20 março 2017

mais camelagem com Anjo

Anjo? era esteticista, mas as coisas não iam tão bem para ela, assim como de modo geral na Inglaterra em 2011. Perdeu muitas freguesas e precisou se virar: limpava a casa de duas ou três freguesas e cuidava de uma senhora de idade.

Ela ia cedinho todo dia para a casa dessa senhora para ajudá-la a tomar café e tudo mais, depois a senhora ia para o clube e ficava por lá. Às vezes dormia com ela quando ficava sozinha, fazia companhia.

Duas das casas que ela limpava eu conheci, fui junto limpar, mais uma vez fui faxinar casas, oh vida!

A primeira era Chelsea e quem não ia gostar de ir até Chelsea, perto do parque do bairro que é lindo e ainda tem um templo budista?
O apartamento era de uma mulher separada que tinha um filho. Casa cheia de brinquedos, mas bem mais organizada e limpa que as casas que conheci com Marciana.

A segunda casa sim, é digna de nota: de uma naturalista radical. Não se podia usar produtos de limpeza normais porque afetam o ambiente. E com produtos mais "fracos" era trabalhoso limpar, assim como passar a roupa sem produtos que a deixassem mais fácil, era um tormento, que ficou por conta de Anjo? que já tinha as manhas com aqueles tecidos horríveis e que não ficavam passado nem com reza brava!
O ferro também era de outro tipo, que demorava a esquentar, mas que consumia menos energia elétrica... tudo muito politicamente certo, mas que ajudava a escravizar mais sua faxineira... por um lado o meio ambiente, por outro a vida das pessoas que precisam trabalhar... complicado...
E não pagava lá grandes coisas para Anjo? A dona da casa era cheia de manias, mas também não pagava tão bem pelas manias que tinha. O que seria justo, afinal pessoas fazem parte da nossa biosfera, né não?

Não recebi pagamento, preferi que fosse descontado no meu aluguel o trabalho que fiz, já era uma ajuda na minha limitada vida financeira...

Daí fui trabalhar na casa de uma amiga de Anjo? só que essa é outra história longa... imagina... mais um goiana na minha vida! (arrepios!)

05 março 2017

A nova vida em Olympia

Depois de tanto contar sobre trabalho e outras coisas, finalmente falo um pouco de Anjo?

Anjo? com esse ponto de interrogação porque eu não sei até que ponto foi um anjo na minha vida ou não. Por ter me aceito na casa dela e me tirado de Elephant & Castle e me colocado a 10 minutos de High Street Kensignton é um bom motivo, mas custou um pouco caro... vamos ver na balança...

Ela é esteticista e como eu ia até ela - já contei isso - ela acabou me oferecendo morada. Depois fui percebendo que ela precisava de alguém pra dividir o lugar, não era só por bondade...

Como todo mundo ela tinha defeitos, o primeiro era a insônia... enquanto uma me acordava às 5 da matina, a outra ia dormir às 2h. Ficava até tarde na TV pra pegar no sono. Ela tomava remédios pra dormir e usava até um que grudava na testa, mas não pareciam surtir efeito. Era uma pessoa boa, conversava bastante comigo sobre os problemas do Reino  Unido e na diferença que era para quando ela chegou lá, há 25 anos, para trabalhar com diplomatas.
Pagava 55 a semana, cinco a mais pela eletricidade gasta, nada que me impediria de estar numa casa mais limpa e num bairro melhor.
A insônia de Anjo? atrapalhava um pouco porque eu queria dormir e não conseguia com a TV ligada.
Ela também me levou aos almoços que faziam com outros brasileiros amigos dela de  tempo de embaixada e outros que foram se somando. 
Relembrei o que era comida de verdade rs

Conversávamos sobre o Brasil e na época se falava bem pela economia do país e não ter entrado na crise que assolava a Europa naquele tempo... era fácil conviver com ela, apesar de não ser a pessoa mais arrumadinha no quesito cozinha, e deixava a comida estragar no fogão sem guardar na geladeira, por exemplo, não me sentia mal com ela. Era tranquilo, mas a vontade de ir embora era grande demais!

Anjo? Trabalhava também como cuidadora de uma senhora idosa e limpava casa de algumas clientes porque o dinheiro não estava dando, acabei sendo ajudante dela em pelo menos 2 casas. E assim ia ganhando minha vida.
Fui atrás de cursos de inglês, finalmente, me senti um pouco mais segura para ver isso, o que era desde o começo meu intuito, finalmente ia se realizar morando ali.

Farei postagens específicas sobre a escola e as que fui ver além das casas que trabalhei, entre outras coisas. See ya!

11 fevereiro 2017

I predicted a riot: panic on the street of London

Com todo esse caos ocorrendo nesses dias no Brasil, caos da violência escancarada, tenho que contar a semana de medo que passei em Londres, sim a "riot" que aconteceu em agosto de 2011.

Morava com Anjo? (eu sei, ainda não falei muito dela e esse ponto de interrogação só deixa curiosidade) e trabalhava no mesmo emprego, só mudei de prédio e não tinha tantos portugueses me infernizando, apesar do meu supervisor ser um português, mas até gente boa.

No sábado à noite, 6 de agosto, saí com o pessoal da escola. Fomos, na verdade num Congresso de Cultura Brasileira na Europa, o Focus Brasil, depois da discussão do Congresso houve o coquetel e resolvemos emendar uma balada. Grande balada rs fomos parar à 1 da manhã num McDonalds em Putney. De lá peguei um bus pra casa e fui de boa dormir, não soube de nada, só no dia seguinte, dia 07 que haviam boatos de que um negro tinha sido morto por policiais no norte de Londres.

Até aí parecia uma história estranha para quem não vivia preconceito racial, como eu, "só" de nacionalidade, não consegui imaginar Londres imitando Los Angeles ou qualquer cidade grande e racista norte-americana...

Anjo disse que comentou com a irmã que com o norte de Londres as coisas iriam descambar, que lá as coisas eram mais complicadas, havia uma ferida aberta.

