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30 maio 2015

My English Teacher

Quando cheguei a Londres, fui procurar escolas de inglês e me assustei com os preços exorbitantes dos cursos próximos a Richmond, onde morava na época.
Lembro de comentar com a maravilhosa Collorida sobre os cursos e o meu querido Soudemorte responder: mas você só vai morar aqui por 2 meses, como pensa continuar fazendo curso por aqui? 

Vocês que me acompanham sabem bem como vivia feliz e saltitante naquela casa e não respondi nada, só pensei, afinal, poderia arrumar emprego pela região e moradia, eu achava...

Quando me mudei para o outro lado da cidade, para Dalston Kingsland e pensei que seria pra sempre, fui atrás com mais afinco por cursos de inglês. Pesquisei na Revista brasileira que todo mundo lia e sempre tinha propagandas de professores, como fiz quando consegui aulas de português.
Achei um interessante: brasileira que desde criança estava lá e era bilíngue. Parecia ser uma escolha acertada por saber os dois idiomas e eu achei que aulas particulares me ajudariam a aprender mais rapidamente o inglês, de falar mais fluentemente. Liguei para o número e era da mãe dela, era quem marcava, porque as aulas eram na casa delas e nunca se sabia quem estaria ligando.
Marquei e fui conhecê-la.
Ela morava com a família num bairro distante do centro, lá pela quase final da Central Line, a leste de Londres - pra lá de Stratford... super longe...

Gostei dela e da mãe, foram bem simpáticas comigo e resolvi que iria fazer as aulas por 20 libras duas horas de aula. Minha mãe me mandou dinheiro, queria que não me faltasse dinheiro e aprendesse o mais rápido pra voltar o mais rápido rs ela tirou dinheiro da pequena poupança só pra me ajudar. O dinheiro que tinha estava acabando já e ainda não tinha arrumado um emprego, só os bicos das aulas de inglês.

Comecei as aulas e decidimos por aulas de conversação, ela ia me explicando gírias que se usavam lá, expressões, entonação etc. Ela tinha um sotaque inglês, ninguém dizia que era brasileira quando estava falando em inglês. Poderia ser até uma entonação falsa que ela usava sempre, de forma a impressionar e se acostumou, afinal, ela estudava Inglês na faculdade, mas era atriz e esta era a carreira que ela realmente queria seguir.

Fui me adaptando muito as aulas dela porque estava extremamente carente, então, como eu tinha que conversar sobre minha vida, eu sempre tinha muita coisa ruim pra contar e aprender a contar em inglês. Fui me apegando a ela e a mãe dela. Gostava muito delas, mesmo! Achava que tinha encontrado novas amigas, até uma família amiga com a qual poderia contar.
Eu estava extremamente fragilizada e contava todas as minhas tristezas lá, não era uma aula de inglês, era quase um divã...
A mãe dela foi quem me indicou àquela casa que contei aqui, de dividir o quarto com um rapaz gay e pra lá ainda da estação da casa delas... inviável morar tão longe e trabalhar no centro fora dividir o quarto com um rapaz, me desculpe, ele poderia ser uma moça num corpo de rapaz, mas não ia conseguir dividir o quarto...

A mãe me falava de amigos que moravam por aqueles lados ou um pouco mais pro centro, mas com quartos por 100 libras por semana, que eram simpáticos e tudo mais, mas 100 libras por semana era ser rica... eu pensava: mas gente! onde essa mulher tá com a cabeça pra me indicar casas longe dos empregos e por esse preço?? ela acha que tá barato? eu falo tudo que sofro aqui e ainda acha que tenho 100 libras pra dar por semana? e o transporte? Sim, porque quanto mais longe do centro, mais caro o metrô se você tiver que ir pro centro, principalmente.
Ela não conseguia entender o meu problema...
E isso era comum: ninguém conseguia me entender: entender que eu não tinha esse dinheiro, entender que procurava como louca emprego e não conseguia, entender que eu não tinha a agilidade The Flash para limpar casas e entender que eu sofria com tudo isso... que eu me sentia frustrada, me sentia culpada por não conseguir fazer essas coisas todas... era angustiante!!!

Aos poucos, fazendo as aulas, eu fui percebendo que não dava mais pra pagar... fiz por uns 6 meses, acho, nos últimos tempos eu ia de ônibus para economizar - comprava a cota pro mês todo de ônibus que era mais barato - e pegava três ônibus pra chegar lá: de Elephant & Castle eu ia até Liverpool Street, lá pegava outro bus até o terminal de ônibus de Walthamstow e de lá para a casa da professora. Devia levar mais de duas horas. Daí comecei a ficar frustrada com a aula: a professora falava mais que eu e então não adiantava... ela contava muito papo sobre os grandes namorados que teve, sobre os bullyings que sofreu quando chegou na Inglaterra e na escola e não falava inglês. Uma coisa me irritou um dia: ela contava sobre o namorado novo na frente do pai, e o pai brincou com ela, ela virou para ele o xingou... achei aquilo muito chato... 
eu me sentia a filha do Kevin Spacey ouvindo a amiga gostosa falar das conquistas...
A mãe era uma mãe bem à brasileira: fazia tudo para todos e não recebia nenhuma atenção por isso. A filha chegou a ir embora de casa porque brigou com a mãe, briga boba e voltou. A mãe era espírita, então achava que tinha alguém que tinha algo a ver comigo. Ìamos a uma palestra do Divaldo Franco, a mãe falou pra eu ir com uma amiga, porque teria que fazer a janta para o marido e deixar tudo pronto... engraçado porque ela sempre dizia que o marido a acompanhava em tudo e naquele momento não vi isso...

