dificilmente haverá uma casa sem "dona"... você, se quer limpar, vai ter que comprar de alguém e sempre tem quem venda porque está voltando pro Brasil ou porque tá de saco cheio da dona da casa... e pretende comprar outra.
Achei que fosse uma coisa boa pra mim, ficar com casas pra eu limpar e ter um horário mais flexível: ledo engano...

A casa da mulher tem 4 andares (se contar o térreo), as casas aqui são assim: você não dá nada por ela até entrar e ser enorme por dentro e aí ir pras alturas...
Voltando: 4 andares, 4 quartos, 1 escritório, 2 banheiros, todas as escadas com carpete (mais os andares que não o térreo), 2 salas e uma cozinha razoavelmente grande. Tudo isso para se limpar em TRÊS HORAS.
Sim, as inglesas pensam que fazemos mágica...
E acreditam piamente que fazemos, porque são descaradamente enganadas, como diria minha mãe, elas são enganadas pela limpeza por onde o padre passa, ou seja, só onde a trouxa vai reparar.

E eu, a ingênua imbecil, resolvi, ser legal!
Resolvi fazer uma boa limpeza para a mulher gostar de mim pra eu poder continuar limpando a casa...
No primeiro dia, quarta passada, em TRÊS HORAS, não consegui limpar a sala, até que consegui todo o resto e passar pano na cozinha: tirei pó, aspirei quartos e escritório e limpei os banheiros...
Lembre-se banheiro aqui quer dizer que, pelo menos um, como nessa casa, tem banheira pra limpar...

Bem, quando terminei e ainda fiz meia hora a mais porque ela ficou me explicando onde estava os produtos e tal (além de eu ter que esperar pro lado de fora da casa que ela tinha saido e voltou depois do horário combinado, sim, pontualidade beeeem britânica...), resolvi ficar mais um pouquinho pra compensar, sempre tentando ser legal. E ela viu a limpeza que dei na penteadeira dela, de vidro, enorme e cheia de cosméticos, e ela: lovely!

Pensei:: ganhei a mulher! Porque ela falou pra eu vir duas vezes na semana e na segunda seriam mais 3 horas.
E eu já comecei a sonhar: a mulher vai me pagar dois dias, vou poder ficar mais tranquila pra estudar, pra me mudar...
E ela pediu pra eu ir na segunda (dia 7 que passou) para limpar a sala, porque ela queria tirar as coisas que ela tem lá de aulas de ginástica (ela dá aulas acho que de pilates ou algo assim e é quituteira de casamentos, festas e funerais - como a tradição bizarra daqui de ter uma "recepção" depois do enterro...aff) como bola gigante, pesos, plaformas pra estepe que ela me ajudou a tirar para que eu pudesse limpar atrás e do lado do sofá...

Estante enorme, pedi uma escadinha para poder limpar na parte de cima e ela ainda me trouxe o espanador e um outro troço que serve pra limpar o aquecedor, dois na sala, é tipo aquele negócio de limpar mamadeira, porque o aquecedor é cheio de furinhos... passei de um em um...

Tomei o maior cuidado com a escada pra não quebrar nada, além dos cristais, porcelanas, quadros, candelabros e espelhos...

Fiz a faxina na sala (nas duas, uma com dois ambientes), limpei até as janelas por dentro e tirei teia de aranha do teto...

Mas ela queria que eu ainda passasse um bom pano na cozinha e ENCERASSE a mesa da cozinha, porque é de madeira e antiga e ela tinha até a cera de polir específica, que eu passei, até em outros dois móveis com a mesma madeira. E polir mesa foi um horror... como isso de passar cera é horrível! Mas fiz...
Tudo isso em TRÊS HORAS.

Até aí, tudo bem... ela olhou o que fiz e disse de novo: lovely!!!
E fui embora com ela me dizendo pra voltar hoje, quarta-feira.

Mandei uma mensagem ontem pra ela, porque teria que mudar o horário pra eu ir na casa dela hoje. E ela me manda esse singelo recado que escrevo palavra por palavra para vocês:

Hi Regina
Tomorrow would be fine at 12pm. I think we need to talk tomorrow as think that you very clean very slowly. For £10 per hour I do expect more to be done in the house and if you cannot clean faster - i will have to find someone else. Sorry about this but I needed to tell you. What do you think?  Do you still want to come tomorrow?
Botocada

Sim, a dona da casa é uma tipa perto dos 50 fingindo ser novinha, com calça baixa para quando vai mostrar algo aparecer a calcinha de renda da tiazona moderna, com botox e bronzeamento artificial - nenhuma inglesa tem cara de quem saiu agora da praia de Búzios... - e cabelo curto todo fashion...