Se vocês lembram, morei no norte de Londres por alguns meses, na casa do GG, e percebi que a população era de maioria negra, mas até aí, para mim, não havia nenhum problema, nunca fui uma pessoa de enxergar cor nas pessoas, sempre convivi sem preconceito racial com as pessoas...

Fui para o show do Morrissey naquele domingo, em que Moz chamou o primeiro ministro James Cameron de "camel" e seus fãs riram. Ele comentava justamente sobre a "riot" no norte de Londres.

Voltei pra casa e a coisa estava maior, estava brigando nas ruas, queimando lojas e prédios e uma surpresa nervosa me tocou. Como era possível aquilo numa cidade como Londres? Tão cheia de imigrantes, gente de todas as partes do mundo e que pareciam viver tão bem...

Fui trabalhar na segunda e foi tudo tranquilo, quer dizer, todo mundo foi trabalhar com medo e nos dispensaram mais cedo. Fui pra casa de metrô, estava com medo de pegar ônibus, estavam atacando ônibus e os boatos só deixavam a gente com mais medo.

Na terça avisaram para não irmos trabalhar, nem na quarta ninguém foi. Meus pais perguntavam com medo no telefone o que estava acontecendo e se eu morava ou trabalhava perto.
Não, eu não estava perto de tudo aquilo, mas foi se espalhando pela cidade. Daqui a pouco botaram fogo no centro comercial de Clapham Junction, sul da cidade e onde eu trabalhava às sextas-feiras na casa da Puffy Shirt e estava preocupada.

Ficava em casa, não ia estudar no parque como sempre fazia e ver a TV era ser torturada, ficava com mais medo... eu já tinha me desacostumado a ver as desgraças via TV. As notícias policiais eram muito pequenas na TV londrina, o que mais eu via de violento era a guerra na Síria, que infelizmente dura até hoje...

Na sexta as coisas se normalizaram, o pessoal que aumentou toda a confusão, estavam sendo caçados pela polícia britânica. Quando cheguei em Clapham Junction havia um telão mostrando as fotos dos arruaceiros, fotos pegas pelas câmeras de segurança da cidade. Muita gente denunciava, inclusive pais de pessoas, vejam só, refugiadas políticas que moravam lá... outra mãe que denunciou o filho, ele ia para as Olimpíadas e ela pedia para que ele não fosse depois da vergonha que lhe causou.

Via as lojas fechadas e marcadas pelo fogo em Clapham, fiquei triste pela loja de fantasias que sempre eu passava e ficava olhando algumas engraçadas, mas fiquei triste por toda a cidade e vi que um país civilizado também pode perder o controle quando não cuida bem de questões que ficam sendo sufocadas. É assim que vejo essa parte "norte" de Londres: era uma panela de pressão pronta a estourar.

Vou fazer um post sobre as diferenças que vi entre os estrangeiros, não para criticar países e povos, nem vou citar quais sejam, mas para mostrar que as diferenças, às vezes, não conseguem ser respeitadas do melhor modo por cada cultura não ser só diferente, mas muitas vezes impregnada de conceitos e morais não tão boas, como cansei de falar dos brasileiros...

Eu passei a semana cantarolando a música do Kaiser Chiefs "I predict a riot" e lembrando do verso dos Smiths "panic on the street of London..." rs

05 fevereiro 2017

Eu, Daniel Blake: a pura realidade e os benefícios ingleses

Vi hoje a "I, Daniel Blake" e muita coisa do sistema inglês me fez rememorar coisas que aconteceram comigo.
Vocês devem se lembrar da questão "insurance number" e conta bancária, se não lembram, o link está aí.
Tudo me lembrou muito o que passei para conseguir ser uma cidadã, imigrante, mas uma pessoa, não um número ou seja lá como nos veem. Imagina quando você é um cidadão inglês de direito... você está dentro dos seus direitos e só recebe deveres, deveres irracionais, perguntas imbecis, desconfiança.

A verdade é que o sistema inglês é muito defensivo, como você vê no filme. Você tem sempre que provar tudo e mais um pouco. Eu me lembro como fiquei desanimada, frustrada para conseguir o insurance e não conseguir quem me ajudasse.
No filme a moça, Katie, diz que as pessoas em New Castle são muito mais gentis do que em Londres, realmente... eu só fui perceber isso quando fui para Irlanda e Escócia, mas isso é outra história, para outro dia, o que quero falar sobre isso é exatamente essa falta de gentileza das pessoas: isso mata aos poucos... quando você é honesto (meu caso e de mr. Blake) e estão desconfiando de você enquanto ilegais conseguem tudo por outros meios, mas conseguem.

Não vivi esse período em que as pessoas estão perdendo suas casas do governo como acontece com Katie. Explico:

Há uma lei inglesa que diz que se você é uma moça solteira e tem filho, você  tem direito a uma casa do governo. Não quer dizer que você não pague essa casa, paga. Menos que um aluguel normal, mas se paga. Acredito que no filme Katie esteja dentro dessa lei de benefício.
Quando estava para voltar ao Brasil, havia estourado a questão da máfia das casas alugadas (aquela questão que a pessoa consegue do governo e subaluga ao preço que quiser e quem aluga pode "subsubalugar" os quartos). Essa máfia estava sendo descoberta e parece que a coisa iria feder para os beneficiários (pelo menos espero que para os safados).

Os benefícios ingleses dão casas de aluguel por esse preço menor aos mais pobres, e cidadãos europeus da comunidade europeia e cidadãos europeus que não nasceram na Europa, mas estão há mais de 3 anos na Europa.
Se eu tivesse ficado, poderia ter tentando conseguir um studio flat, o que estaria de muito bom tamanho para mim, mas hoje essa lei deve cair, já que a Inglaterra pediu saída da comunidade europeia.
Dão benefício a você ter um salário que complemente o seu salário se não chega a 100 libras por semana.
Dão benefício se você é sem teto e pode morar num hotel custeado pelo governo e que se paga também um pouquinho ou é totalmente bancado pelo governo. Deve ter sido desse albergue que Katie também fala que morou.

Vejam que há muitos benefícios interessantes para proteger a população britânica, o problema é que o cerco se fecha para se conseguir esses benefícios.