Fazia tudo para participar da família: fui à peça de teatro da teacher, que estava com um outro namorado e quando fomos cumprimentá-la ela mal deu atenção porque estava com o cara... foi muito chato; fui ao aniversário da mãe e comprei um livro do Chico Xavier de presente; fui à casa ver o cachorrinho novo que tinha comprado e que estava doente... eu queria mesmo fazer parte... se me chamavam pra almoçar ou jantar eu não negava, fazia muito tempo que não comia como gente...
Não tinha como pagar e como trabalhava com portugueses, não usava o inglês quase que pra nada e desisti das aulas.

A mãe me indicou ainda um emprego, eu lembro de ter comentado aqui, mas não acho o post... não sei o que aconteceu... foi quando a mãe quebrou a perna e me indicou na escola onde trabalhava como assistente na hora do intervalo das crianças. Eu fui, fiz um teste e gostei de lá, mas a "chefe" das assistentes, uma mexicana, não gostou de mim e da amizade que logo de cara fui fazendo com as meninas (eu era dedicada e estava contente de estar ali - era uma escola católica só para meninas de até uns 14 anos). A mulher disse que eu não era expansiva e não daria pra eu ficar com a vaga. Fiquei bem triste porque, mesmo sendo bem longe, era um lugar que eu poderia, aos poucos, subir para assistente e trabalhar mais horas além do horário do intervalo (é, era só no intervalo, por umas 2 ou 3 horas, um pouco antes para organizar o pátio, auxiliar as crianças para comer e ficar vendo elas brincarem no pátio aberto e depois limpar tudo e ir embora). Mas a Sheena (era o nome da mulher) era punk rock e não me deu chance, deu a vaga para uma outra amiga, que saiu meses depois, quando eu já estava decidida a voltar pro Brasil. 
A mãe também ficou chateada por estar de licença e não pôde me ajudar a ficar com o emprego. Quando fui a Portugal, no Natal, trouxe encomendas para elas e por tudo que faziam pra mim.

Só que a máscara delas caiu e por mais que eu desse uma chance, eu tive que admitir que elas eram como todos os outros brasileiros: egoístas e mentirosos.
Vi no Facebook que a filha tinha ido pro Brasil e voltado com um namorado anterior que ela sempre falava e dizia que não voltaria, jamais, com ele e falava muito mal do cara (brasileiro). E as fotos e conversas no Facebook eram de amigas no Brasil felizes de a reverem no Brasil e saírem com ela - ela nunca me disse que ia ao Brasil enquanto estava tendo aula e eu não tinha parado há muito tempo -  vi fotos dela em São Paulo, Bahia e Porto Alegre (cidade do namorado) e os muitos comentários... achei estranho, porque elas sabiam da história da mala... e como fiquei com isso.

Estava bem escaldada pelos brasileiros e resolvi fazer um teste... liguei pra casa dela e falei com a mãe e perguntei da filha e a mãe: ela está bem, trabalhando muito e estudando (aham!)  
e aí joguei a isca: pois é, você conhece alguém que venha do Brasil esses tempos para trazer um remédio pra mim que eu só sei que tem lá certinho, porque aqui teria que passar no médico e não sei se me daria o mesmo...
mãe da teacher: ah, tem um consultório brasileiro em Stockwell, lá pode ser que você consiga o remédio que quer.
Bingo!
Era tudo que eu precisava saber: que elas iam se fingir de mortas e não me ajudar, como todos. E ia mentir na minha cara da forma mais deslavada com tudo bem claro e exemplificado no Facebook... Acharam que eu era idiota? Eu nem ia fuçar o perfil, era tão simples... era só ler as últimas atualizações... pronto... dei de cara com a amiga falando como foi legal andar por o bairro onde moravam em Sampa...

Daí deixei-as de lado, eram farinha do mesmo saco de todos os outros... cheguei até a mudar postagem aqui por elas terem se sentido ofendidas por eu ter falado mal dos brasileiros e fiquei super mal de tê-las magoado, mas daí veio a comprovação.

Antes de ir embora, como continuaram no meu Fb e fingi que nada tinha acontecido, a filha me falou de almoçarmos num lugar que adorava em Londres e que foi indicação dela, um restaurante italiano.  E eu disse que tudo bem, vamos marcar e tal... (sem nenhuma vontade que isso realmente acontecesse) e a mãe também queria pra se despedir de mim. E eu disse quais dias poderiam ser e marcar, esperando que nunca desse certo porque eu estava com nojo delas.

E aí foi o golpe final, a mãe me escreve em pleno Facebook com no meu mural para que todos leiam me humilhando mais um pouco do que já tinha sido humilhada por lá:




Agora vocês já sabem porque fechei meu mural para que não escrevam nele...

Consegui não me encontrar com elas, fui embora chateada com elas, pensei que eram as únicas amigas que havia feito lá, ledo engano.


26 maio 2015

O povo da escola - parte 2 Hampstead Heath e o Jeitinho Brasileiro

Depois que Badooa deixou JerusalemE serguir o caminho dele e encontramos a outra amiga dela em Victoria Station...