Então, quando li isso fiquei totalmente sem forças... poxa... tô cansada de me dizerem que sou devagar, que sou mole que eu não fiz isso que eu não fiz aquilo... chega, né?

EU NÃO SOU CLEANER, EU NUNCA TRABALHEI COM O CORPO (no bom sentido) SEMPRE TRABALHEI COM A MENTE, NÃO ESTOU ACOSTUMADA! NÃO É O MEU MUNDO!

Claro que sinto dificuldade, mas hoje eu já estou acostumada e rápida nesse serviço, já não sinto o mesmo cansaço que no primeiro dia... já sou mais ágil,  mas a verdade é que eu quis mostrar o quanto sou cuidadosa e o quanto eu sou organizada e limpo bem... saiu pela culatra...

Respondi que iria na casa dela pra conversar.
Fui na casa da mulher hoje... pensei e conversei com meu irmão ontem: conversamos e nos entendemos, talvez ela pensou isso porque demorei com a sala, mas era cuidado com as coisas e tudo mais e eu sei bem como é a limpeza da maioria das faxineiras aqui (onde o padre passa). Então fui com a intenção de que as coisas ficassem mais claras do meu zelo e limpeza.

Cheguei na casa, ela me esperava e disse que não sabia se eu poderia continuar porque todas as outras faxineiras que ela teve eram rápidas e mostrou fazendo como se limpasse a parede com um pano rapidamente. Eu me expliquei dizendo que tive cuidado com as coisas e que nunca tinha tido reclamações do meu trabalho nas outras casas (que casas? rs) e que isso era estranho pra mim...
Aí ela me chamou pra ir ver o banheiro, antes de chegar no banheiro, do lado da escada tinha uma mesinha com livros que ela passou a mão e veio me mostrar o pó...
Certo, não lembro se limpei mesmo ali... posso ter esquecido... muita coisa na casa... e poderia limpar na segunda vez... mas eu acredito que tinha limpado, sim...
Entrou no banheiro e começou a falar e apontar os cantos do banheiro, cantos perto da privada, da pia e a prateleira do banheiro que dizia estar suja e eu "mas eu limpei!" e ela pegou um pano e passou e me mostrou o pó.
Sim, eu limpei a prateleira, mas não tive tempo de tirar um por um cada coisa que tinha ali na quarta, pensei em fazer isso hoje. E aí começou a me mostrar como limpar e me dizia sempre: simples!
Ela passava o tal pano no chão, nos cantos e vinha me mostrar, na janela e mostrar... mas eu tinha limpado tudo aquilo SEMANA PASSADA, é claro que teria pó... e ela sempre perguntando se eu queria ficar hoje pra ela ver como eu me saía.
E deixou na minha mão se eu continuava ou desistia.

E ainda veio com um "será que você não entende o que eu digo?"
E eu: eu posso falar mal o inglês, estou aprendendo, mas entendo perfeitamente".
E ela: ah, você entende...

E quando ela começou aquela cena de passar o pano em tudo e me mostrar, eu me senti tão mal, tão mal que eu "pedi pra sair":
I'm leaving!

ela: Você prefere assim?
E eu, sim, prefiro, se você não gostou do meu trabalho, acho que não dá mais.
ela: Ah, talvez tenha sido incompatibilidade de gênios, né?
eu: Sim, pode ser...

E fui embora... meio cabreira, meu (rs)
Perdi 60 libras - só ganhei 60 na casa... mas melhor assim, mas que esse dinheiro fará muita falta, fará...
Mas acho que foi o melhor que fiz... porque aquela mulher iria pegar no meu pé sempre, sempre! E ela falava tudo com um sorriso no rosto... como se tudo fosse apenas uma coisa simpática que ela falava pra mim...

Não sei, cada dia mais acho que esses ingleses são sádicos, perversos, sem amor a nada, só ao dinheiro e as horas pagas...
materialistas totais...
Afinal, uma boa limpeza não pode ser medida por horas, não dá pra limpar super bem uma casa desse tamanho em TRÊS HORAS.

Eles só enxergam os superficial... onde o padre passa e o quanto gastam com isso...