No filme você vê o quanto é burra a burocracia e quanto os personagens sofrem para conseguir o mínimo de dignidade através dos agentes governamentais que fazem pouco caso e são extremamente frios e impacientes.
Isso eu sentia muito, porque não adianta você ter um motivo, tentar conversar, eles não ouvem mesmo. Não é como no Brasil que você conta uma história triste e amolece o pessoal, não, eles não amolecem! E eu sentia muita falta desse "amolecimento" brasileiro, porque é duro você tentar expor suas dificuldades e a outra pessoa só dizer: fuck off! Era praticamente isso e o filme mostra bem.

Teve um perrengue que passei quase antes de vir embora, eu ia contar no momento que chegasse na minha narrativa, mas o filme me faz contar agora.

Trabalhava no outro prédio que não o Império do Fado, como contei da última vez, comecei a trabalhar com alguns portugueses, colombianos e ucranianas. 
Um dos gerentes da empresa ainda era aquele português que deu sinal para o outro quando coloquei na minha ficha que havia tido depressão - deu sinal querendo dizer "melhor não contratar".
Ele não devia mais se lembrar disso e foi com a minha cara, talvez do mesmo jeito que o amigo que era noivo, lembram?
Se não lembram, o amigo que me deu o emprego parecia ter se interessado por mim, sempre era legal comigo até o dia que o vi com a noiva - de aliança e tudo - no metrô e fingiu não me conhecer rs


Voltando, o cara perguntou se eu queria trabalhar umas horas a mais por duas semanas, cobriria as férias de uma menina num prédio encostado na Victoria Station, o que daria uns dois pontos de ônibus de onde eu trabalhava e daria pra emendar: iria trabalhar das 8 às 17 e entraria no meu trabalho às 18, como sempre. Daria pra ir caminhando fácil. Aceitei! Era tudo que eu precisava para ganhar mais um pouco e juntar dinheiro para a famosa viagem pela Europa que queria fazer, eu não poderia perder essa de jeito nenhum!

Depois conto como foi o trabalho, que era com aquele maravilhoso carrinho de limpeza, limpando o dia todo os banheiros e copas de uns 4 andares que cada um tinha duas alas.

Quando, toda feliz, fui receber esse dinheiro no meu pagamento o que aconteceu?
Não é possível como acontecia tanta desgraça comigo, né?

O dinheiro foi comido pelo leão britânico... sim... eu mal ganhava para mim quanto mais para pagar quase tudo em imposto de renda.
Fiquei sem chão. 
O QUE ACONTECEU COM O MEU DINHEIRO QUE TRABALHEI TANTO PRA GANHAR? E MINHA VIAGEM???
Tive que conversar com todo mundo no trabalho para me dizerem que foi algum erro em algum dos formulários onde trabalhei, que era preciso eu ir em todos os lugares onde estava em aberto o formulário de trabalho para ver em qual estava errado...
Não descobri qual estava errado... talvez a de limpeza das mudanças, onde fui e pedi minha ficha, formulário... whatever! dei baixa para não ser cobrada por isso...
Enquanto eu deveria estar num tipo de desconto, ou seja, zero, estava numa numeração em que tinha que pagar o imposto.

Foi simplesmente um inferno!
Fui a vários lugares que me mandaram para resolver isso, ia de um lado pro outro, ia na sede da antiga empresa do Império do Fado, fui na sede da empresa atual... ninguém resolvia, muito menos o local do governo responsável por isso...
Eu só queria saber onde estava meu dinheiro que suei tanto e sofri tanto para conseguir e nada...

Anjo?, a mulher que morei por último, era autônoma e tinha um contador, me levou até ele para resolver o caso.
Consegui receber uma parte ainda lá, mas só quando estava no Brasil, depois de meses é que recebi o restante, descontado impostos e taxas por ser enviado para outro lugar o que deu uns 100 reais... não mais que isso...

Sei bem o que Daniel Blake sentiu, sei bem o que é ser honesto e não ter razão num país extremamente fechado para o diálogo e que não percebe o quanto é imbecil sua burocracia. Sei o que é passar muita raiva e sofrer só mais um pouquinho para ter certeza que Londres não era meu lugar.

20 novembro 2016

Mais um bico: limpeza para vistoria de imóvel

Pelo Job Centre consegui poucos empregos, como o da lanchonete francesa, brasserie? não lembro como era o nome em francês... o certo é que consegui lá e fui chamada em outro lugar na região de Shoreditch, região nordeste de Londres.
Era um escritório que contratava para limpar casas e apartamentos que seriam alugados, ou seja, o inquilino saía e para a vistoria do dono a casa precisa estar impecável para o próximo morador ir visitá-la.
Na verdade, acredito que o escritório era de aluguel de casas e como não queria perder clientes, colocava pessoas para limpar antes dessa vistoria.

Trabalhei apenas 2 vezes lá, era muita humilhação. Também.
A primeira vez cheguei cedo com outras duas moças, do leste europeu, e ficamos pelo menos uma hora esperando para que nos levassem até o apartamento.
Tivemos que esperar uma das moças do escritório nos levar com todo o material de limpeza, inclusive o aspirador de pó, fomos de carro. Não era longe.
Essa primeira moça disse que nos pagaria o tempo que esperamos também e tudo bem.

Era uma casa de dois andares e precisávamos limpar tudo, até marca da porta encostar na parede. Até para isso existe produto de limpeza e a casa estava bem suja. Ainda bem que sem móveis, mas era preciso limpar tudo que nunca havia sido limpado na vida, como janelas, corrimãos, batentes e aspirar o carpete que estava por toda a parte (já disse como odeio esses carpetes por toda a parte?) . Não era nenhum pouco fácil tirar as marcas de giz de cera da criança que morou na casa e estava pelas paredes...

Passamos pelo menos umas 4 horas na casa, nós 4 (apareceu mais uma moça pra limpar também do leste europeu, acho que da Bulgária...) e quando fomos embora, fomos de volta para o escritório e na hora de receber só recebemos o tempo de permanência na casa, mais nada - porque nos direitos trabalhistas ingleses também não tem nada que pague nem um lanchinho... e recebemos aqueles 5,75 do salário mínimo por hora...
A moça que nos atendeu na volta foi mais mal educada, do tipo que não era comida decentemente desde sempre, olhou pra gente com cara de nojo e de cima. Do tipo: sou a gostosa maioral aqui, vocês são umas reles pobres do terceiro mundo. E ficou dizendo que não ia pagar o tempo que esperamos porque isso não era problema dela.