A menina também esculachou com Badooa, falando que nunca mais combinava nada com ela, nem eu... depois daquele dia, toda vez que Badooa falava "vai lá pra casa pra sairmos" nunca mais aceitei.
A moça parece que já a conhecia bem e já tinha passado pelo mesmo com Badooa outras vezes.

Fomos pro parque, demoramos séculos para chegar de busão lá, ainda mais que no meio do caminho passávamos por Camden Townn, totalmente abarrotada de gente.

Chegamos lá e o povo já achava que não iríamos mais e contamos o que Badooa tinha aprontado.
O povo já tinha comido, estávamos todos sentados na sombra e os ingleses todos no sol, sem protetor...

O parque é muito legal, enorme! Como a maioria dos parques ingleses. A diferença é que ele é de mata natural, original da região e tem lagos. Lagos que alguns (muitos ingleses) se aventuravam em nadar.
Eu como não sei nadar bem, não me arrisco.
E outra: havia uma fila para pagar 3 libras e mergulhar.
Três libras que você paga a uma simples máquina sem fiscal.
Adivinha se os brasileiros que estavam comigo (todo mundo) ficaram na fila e pagaram para nadar?

Claro que não! Brasileiro dá jeitinho no mundo todo!
É tipo o Impostor do Pânico: vamos sacanear o mundo porque somos brasileiros! Somos fodões!
Bonito! Lindo!
Só mostra o quanto somos respeitosos e educados... ou você acha que atitudes como essas são bem vistas?
Conheci muito estrangeiro que só de saber que eu era brasileira já me olhava de lado.
Primeiro porque não achavam que eu tinha aparência de uma... na maioria das vezes chutavam que eu era italiana (na França acharam que eu era inglesa rs).
Mas a maioria vê brasileiro como enganador (ou trabalhador quando vê pelo lado bom), brasileiro é visto como traiçoeiro. Esqueça país do futebol e mulheres lindas. Ninguém fala disso!

Uma espanhola me disse sobre o irmão que saiu com uma goiana (ihhh!): she is a bitch!
E ela explicava que por mais que eles (europeus) sejam desencanados, os brasileiros - e brasileiras no caso - acham que é só ir chegando e agarrando, beijando.
O que pra europeu é desrespeitoso.
Você tem que se apresentar, bater um papo pelo menos... não essa coisa de já sair agarrando.
(claro que eles vão pra cama com qualquer um, mas perguntam o nome rs)

Voltando...
O povo se gabava de ter passado por toda a fila.
Como bons brasileiros não paramos de reparar e rir - inclusive eu, porque aquele povo de cueca e calcinha sem canga era muuuito estranho... fora as meninas com o que chamei de maiô Brigite Bardot - depois vieram me dizer que isso era vintage... é, povo em Londres é estiloso, vai com o maiô da avó no parque e dá o nome de vintage... não que não seja estiloso, depois que você entende esse negócio de estilo londrino... acabei incorporando muito disso hoje, mas no começo é tudo meio estranho e engraçado.

A doce professorinha (aquela que só me dava patadas na escola e em todos) estava com seu marido (que também levava umas patadas dele que olha... deu dó...) que levou um amigo, que tinha uma namorada que trabalhava nas famosas vans e na cara dele, ela babava nos caras que achava interessante, quase indo lá falar com os caras (adivinha de onde ela é...), mas como eles eram malhadões não pareciam muito interessados em outra coisa que não se exibir, logo ela concluiu que eram brasileiros e gays...

Enquanto ele, o namorado, de outro canto falava que não existia mulher como a brasileira, não mesmo!
Tinha uma povo realmente parecendo brasileiro que estava entendendo toda aquela graça, mas não vieram até a nossa sombrinha se "confraternizar".

Como disse: até eu ria. Só ria porque nunca tinha passado o verão lá e visto gente de roupa de baixo tomando sol até ficarem pimentão - ingleses são loucos por sol que nem protetor passam e ficam lá se queimando até dar câncer de pele... tadinhos... nunca veem o sol e quando veem ficam assim, alucinados por ele...
Foi um domingo divertido que terminou numa churrascaria brasileira próxima, o povo tinha dito que ela fazia propaganda na Record internacional e se decepcionaram: ela parecia maior e melhor no comercial.
Eu que não conhecia e não comia tanta carne - isso queria dizer um pedacinho de cada - há tempos, passei mal... muito mal... pensei que não chegaria até a cobah...
Tem coisas que realmente você desacostuma, como feijão... imagina depois de meses sem comer como eu fiquei numa feijoada que fui... (e olha que não gosto de feijoada, mas a saudade de feijão era maior... e deu no que deu...).

Pensei que a partir desse passeio seria mais querida pelo pessoal da escola e convidada pra mais passeios... ledo engano...
Será que foi porque eu só ria e não comentava?
Será que ficaram com ciúmes de mim? (o que eu sempre duvido)
Será que eu sempre tenho um jeito mais reservado que dá a impressão de me achar mais que os outros?
Sim, eu penso isso: será que ser reservada por ter percebido que ninguém ligava para o que falava me tornou, aos olhos dos outros, uma pessoa que se achava mais?
Não pode ser... se fosse assim, por que eu iria querer fazer amizade com eles?