Alguns meses depois recebi outra mensagem de lá para trabalhar, numa outra casa bem mais antiga, ou com aparência bem mais antiga e com móveis. O que é infinitamente pior porque tem os móveis para serem limpos (vocês entenderão já já).

Dessa vez mandaram a gente direto pro lugar do trabalho. Fui de onde morava pra lá, sem ir pro escritório que pagaria depositando na nossa conta, transferência eletrônica.
Cheguei lá e vi que apesar da casa ser menor, a sujeira era exponencialmente maior...
A bulgara estava lá e uma africana, tínhamos as 3 que dar conta em 2 horas da casa - é, tinha o tempo estipulado.

A cozinha era a coisa mais nojenta do mundo! O fogão nunca deve ter visto um produto de limpeza na vida, era pura gordura, assim como o piso e os azulejos e tivemos que limpar tudo, com muito esforço. Era preciso muito produto de limpeza pesado e muita luva nas mãos pra aguentar aqueles produtos, muito esforço na esfregação também!

A cada dia via que minha vida em Londres era mais dura, mais cansativa e mais dolorida para ganhar 5,75 por hora. Sentia-me um lixo porque era tratada como lixo.

Meses depois, tive um problema no meu imposto de renda, sim! Ganhava uma miséria e tive problema de imposto... o que aconteceu é que as vacas desse escritório colocaram um código errado no papel para meu pagamento (nada passa ao fisco!). Eles tinham que fazer, mesmo que eu trabalhasse esporadicamente para lá, um papel - payslip - como o holerite daqui em que consta quanto recebi, quando devo ao fisco e outras contribuições se existem e há um código para cada tipo de remuneração. Colocaram um em que eu deveria ganhar mais e pagar imposto...

Tive que voltar até lá, depois de meses sem ser chamada e pedir o papel, e  encerrar meu trabalho com elas. 
A bonitona bêbada, aquela que se achava, é que me atendeu, chegou no trabalho com uma garrafa de água e outra de redbull pra aguentar a ressaca do dia (não sou nenhuma idiota...) o dia anterior que foi domingo. A maior cara de acabada, mas se achando e fez o papel na hora, que eu tive que depois levar para ser modificado, mas isso é outro imbróglio gigante para outro dia...
Podem ver que eu não tive um minuto de paz...


15 novembro 2016

O Império do Fado - parte 4: a maratona

Não me lembro se contei na última postagem do Império que uma nova empresa iria assumir a parte de limpeza da TfL (Transport for London) e nem todos os funcionários se manteriam com essa mudança. Nova empresa assumiria esse setor, mas nem todo mundo ia ser mandado embora, na verdade, disseram que iriam reestruturar as tarefas e muito boato e conversinhas eram ditas, como de que a empresa anterior foi tirada por ter funcionários de alto escalão roubando coisas grandes nos escritórios da TfL, se era verdade, não sei, foi um dos boatos... que a portuguesada que mandava roubou nos finais de semana coisas como móveis... era o boato. Por isso teriam tirado o contrato com a empresa e dado a outra o trabalho de cleaners ali.

Virou uma maratona, uma correria por pontos, sim, tudo seria anotado em nossos prontuários para ver quem ficaria a trabalhar lá ou perderia o emprego...

Entrei nessa neurose e ainda morava na casa da Marciana, fiquei apavorada pensando o que faria se fosse mandada embora, pois mandava muitos cvs, principalmente estava sempre de olho nas vagas do Job Centre na Internet e nada... isso me dava medo... como eu ia me manter? era pouco, mas dava pra pagar o aluguel da semana.
E ainda por cima eu era uma das mais novas trabalhando lá, ou seja, menos pontuação, quanto mais tempo, mais pontuação.

O que eu ia fazer se fosse mandada embora? E aí que eu tinha que aturar mesmo a Marciana...
 Procurava não chegar atrasada, não deixar nada pra trás no meu trabalho, limpar como sempre limpava, mas sabia que Darthvedrina contava contra mim.
A semana da mudança foi exatamente as semanas que ela ficou de férias, ela sabia que nela ninguém mexeria... em nenhum supervisor.

Até que veio o veredicto, eu e as ucranianas e a russa estávamos fora, além da angolana. Dei pra ver nitidamente como foi a escolha, quer dizer, como os pontos contavam: português 1000 pontos, outras nacionalidades 0.
Não, mentira! 3 portugueses também foram mandados embora: uma senhora que mais faltava do que vinha e queria ser mandada embora, a moça que trabalhava no hostel e queria ser mandada embora porque tinha mais trabalho no hostel e um cara que estava voltando para Portugal. 

Imagina se houve algum complô e cartas marcadas, de jeito nenhum!

Quando soube que seria uma das pessoas a ir embora e só tinha mais uma semana, larguei mão. Não ia ficar com o emprego mesmo, por que trabalhar? E me escondia em alguma sala e ligava pra minha mãe, do meu celular, não usava os telefones de lá. Ficava na maior moleza, não tinha mesmo porque me matar, todo o trabalho que eu tive não era recompensado.

Comi doces e chocolates das mesas dos funcionários da TfL (comi bolos também rs), li as revistas deles e limpei só o que não poderia deixar de ser limpo. Na mesma época, algumas salas estavam sendo desativadas e aí havia mesmo coisa pra limpar porque mesas e repartições tinham sido levadas embora, toda uma ala foi desativada. Exatamente a que tinha uma sala de relax com pôsteres do The Times de alguns filmes famosos como Casablanca, Dr. Jivago, O Vento Levou, Manhattan e Conspiração Internacional. Subi nas paredes e levei tudo pra mim, trabalho duro rsrs tive que esconder no meu avental e era muita coisa dobrada, mas dei meu jeito.
Continuei minha busca por coisas abandonadas, como um monstrinho do lago Ness que estava jogado e era tipo de pelúcia, pequeno, levei. 