Eu só queria fazer amigos e me sentir menos só em Londres, só isso... me sentir um pouco fazendo parte de algo... quase uma coisa de adolescente... de ter uma identidade, talvez... mas pra mim era uma luta inglória...
Doía demais aquela solidão e eu não conseguia fazer amigos...

28 fevereiro 2015

O povo da escola - parte 1 jerusaleme e a mineira louca

Trabalhei numa ONG-escola para brasileiros, era voluntária, mas ganhava um trocadinho que me ajudava, aos sábados.

O trabalho era bem interessante: ensinar português para filhos de brasileiros que praticamente não tinham contato com o português do Brasil - além dos pais e, muitas vezes, nem com os pais: explico!

O mais engraçado lá é que muitos pais brasileiros falavam em inglês com os filhos que os respondiam em inglês... tinha hora que parecia que todo o trabalho de duas horas num sábado tinha ido pro espaço: a criança nem saía da sala de aula e o pai/a mãe já estava ajudando a criança a esquecer o que veio fazer ali.
O coordenador é uma pessoa muito decente que mora há mais de 20 anos na Inglaterra - as duas filhas estudavam com a gente e a mulher dele, inglesa, falava o português.
Engraçado que os melhores brasileiros que conheci são os moram há mais de 20 - tirando Collorida, claro. Parece que foi uma geração que mais se ajudou do que puxou o tapete... aparentemente...

O projeto era bem interessante, apesar de além de perceber que muitos pais não levavam a sério (se levassem falariam em português com os filhos) também muitos iam pra lá pra bater papo.
Como era só por duas horas no sábado, muitos pais passavam a manhã toda só de papo.
Alguns por morarem lá e ter se casado com ingleses ainda se achavam muito - como sempre acontece...

Uma mãe irritante queria dizer o que deveria ser ensinado pra filha dela (como toda mãe analfabeta que arruma um trouxa com passaporte) e ela mal sabia realmente escrever, mas vinha com um: no meu tempo a criança aprendia assim...
Bem, no tempo dela na pqp que ela nasceu e aprendeu o "bêabá" se colocava criança pra joelhar no milho e isso eu duvido que ela ia querer, né?
Na verdade, o que irritava mesmo é que além da mulher mal saber escrever em português (e não espere em inglês) ela ainda se achava a pedagoga e não entendia que estávamos lecionando por 2 horas no sábado, não era o mesmo ritmo da escola normal no Brasil, muito menos na Inglaterra... (que é completamente diferente também)
Tudo ela tinha que vir falar: ah, vc tem que dar isso pra minha filha aprender!
A professora, que era aquela figura doce (já falei da resposta bem direta que me deu quando procurava um quarto), ficava de cara feia e tentava ter jogo de cintura, mas depois reclamava da mulher pra mim.

Numa festa da escola, eu dei uma patada na mulher. Meio que sem querer, mas saiu...
Primeiro ela quis que as crianças cantassem "atirei o pau no gato"... tudo bem... daí, quando terminaram, ela queria que cantassem a versão "politicamente correta" e uma outra assistente virou pra mim e disse:
você não vai cantar?
E eu, com a minha doçura: Não, essa letra é ridícula, mal feita! Se é pra não atirar o pau no gato, nem ensine a atirar, depois fazem essa versão forçada aí!
Eu e meu jeito meigo de dizer não à hipocrisia. 
Afinal, eu acho que ou você ensina ou não ensina atirei o pau no gato e não depois ensinar só pra criança cantar aquela versão ridícula de que o gatinho é nosso amigo... é CLARO QUE ELE É! Quem não é são as pragas de mães que comeram um monte de churrasco de gato antes de chegar em Londres... (e agora arrotam kebab de lamb rsrs - quero ver fazer a musiquinha "a ovelhinha-nha- é nossa amiga-ga)

Voltando, a mulher só me olhou com cara de c* - ia me obrigar a cantar a musiquinha?

Era legal trabalhar lá, mas o povo brasileiro eu tentei e muito fazer amizade... mas era incrível como não rolava... ou até quase rolou...
Nem foi a música do gato! Isso aconteceu quase quando estava indo embora... (ihhh e tem mais...)
Ia embora de trem com o povo, parei de perguntar se ninguém sabia de trabalho ou casa...
Mas percebia que toda vez que tentava conversar, entrar na conversa, minha fala ficava pra trás e alguém me cortava pra falar de outra coisa... notei isso várias vezes e decidi só ouvir.
Então, nem tinha como conhecerem meu lado marrenta... ou legal...
Me senti muito só e achava que só "participar" da conversa estaria tudo bem. Mesmo quando chegava na escola no sábado e todo mundo comentava das festas e passeios que foram juntos.
Sempre tinha uma outra professora que depois vinha falar: mas por que você não foi?
Era óbvio: eu não fui convidada, como iria?
Isso também acontecia com uma outra assistente que não morava em Putney (havia um grupinho que morava lá, pelo menos 3 professoras e 1 assistente).
Mas essa professora queria forçar uma proximidade pra dizer que todo mundo havia mesmo sido convidado. Cheguei a ir no aniversário dela - aí fui mesmo convidada - e depois no aniversário dessa assistente, mas muitas das coisas só vinham dizer depois:
nossa! por que você não foi? Sobrou tanto comida!