Naquela semana eu era sempre a primeira a chegar no porão pra esperar o Let's go da Darthvedrina. Ela mesma chegou a jogar uma indireta do tipo que quem tinha sido mandado embora não ia mesmo trabalhar aquela semana. Oh, como fiquei triste por isso! (sqn)
Se meu trabalho não ia ser recompensado o que adiantava ter sido certinha? E fui erradinha a semana toda.

Na outra semana, lá pela terça-feira, me ligaram da empresa falando que tinham uma vaga pra mim num prédio do lado, da TfL também, onde trabalhei uma vez para cobrir uma outra moça durante o dia com aquele carrinho. Deveria ir conversar com uma colombiana que era a cara - pelo menos pra mim rs - da Tenente La Guerta, de Dexter, então vou chamá-la de Laguerta, ok? Minha nova chefe. Bem, fui ver qual era a vaga, como seria e teria que trabalhar apenas duas horas por dia (menos dinheiro), tinha 4 andares para lavar APENAS os malditos banheiros... nada pode estar pior que não fique ainda mais... mas de 5,75 a hora, passamos a 8,40, era alguma coisa pra se agarrar...
 

30 outubro 2016

Anjo?

Finalmente, em julho de 2011, eu consegui sair da casa da Marciana!!!!

Ia, quando tinha dinheiro sobrando, a uma esteticista que me foi indicada pela Ad, amiga da Collorida, essa mulher fazia depilação e eu precisava muito, algumas vezes, porque a Floresta Amazônica tomava conta das minhas pernas e não dava pra viver além de tudo, peluda, né? Só o que me faltava...

Depilação na Inglaterra não existe em que a virilha pode ser dividida em cavada ou não cavada ou é beeeeeeem cavada ou Brazilian Bikini (lindo, né?) ou você deixa um fio ou deixa nada... ainda estou falando de virilha, mas parece que ela não existe nesse tipo de depilação...
E Anjo foi indicada porque talvez me desse um desconto, não no dinheiro, mas de não precisar radicalizar na "virilha"...
Sempre que ia na casa dela, conversava bastante, ela era (é) uma pessoa que vive em Londres há quase 30 anos. Veio com diplomatas pelo consulado brasileiro no Rio de Janeiro para trabalhar na casa deles e tinha muitas amigas que chegaram na mesma situação e ficaram, não quiseram voltar ao Brasil, preferiram a vida na Europa, também para ajudar a família no Brasil. Ela tinha muitas freguesas não só brasileiras, mas inglesas, sul-africanas, australianas e conseguia se comunicar bem com elas; não fazia só depilação, era uma esteticista completa: com limpeza de pele e massoterapia.
Conversava bastante e num dos meus papos com ela, ela conhecia NaLgini, lembram dela? A cobra? Afinal, Nalgini estava há uns bons 18 anos em Londres e nessa época que chegou havia poucos brasileiros que se encontravam em comunidade, um desses lugares era a Igreja Católica que elas participavam.
 Anjo me contou que NaLgini ficou internada num hospital psiquiátrico em Hammersmith (!!!!) e percebi que realmente a culpa do imbróglio todo não era mesmo minha na casa da Collorida...

Um desses dias que fui e falava da minha vida triste para Anjo ela me disse: por que você não vem morar aqui? Quanto você paga lá por semana? E eu disse que eram 50 libras, e ela me disse que faria por 55 por causa do gás do heater... um alívio percorreu pelo meu corpo, quase chorei! E descobri um anjo na minha vida!
Primeiro quis saber onde dormiria e ela me mostrou que tinha no quarto dela (que também era o salão de estética) uma caminha baixinha debaixo da dela, para quando alguém precisasse dormir lá. Nada demais, melhor do que o colchão estragado da Marciana, era cama de espuma!!!

Era em Olympia, perto da High Street Kensington, o preço era bom para o lugar onde moraria, dois pontos de ônibus da estação de Hammersmith e do Apollo Hammersmith, onde vi a Adele.
Eu ia pegar ou o metrô até HighStreet Kensington e um bus pra casa do trabalho ou dois buses, era só o que atrapalhava ou pegar o metrô até Olympia que era uma linha meio desabitada, não sei por que a linha de Richmond deixava apenas de meia em meia hora passar um trem até Olympia então ficava inviável, mas eu tentei algumas vezes quando só ia na depilação... e chegava atrasada no trabalho...


Vejam no mapa: é um braço da linha e muitas vezes não ia, quando fui embora, parece que fechariam essa parte do metrô e ficaria só a do trem, que é a linha com duas faixas laranjas que passam lá. Marquei também que trabalhava na estação St Jame's Park para verem como seria facinho de metrô, mas eu preferia pegar o bus pra pagar menos, ia até próximo da Notting Hill Gate e lá pegava outro bus.

Então, assim, me senti liberta de Marciana e sua corja! Estava tão feliz e aliviada de que poderia me mudar e não aguentaria mais aquilo! Numa casa pequena, mas aconchegante, bem mais limpa! E com geladeira, micro-ondas bem mais novos e sem medo de dizerem que eu entupi com meu cabelo ruim (sqn) a banheira! Não tinha banheira! Era só chuveiro num banheiro pequenininho!! Mas muito mais com cara de limpo do que o velho da Marciana!

Cheguei na casa da Marciana para avisar que ia me mudar e havia chegado mais um colchão box, estava no quarto dela e ela disse que ia pôr pra ela, neste mesmo momento falei que sairia da casa. Ela se espantou, achou que eu era a trouxa que aguentaria sempre tudo calada. E falou que tudo bem, que se eu ia ficar até sábado que era meu dia de pagamento, aí eu não precisaria pagar, era só levar as coisas. Quando avisei Marciana, eu já tinha levado muita coisa embora, para não ter que levar tudo de uma vez num único dia, como elas trabalhavam o dia todo, tive meu tempo para ir sumindo aos poucos com minhas coisas.
Até hoje a Marciana reclama que saí da casa dela, falou pra mãe dela aqui no Brasil que não esperava isso de mim, que me ajudou tanto. Disse isso para a prima da minha mãe, que foi quem arrumou o contato da Marciana. Uma tia minha que me contou, se um dia tiver a oportunidade de conversar com essa prima da minha mãe, contarei a ela o que passei na casa e que nada tive como favor, tudo eu paguei, saí sem dever nada a ela e ela sim a me dever respeito por me tratar tão mal por ser documentada. Por achar que eu trabalhava pouco e que deveria trabalhar como ela, mula de carga pra sustentar filho mimado no Brasil. Não, ela não fez nada demais por mim, eu que fiz por ela: fui uma inquilina fiel e que não trazia problemas, nem quando ela me cobrava adiantado o aluguel.