Uma vez me convidaram no verão - acho que em maio, um domingo beeem quente (27 graus rs). Primeiro iríamos para Brighton de trem. Acordei cedo, toda animada e quando liguei para essa assistente que vou chamar de Badooa (porque ela cada mês estava com um namorado novo do Badoo) que ela morava em Brixton, que é perto de Elephant & Castle, onde morava.

E ela me avisou que os planos haviam mudado (e ninguém nem pra me mandar uma mensagem) e iam pro parque de Hampstead Heath, norte de Londres. E que seria beeem mais tarde...
Daí Badooa me diz: vem aqui pra casa depois vamos juntas!
Tudo bem, ia voltar pra Cohab Elefante?
Vou lá pra casa da outra e de lá pegamos o bus...

Só que o que ela não me avisou é que ela estava acompanhada...
Sim, o namorado do momento estava no quarto que ela alugava. Isto quer dizer: e eu? onde fico se vc mora num quarto?
Fiquei no quarto da vizinha, amiga dela, uma doida brasileira que não falava coisa com coisa...
Badooa não poderia deixar o "jerusaleme" sozinho... (ela só sabia que ele era de lá e nem sabia como se diz pra quem é de lá... muito menos eu rs acabei de achar no google: jerosolimitano, hierosolimitano ou hierosolimita - sim, ela falava jerusalemE) e eu poderia ficar com a amigona dela!

Era uma senhora já, dizia que morava ali, mas alugava casaS por Londres (sei, e você mora num quarto em Brixton...), que trabalhou muito com um irmão nos restaurantes da região de Kensigton, que já tinha visto do Elton John até...todo mundo famoso... mas que começou a alugar casas e pretendia voltar para o Brasil e abrir um restaurante inglês em Minas, na cidade dos vidros, pra quem sabe onde é... já deu a dica de onde ela era...
Dizia que tinha um filho da idade da filha mais velha da Gretchen, falou horrores da Gretchen, mas se o filho tivesse nascido menina também teria posto o nome de Tammy... (o que você não tem que ouvir enquanto a outra descobria se o jerusalem era circuncidado ou não...).

Ela assistia à tv brasileira pelo pc, por um site que muitos brasileiros assistiam.
Naquele momento: dez da manhã em Londres e seis no Brasil passava a missa do Pe. Marcelo na Globo e ela falava bem e mal do padre... não era uma pessoa de confiança e que me enchia de tomar refrigerante...
Daí começou a falar bem do Edir Macedo e sempre que ele ia à Londres ele ia no culto dele.
Não entendi nada: via a missa do Pe. Marcelo, ia no culto do Macedo... não gosta da Gretchen, mas teria posto o mesmo nome se tivesse uma filha... só sandices...

Depois começou a falar do filho que deixou no Brasil, que tinha morado lá com ela, mas não quis ficar porque tinha namorada e a abandonou (a mãe) que ela já tinha netos e que o filho tinha que vir com os netos pra lá, sem a esposa (pelo jeito, se amavam ela e a nora), porque ele tinha que ajudá-la a juntar mais dinheiro pra voltarem pro Brasil pra abrir o tal restaurante inglês...

Peraí... mas ela não alugava casas? Não estava bem de vida?
Até disse que não queria voltar pro Brasil e depois queria...
whatever... louca ou mentirosa demais que nem se controlava em mentir em cima do que tinha dito...
E eu passei mais de duas horas ali... com vontade de ir embora...
Daí decidi que ia embora e ia sozinha pra Hampstead Heath, era só pegar o metrô até lá e ligar pra alguém pra encontrar os outros... o horário combinado no parque era meio-dia e já estava passando.
Fui e bati na porta da casa-quarto da outra.
Eu já estava com um bico enorme de raiva... ainda se tivesse passado o tempo conversando com alguém que falasse coisa com coisas... dava um desconto...
Ela me olhou com vergonha, afinal, é claro que esqueceu de mim descobrindo se o jerusalemE era mulçumano, judeu ou n.d.a.

O cara viu minha cara brava e quando me cumprimentou insistiu se estava tudo bem comigo. Eu disse que sim, mas com a insistência dele me olhando bravo (como deve tratar a mãe dele na terra dele) eu já fui falando: estou aqui há mais de duas horas a esperando, não é pra eu estar com essa cara?
E ele ficou queito.
Fomos andando, tivemos ainda que ir no mercado levar coisas pro piquenique.
Ela também convidou uma outra amiga que estava p*ta da vida nos esperando em Victoria Station, onde pegaríamos o outros ônibus (ainda tivemos que pegar ônibus), não quis pegar metrô depois de me deixar plantada com a mineira louca de pedra.

Hamstead Heath, um lugar lindo... no próximo post.

22 janeiro 2015

Amigos, amigos, Londres a parte

Pela leitura deste blog até onde relatei acho que dá no mínimo pra imaginar como eu estava em frangalhos e teimosa. Muuuuito teimosa para que as coisas dessem certo ou pelo menos eu conseguisse meu FCE.

Para quem tem inglês acima disso parece uma bobeira, mas virou meu foco, minha maneira de lutar ainda por mais tempo (sem dinheiro, sem amigos, sem muitas horas de trabalho) em Londres. Eu não admitia de forma alguma ir embora sem pelo menos esse certificado, era como ter ido à Roma e não ver o Papa (e eu vi quando fui rs o Bento XVI, mas vi rs).
Eu sofria muito e podem ler aqui meus desabafos, mas eu não "largava o osso", eu não jogava a toalha.
Algumas pessoas no Brasil torciam para que eu aguentassem e comentaram quando eu voltei:
"Eu falei pra ele (pro marido) ah, ela vai fazer a merda de voltar!"

É fácil falar que eu ia fazer essa merda quando não se estava vivendo o que vivi: me via encurralada num beco sem saída, escuro e sozinha.

Outra pessoas só me diziam: "Menina, larga tudo e volta! Para de sofrer aí! Volta pras pessoas que te amam!". Mas eu não aceitava isso, era como se eu voltasse totalmente fracassada, mais fracassada do que já me sentia.

As horas de diferença no horário de Brasil e Londres atrapalharam um pouco meu convívio com os amigos que aqui deixei, mas teria que ser assim um pouco para que eu me soltasse em Londres, não?
Tentei fazer amizades e digo que consegui, no final, fazer algumas, mas eu já estava totalmente arredia à Londres, odiando com todas as minhas forças morar lá (sim, eu tive ódio mortal).

Nessa vida louca que vivia de estudar, procurar emprego, levar um monte de desaforo e portas na cara, percebi que alguns amigos no Brasil já haviam cansado de mim. Porque eu imagino que deve ser cansativo dar conselhos pra alguém que sofre, mas não larga o motivo de sofrimento por puro orgulho.
A maioria aguentou bem, mas tive fases ruins com eles porque eu simplesmente estava intransigente, obcecada. E no final sei que também estava fraca para qualquer tipo de amizade: eu não tinha como ser amiga de ninguém porque estava fragilizada demais com tudo que vivia... estava escondendo a verdade numa carapuça: eu estava deprimida, ansiosa e com algum tipo de síndrome, talvez. Não estava me aguentando, não tinha como ter um relacionamento legal com ninguém.

Alguns amigos me aguentaram e me aguentam até hoje. Ouço muito estes porque realmente respeitaram a loucura que eu fazia comigo.

Na minha vida londrina de sofrer e lutar, parecendo quase uma Jack Bauer (rsrs) cheguei a ter problemas com amigos que simplesmente me ignoraram, deram respostas atravessadas e outros que nem esperava briguei de forma agressiva quando voltei ao Brasil e nunca mais tive amizade.

Uma dessas pessoas a amizade se desfez ainda em Londres. 
Depois de tudo o que leram  - e mais que falta rs - essa pessoa sempre me aconselhava a voltar pro Brasil e até fazer o FCE aqui, o que era inviável pelo preço, a diferença pra quem estava recebendo em libra era gritante pra mim.

Ela sempre falava comigo e percebi o sumiço, depois de semanas, não era fácil lembrar de todo mundo quando se está com a cabeça a mil e tentando fazer as coisas darem certo mesmo dando murro em ponta de faca.
Resolvi mandar uma mensagem pra ela, dizendo que estava com saudades e ela me respondeu com um "saudade nada!". Fiquei tão arrasada... e perguntei: nossa, fulana, por quê?
E ela: "ah, eu também tenho meus momentos de solidão e o outro dia você disse a um amigo que ele..." não me lembro da situação exata agora, mas ela ficou com ciúmes de uma conversa no Fb com um amigo e, claro, ela entendeu errado achando que ele era querido e ela não...) e eu respondi que não era aquilo, expliquei a conversa em detalhes com esse amigo e disse e "você acha que tudo que eu vivo aqui é pouco?" Ela nunca mais respondeu, como não respondeu nem quando voltei ao Brasil, a deletei dos meus amigos, não quer falar, não fala e também não xereta minha vida...

Resolvi falar sobre isso hoje porque a vi no metrô.
Estava sentada do lado da moça da janela... e só vi quando uma moça entrou correndo no vagão indo para o fundo, de costas a reconheci e fiquei olhando onde ela sentaria: lá no último lugar, de cabeça baixa e eu olhando pra ver se era ela mesma, era ela. Ela não olhava, quando desci, passei, pela plataforma, olhando exatamente onde ela estava sentada, ela estava lá, olhando pra mochila, não olhou e eu fui.
Ela me viu, ninguém entra no metrô correndo em sentido contrário ao que eu estava pra sentar, com tantos lugares sobrando, justamente do lado de uma pessoa lá no fundo - se o banco estive vazio era outra história... - ela me viu quando o trem parava na plataforma e como era ali a porta que ela entraria, entrou correndo para sentar longe.

Tudo bem, se ela não tivesse feito isso poderia ter dado um oi pra ela e ver o que acontecia, mas nestas condições eu só tive certeza de uma coisa, uma teoria que tenho há muito tempo: quando a pessoa mal te conhece e já te chama de melhor amiga e diz coisas como "amo-te, amiga!" é porque é fogo de palha: como te ama num dia e foge de você no outro.