Ela ficou mais assustada ainda quando viu que eu já tinha levado praticamente tudo embora. Depois a Santa e a Bruxa vieram falar pra mim (porque voltei um outro dia lá para ver se tinha cartas pra mim) que Marciana queria saber porque eu fui embora e elas disseram que foi por causa do colchão, pelo menos foi o que me contaram. E que ela ficou pensativa e perguntou o que mais de errado tinha na casa rs aí elas falaram da banheira, da toalha da mesinha da cozinha que nunca foi trocada etc etc e ela trocou a toalha e pôs até tapetinho no banheiro! Isso eu vi quando fui lá.
Acho que foi até no show do Morrissey... passei lá antes, era no Brixton Academy, "aquele lugar de pretos!" como diria Marciana... loira dinamarquesa, diria Caco Antibes...

Meu último contato com Marciana foi por mensagem de celular, quis dar um troco bem dado a ela, antes de voltar ao Brasil, mandei mensagem perguntando se tinha aparecido mais alguma carta em meu nome na casa dela. E ela disse que tinha mudado de lá (ela disse que mudaria para um lugar menor quando a filha viesse no final do ano) e as meninas (Santa e Bruxa) também tinham mudado. Eu disse que só queria saber porque estava indo embora pro Brasil e só estava esperando me entregarem meu certificado de inglês. rsrsrs ela disse que era legal eu ter conseguido e tal - não com a ajuda dela que achava que eu passava todo meu tempo brincando na internet e não estudando...
E assim fui para a minha quinta casa em menos de um ano de Londres...
Feliz por não ouvir mais Marciana dizer "o tempo avoa!" e "vou depositar dinheiro na óquisfórdí".

12 setembro 2016

ainda sobre a Santa

Faltaram umas coisinhas...

Lembram da história da Mala?
Então, quando a menina da mala vinha e já estava certo que ela traria umas coisas pra mim, eu fiz a besteira de contar que uma irmã de um amigo iria para Londres.
A Santa ficou louca desesperada para que eu pedisse para que ela entrasse em contato com a família dela e trouxesse umas coisinhas para ela. Eu não hesitei, disse que não podia pedir e ela chorava, dizendo que quando veio só trouxe uma malinha pequena e que ainda teve que pôr a bolacha da criança que ela ia cuidar e que deixou de trazer coisas dela. Não esmoreci, mas acho que foi praga dela ter dado tudo errado...

Ela trabalhou em um restaurante cubano muito simpático, trabalhava na cozinha e fez amizade com o povo, parecia o lugar certo para ela: um pessoal bem animado que a ajudava, ia na lábia dela.

Cheguei a ir na igreja católica que ela e a Bruxa frequentavam em Brixton e ela ia só para comer os docinhos que o povo compartilhava no final. Percebi que perdi muito em não ir em lugares assim, fazer amizade com as pessoas no final das missas: se reuniam para conseguir emprego e outras coisas para as pessoas. Quando eu ia saber? Isso já foi quando eu mudei.

Depois que mudei soube que ela foi trabalhar na limpeza de um hostel.

Um dia, quando voltávamos de uma balada e estávamos no ponto de ônibus. Um cara que parecia muito bêbado no carro, com um amigo, gritaram para ela. Via na cara deles como ficaram enlouquecidos pelo biótipo e pela roupa. E ela só soube responder ao So hot! com um you too.
 Alemães parecem muito sérios em qualquer situação, os amigos do alemão que ela paquerou conversavam seriamente em alemão, porque sabiam que eu entendia se falassem em inglês. Queriam combinar de ir pra outra balada, a Santa não quis, fez-se de difícil.

Ela ficou um dia todo esperando para sair comigo depois da história da Walkabout, mas eu tinha avisado que tinha um compromisso longe (um evento da escola que trabalhava), ela que esqueceu e ficou me ligando... deve ter se arrependido porque a Bruxa não ia na balada com ela...

eu não me lembro direito se ela disse que eu ficava feia ou  ridícula de óculos e com o cabelo amarrado...

10 setembro 2016

Finalmente chegamos a ela: a Santa do Pau Duro...

Depois de umas duas semanas morando apenas no mesmo quarto eu e a Bruxa do Centro-Oeste, Marciana chega e pergunta se pode trazer uma terceira pessoa para o nosso quarto. Disse que era uma moça de ótimas referências, e que ela não ia pôr qualquer uma na casa dela.
Eu e Bruxa aceitamos, porque íamos deixar de pagar 70 libras a semana e passar a pagar novamente 50.  Marciana ganharia mais 10 libras nessa empreitada, ou seja, de 140 por semana só o nosso quarto, passaria a ganhar 150.

A moça veio, toda com cara de coitada, cachorro sem dono. Disse que sofria na casa que estava, veio com uma família brasileira que veio morar em Londres e a trouxe como babá do filho, sem direitos, é claro!
Ia começar a trabalhar nas famosas vans de limpar casa, mas parecia bem desolada, só parecia...
Marciana a conheceu através de uma mulher da igreja dela.
Eu falei que a Marciana frequentava a igreja dela em Londres? Sim, frequentava, a mesma igreja com brasileiros, como eu acho que disse que acontecia com as igrejas católicas e centros espíritas ou não falei? hmmmm
Voltando, a mulher da igreja e outras pessoas ficaram com dó da moça e procuravam alguém para ajudá-la com uma canto e sair da casa onde a Santa morava.
Na primeira semana, ela disse que tinha um namorado croata e ficou exibindo a foto do cara para todo mundo (sim, o cara era lindão), parece que era segurança de uma boate e morava com um amigo também croata. Às vezes a Santa dormia pela casa do croata e não aparecia. 
E nesta mesma semana ficou doente, também não dormiu no nosso quarto, dormiu no quarto de Marciana que cuidava dela como uma filha. Disse que a coitada estava com alguma infecção e vejam só! Até infecção ginecológica a coitada ganhou de tanto sofrimento com a mudança e de começar a trabalhar nas vans!