08 abril 2012

Vida entre brasileiros

Em dezembro de 2010 tinha deixado esse rascunho aqui:

Comunidade Brasileira em Londres: nunca eu digo NUNCA espere ajuda de brasileiros aqui, claro, eu achei umas quatro pessoas muito boas aqui... e o resto... é resto! O resto te olha como se você fosse tomar o emprego dele, que quisesse entrar numa ordem secreta e te dizem: ah, tá, eu vou ver se tem alguma vaga e te falo... A ordem secreta se explica, hoje, depois de 5 meses eu entendi que sou mal vista porque tenho passaporte europeu ORIGINAL de família, ou seja, um DIREITO meu garantido. A maioria está ilegal e tem medo de você, tem medo porque você pode conseguir um emprego melhor e medo que você o dedure para a imigração, como muitos fazem. Muitos brasileiros com visto britânico fazem isso e muitos portugueses também são acusados disso, só que eu não quero confusão com ninguém, quero que cada um viva a sua vida e deixe a minha em paz, o que nem sempre acontece. Além disso, há muitos brasileiros com passaporte europeu original e britânico que não te ajudam em nada: "se eu sofri, você merece pastar também", o egoísmo total. 

Meu pensamento não mudou muito, a partir daquele momento até tentei não ter tanto preconceito com "gente da minha terra", mas acabou sendo inevitável.
Os brasileiros realmente se fecham para outros brasileiros - não só por serem ilegais, mas realmente não gosta de ajudar. Ajudam se você for inglês ou alguma nacionalidade considerada superior (brasileiro não perde a mania de se sentir colonizado).

Estava infeliz vivendo com a marcação serrada da xereta Marciana e "não dormindo" no mesmo quarto que a Bruxa do Centro-Oeste. Minha Roommate do bem viria pro Brasil em abril e eu ficaria só, mais só do que já me sentia. Precisava mudar.

Procurei no famoso Gumtree, o site mais popular de classificados na Ilha. E, por isso mesmo, o mais cheio de golpes. O golpe mais comum (e como brasileira eu já reconhecia logo de cara ser um golpe) era da família que iria se mudar pra um outro lugar (US, África etc) e precisava de alguém para cuidar da casa, ou seja, era praticamente só cuidar de um apartamento enorme em Notting Hill (você não desconfiaria?), o preço era irrisório, algo como 100 libras por mês. Havia esse mesmo tipo de anúncio para emprego: você receberia 1000 libras por mês (aumentou 10 vezes!) para ser a governanta da casa.
Não encontrava nada que parecia bom e barato.

A mãe da minha professora de inglês, uma brasileira e elas precisam de alguns capítulos aqui, me falou sobre uma amiga que alugava quartos na região nordeste de Londres, lá na longíqua zona 3 quase 4, na Central Line. Fui ver o quarto.
Chegando lá, descobri que era pra dividir com um rapaz. Bem, como ele é gay você pode dividir sossegada. É o que sempre dizem por lá e muita gente faz isso. Iria me cobrar 60 libras a semana - eu pagava 50, mas era praticamente zona 1 e só pegava um ônibus por 15 minutos e estava no trabalho.

Lá teria que dividir o quarto com um homem - não deixa de ser um pra mim - e pagar 10 libras a mais: além de que teria que gastar dinheiro com transporte pra chegar lá, teria que pagar o metrô ou seria quase inviável. Ou seja: de 1,30 de busão, teria que pagar pelo menos 2,90 (preços só de ida).
Mais 10 do quarto e ainda teria um dia da semana para limpar a casa (onde estava já era incluído na limpeza da Marciana, que reclamava todo final de semana pra limpar, mas era o acordo dela, ela queria o quê? que eu ficasse com dó e além de pagar o aluguel dela ainda ia limpar o muquifo?).

Não achei viável e também ouvi algo que não gostei.
Elas são espíritas (a mãe da teacher e a dona da casa) e eu também.
Frequentava uma casa espírita pequena e que deixavam as crianças atrapalharem as sessões (filhos dos próprios voluntários que chegavam quase no final da sessão) e comecei a me irritar pela falta de indisciplina, tinha saído de lá para ir ver a casa.
E contei para a mulher sobre não estar gostando disso e a dona da casa veio com uma de "ah, mas dever o único horário que a mãe tem pra ir e o filho deve ser o maior necessitado que você".
Sim, todo mundo sempre na minha frente...
Como eu já andava com a tal da estima lá no inferno (sorry, mas tenho que usar MESMO essa palavra). Ouvir alguém me dando lição de moral naquele domingo à noite já bastava, se era tão espírita como dizia por que não conseguiu enxergar que estava diante de alguém que estava extremamente vulnerável a qualquer comentário?
Ainda mais porque a própria mãe da teacher tinha me dito que essa "dona da casa" (ela só era a Landlady e ela limpava a casa e a dona mudou e deixou que ela alugasse porque era de confiança) com a filha que trabalhavam de cleaner estavam ilegais e... faziam o que queriam na casa das donas: inclusive dormiam nas camas das donas das casas quando estava cansadas de limpar, comiam a comida etc.

Então, cadê sua moral pra falar que eu não tenho paciência com uma pobre criança de dez anos que fica jogando bolinha durante a palestra e a mãe que chega no final só pra ser a primeira a receber o passe?
Antes de jogar pedra em mim, olhe se você também não merece um paralelepípedo na cabeça!
Se ela fosse uma madre Tereza de bondade e benfeitora eu engoliria: a mulher é um ser acima que preciso chegar e alcançar, mas se você faz barbaridade na casa das suas patroas, não vem falar de mim porque eu não vou aceitar!
E não aceitei...  o preço e os termos já não compensavam e eu como uma alma perdida em Londres, senti que realmente nunca conseguiria encontrar uma pessoa que me ajudasse e me desse pelo menos uma mão para me dizer: calma, Regina!
Não, ninguém era capaz disso.