Depois de melhor, vivia reclamando do trabalho e que ela vivia muito melhor no Brasil, disse que era enfermeira e dividia uma casa enorme com uma amiga, que tinha o próprio carro e o namorado era piloto (sei, acreditei em tudo... ah, ela era paulistana). Morava em Campinas. Queria arrumar um emprego melhor, mas como boa brasileira em Londres era ilegal, veio trabalhar para a família brasileira exatamente por isso: era ilegal e não teriam que pagar os direitos trabalhistas a ela, nem os brasileiros, nem os ingleses.

Aos poucos ela foi se soltando e mostrando quem realmente era: comprou uma documentação falsa, uma identidade portuguesa para se manter lá. Um dia, ela deixou em cima da mesa da cozinha e minha vontade era pegar aquilo e jogar no lixo!! Afinal, eu gastei tempo e dinheiro e muito transtorno com o consulado português para conseguir a minha identidade verdadeira e aquelazinha andava com um falso dizendo que tinha nascido num lugar lindo como Sintra...

Vivia num tal de Badoo, uma site de relacionamento, onde encontrou o croata. Uma amiga dela - que também vivia indocumentada também procurava homens lá.
Ela estava com o croata pensando que a nacionalidade dele garantiria uma boa estada no Reino Unido, afinal, ela não sabia falar inglês e muito menos croata, só se entendiam os dois na cama. Porque eu, boba, perguntei como ela o entendia se nem sabia o inglês direito...

Quando terminou chegou falando que "pinto tem de todos os tipos, tamanhos e cores" que não precisava exatamente daquele e ainda emendou: "né, Marciana?" 
Marciana se achando A mulher moderna, concordou e eu vi que as coisas por ali não iam dar mais certo comigo: 3 indocumentadas e uma cidadã europeia... estava perdendo o jogo...
E Marciana sempre defendendo essa moçoila que dizia que tinha bunda grande e como "toda calcinha enfiava mesmo, resolvi só comprar fio dental, mais prático, não preciso ficar tentando tirar do rabo".
Daí eu não poderia dar melhor apelido do que esse Santa do Pau Oco! ou melhor! Do Pau Duro...

Ela tinha um biotipo que enlouquecia os gringos e se aproveitava bem disso. Ia caçar outro no Badoo e com a ajuda de Marciana, do lado. 
Vieram as duas um dia falar pra mim porque eu não entrava também no site e encontrava alguém, virei pras duas e disse que meu objetivo era outro: era estudar e voltar ao Brasil, não ia me comprometer com ninguém pra depois ir embora. 

Como estava carente de amigos, aceitei sair com ela algumas vezes, levei ela pra conhecer a noite britânica em Camden Town que ela adorou e fez amizade com uma brasileira no banheiro...
E em alguns pubs que conhecia ou lugares que eu queria conhecer, como o Walkabout (que eu comentei na postagem sobre as baladas londrinas) e a levei, porque ela não sabia nem andar de ônibus por Londres...
Levei-a a lojas que achava muito legal e mais baratas, mostrei uma Londres que ela não conhecia.
Eu, na minha ingenuidade achava que era só diversão e não me tocava que ela queria achar um "documentado", bom partido.
Como um alemão que eu fiquei de olho, mas ele ficou de olho nela e ela até conseguiu falar com ele (quer dizer, a trouxa aqui foi a tradutora...), mas morreu ali. Ainda bem, senão eu ia ter que traduzir na casa dele também... 

A Santa reclamou da TV, Marciana de muito mal humor foi pagar pra usar (você só usa TV na Inglaterra se paga para usar, não é de graça como aqui, mesmo sendo canais abertos). Como Marciana começou a fazer aula de inglês com a Bruxa numa igreja aos sábados, achou que seria útil.
Vi um dia, tentando arrumar muito a TV um Jools Holland.

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Inglês com Marciana: ela vinha todo sábado feliz por aprender um pouquinho de inglês e vinha me sabatinar: você sabe como se diz gêmeos em inglês? Eu: sim! twin! E ela: como? Twin! e me olhava estranha a cada palavra que eu acertava rs
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Marciana começou a ficar contra mim: um dia o ralo da banheira entupiu justamente comigo e começou a reclamar que eu entupi: depois de todas as 3 que faziam tudo quanto era química no cabelo tomarem banho e deixarem seus cabelos no ralo, a culpa era minha. 
Marciana vivia pegando no meu pé, achava sempre que eu nunca fazia nada, achava que eu era sempre a errada (sempre achou por eu não me matar como ela). A verdade é que eu fazia o que deveria ser feito: pagava toda semana meu aluguel. Um dia ela veio me cobrar na sexta-feira! Sendo que eu pagava todo domingo. Veio com uma desculpa de que ia até a "ócsfórdi" mandar o dinheiro pro Brasil e no sábado seria melhor pra ela.
Marciana ainda dizia que eu é que usava o dia inteiro a internet e por isso aumentaram a conta dela, depois ela descobriu que foi o argentino do outro quarto que deixava seu pc ligado o dia todo baixando filmes...  
Ela não sabia da casa que limpava e nem que eu tomava café da manhã e passava o dia estudando no parque.

Aconteceram duas gotas d'água:
A primeira com Marciana, depois de tanto tempo de reclamações com os colchões, conseguiu a troca deles com o "landlord", o dono do apartamento, ele trouxe dois colchões no estilo cama box. E adivinhem o que aconteceu?
Um ficou pra bruxa que estava lá a mais tempo e outro com a Santa! Porque a Santa reclamava muuuuuito dos colchões e que tinha problema nas costas e eu, a idiota, fiquei com as molas nas costas...
Fiquei muito desesperada pra sair de lá. A vida já era uma bosta morando lá e estava ficando cada vez mais ruim para o meu lado. EU TINHA QUE SAIR DE LÁ! Não dava mais...


A outra gota d'água foi com a Santa, fomos a Walkabout e dançávamos, amarrei meu cabelo porque estava com calor e escuto ela falar (ela achou que com o barulho eu não iria ouvir): já é feia de óculos, amarrando o cabelo, então... eu entendi aquilo como um "você faz todos os homens correr daqui" e decidi que aquela seria a última vez e que ela não era minha amiga como a Roommate, ela era só uma biscate querendo um bom casamento e vida boa na Inglaterra. 
Talvez tenha conseguido o que queria, não sei da vida dela, apaguei meus contatos no Facebook. Só sei que existiam muitas Santas do PD pelo mundo e ela era só mais uma.

23 junho 2016

União Europeia ou não?

Os ingleses são figuras extremamente discretas e fechadas, dificilmente, se você não conviver intimamente com um, saberá o que pensam sobre tudo.

Vejo essa divisão entre continuar ou não na União Europeia e pelo que conheci deles, estão escondendo o jogo. Escoceses e Irlandeses do Norte preferem continuar na UE, acredito que por serem muito mais abertos e menos "metidos", os ingleses são muito fechadões e não gostam de se misturar. Escoceses e irlandeses de modo geral são solícitos e mais simpáticos.

A partir daí, tiro minhas conclusões... podem não ser tão bem fundamentadas, mas muito do que vi acho que conta:

Eles gostam de viajar, ter passaporte aberto para ir aos outros países e achar tudo mais barato não é algo que não se vá perder...
Eles viajam bastante e podendo tirar férias "picadinhas" (já expliquei isso em outra postagem, depois linko aqui), faz toda a diferença; uma hora estarão num lugar quente como a Espanha e Portugal no verão que são os locais para onde preferem ir. Claro que também gostam da Tunísia por exemplo, mas aí precisa-se de visto...

Eles ganham bem e podem gastar suas Libras (que vale mais que o Euro) em todos esses outros países com grandes vantagens...

Esses são os pontos que mais influenciam a ficarem na UE.

Alguns empresários vão achar muito melhor estar na UE para conseguir mão de obra de outras partes da Europa e que farão o que inglês não faz. Isso é muito comum em vários lugares, ter para trabalhos mais braçais estrangeiros. Não se paga um valor inferior por serem legais, mas se paga o mínimo, na maioria dos casos, é mão de obra barata de qualquer forma e que quer fazer aquele serviço que alguns ingleses preferem ter a escolha de ser um mendigo e vender Issue (igual aquela revista Oca's aqui de Sampa) a trabalhar pesado, mas é o país da escolha: você escolhe ser mendigo e o Estado lhe dá benefícios... (depois falam mal das nossas bolsas família...) mas é algo enobrecedor para todos, ninguém está morando na rua e tem direitos como todo o cidadão... algo um pouco a frente e transcendente para a maioria das mentes brasileiras...

Pelo lado do não temos a xenofobia, como disse eles não mostram o que sentem pelos estrangeiros, mas você percebe ao ver que dificilmente um inglês mora nas zonas centrais londrinas, como zona 1 , 2 e talvez a 3. Inglês mesmo você só encontra a partir da zona 4 e nas cidades vizinhas que vão e voltam de trem do trabalho e prefere do que morar perto da babel que é a zona central londrina.
Se isso não é "não se misture com a gentalha" eu posso estar sendo má... você decide...

Algumas donas de casas até dos bairros mais caros gostam dos ilegais, porque pagam menos que o salário mínimo inglês. Sim, vi muitos anúncios em Maida Vale, uma região cara (da Abbey Road) oferecendo emprego por menos q o salário inglês (que era de 6 e uns quebrados). Emprego de empregada diarista, babá. Um dia contei isso para uma mulher que morava há mais de 20 anos em Londres (e entrará um dia aqui na história) e ela me disse que quem mais se oferece para esse emprego são filipinas, porque qualquer libra vale muito no país de origem dela e que aceitam fácil esses trabalhos.
Contei uma vez de uma brasileira que só estava lá pq estudava e que ela pediu várias vezes para o chefe a "registrar" como empregada na casa dele, para que ela conseguisse um visto de trabalho e ficasse tranquila, mas ele não fazia isso. Como muito gente que tem as famosas casas de limpar, mesmo que paguem 10 libras a hora, ainda é barato porque você não tem garantias de nada e limpa uma casa que se leva o dia todo em 4 horas, no máximo. Nunca vi alguém pagar um dia de limpeza ou mais que 5 horas.

Manter os europeus longe mantém os ilegais trabalhando por qualquer coisa.
Parece não ser uma coisa tão bem pensada, afinal não sei se os "antiUE" pensam nisso, afinal, as outras nações continuaram por lá. Não sei se acham que será um jeito mais fácil de controlar ilegais, sei que o que acontece é isso...

Não acho que os europeus que trabalham lá vão sair da Inglaterra, vão continuar, pode diminuir. Eles ficaram mais arredios (os ingleses) por conta da crise que muito países passaram e levou muitos europeus às Ilhas e isso deve ter inchado um pouco a população, a procurar de emprego, o problema de moradia,  inchou o NHS (o SUS de lá), escola para os filhos desses imigrantes etc
Muitos ingleses veem isso como problema, pode ser que achem que não vai ter como girar a máquina social com todos esses grupos querendo benefícios (com 3 anos de residência na Inglaterra você pode pedir benefícios trabalhísticos - como um tipo de renda mínima - ou moradia por um preço muito mais barato).

Qual seja a decisão, acho que o Reino Unido perde ao sair da UE, afinal, todos que trabalham na Inglaterra são cidadãos europeus legais e que merecem os benefícios por viverem e pagarem seus impostos à Rainha, como eu, portuguesa, fazia.
Como eu disse, ingleses não farão o trabalho braçal e a ilegalidade com os meandros de máfia continuará mais forte por não ter europeus legais para esses trabalhos.