Na escola-ong de brasileiros, para dar aulas para filhos de brasileiros (preciso comentar sobre lá, né?) havia uma maioria de legais e nem por isso me tratavam melhor.
A professora para a qual eu era assistente de sala, quando perguntei a  todos se ninguém sabia de algum quarto para alugar veio com as pedras nas mãos:
Você acha mesmo que vai achar algo barato em Putney? (a maioria morava por lá, mas eu não tinha dito que queria morar lá) Olha, nem adianta ficar procurando, nem tem lugar barato para morar lá e ninguém aqui sabe de nada. Ainda se fosse em Parsons Green... (perto de Putney, zona 2 oeste de Londres)


Fiquei tão chocada com a doçura dela que nem falei que não estava procurado exatamente em Putney... A voz não saía... e os outros olharam de lado e ninguém falou nada...

Depois me acostumei com a doçura dela quando a vi xingando o marido na frente de todos... vi que ela era doce assim de natureza e que o marido, mesmo sendo brasileiro, não devia estar dando conta... Deve ser difícil dar conta de tanto fel...
Ela mesma tinha me falado pra eu ser babysitter e procurar no... Gumtree... (todo mundo só me dizia: já procurou no Gumtree?)
Afinal, poderia morar na casa das pessoas...

O que achei no Gumtree não era babysitter nem Nanny, era escrava: moraria na casa, ganharia algo em torno de 80 libras por semana, com uma folga na semana e não teria horário pra estudar.
Uma das mulheres com quem falei, uma norte-americana se me lembro bem, disse: como assim você quer estudar? Não tem horário pra isso, você tem que cuidar das crianças durante o dia e a noite!

E a maioria é assim.
Lembro de ter visto um anúncio em St John's Wood (região bem classe alta londrina) que pagavam 5£ a hora para ser babysitter ( salário real para uma babysitter morando em casa seria por volta de pelo menos 10 se não morar na casa a partir de 12, o salário mínimo era 5,93 - o que ganhava no Império)
Comentei com uma brasileira e ela só me disse: você não quer? vai ter uma filipina pra fazer isso.
Ou seja: filipino é o escravo do londrino.

Também acabei me traumatizando depois do caso italiana... comecei a sentir que sou uma inútil e irresponsável com crianças.

Tentava arrumar um emprego e um quarto por minha conta, ia à agências imobiliárias, procurava empregos no site do governo também e nada... mandava meu c.v para todos os lugares... e nada... tristeza porque tentei muito. Passava o dia todo em sites de emprego.
Fiquei até sem estudar para ver empregos e casas e nada.

Chegava depois do trabalho, cansada e desesperada comentando que precisava achar outro emprego e Marciana vinha como a dona de toda a sabedoria:
Porque você não quer trabalhar o dia todo! Quem quer arruma emprego! Trabalha até de madrugada!

E eu:
E quando vou estudar? Vim aqui pra isso?

Woman from Mars: Estuda de noite... sei lá... Quem quer faz tudo que quer aqui!

Se eu tivesse para onde ir, teria saído dali, mas não tinha... Além de pagar para aquela vaca, ainda tinha de aturar desaforo de quem se acha porque se mata para sustentar família chupim no Brasil...

Outra na escola de brasileiros me disse: por que você veio aqui pra Inglaterra no meio dessa crise? Deveria ter vindo antes!

Eu:  Só agora consegui juntar dinheiro pra vir... não consegui antes... estava juntando... demora...

(ela morava lá já uns 7 anos... o pai pagou curso e tudo e aí ela arrumou um passaporte britânico: um marido inglês que deu emprego pra ela na empresa de telecomunicações de lá)

A todo momento ouvia coisas legais de todos os brasileiros... a mãe da teacher até tentou me arrumar um emprego na escola que trabalhava para ajudar na hora do almoço das crianças, mas a cucaracha me tirou do páreo, pôs uma amiga que ficou uns 3 meses no emprego... e eu sem nada por todo aquele tempo... (quer dizer, só com o Império no final da tarde).

A mãe da Teacher achava que eu não me esforçava... era engraçado pra mim aquilo: todo mundo achava que eu não me esforçava...
Será que era porque todo mundo tinha realmente chegado numa época melhor e não conseguia enxergar porque eu não conseguia me virar logo?

Só quando conheci brasileiros que moram em Londres há 20, 30 anos eles me entenderam e me disseram: essa não é a mesma cidade como a conhecemos, mudou muito... e pra pior... (só isso me consolou).

06 dezembro 2011

Vida de Gado, Vida de Cleaner - parte 2 (terça-feira e sexta)

Como andei contando sobre os donos das casas, terça-feira era pior dia, era o dia da casa da "Feiona" ou porcona mesmo... o nome dela é o mesmo da esposa do Shrek, daí feiona...

Bem, começávamos por ela... era uma casa longe... longe... longe... todas as casas de Marciana são longe... na região de Lewisham, sul de Londres, e do outro lado da rua ficava a casa da amiga dela que também era cliente de Marciana, iriamos pra lá depois... e mais história...

Mas Feiona tinha dois filhos e uma casa como as tradicionais inglesas e não lembro se já falei aqui sobre isso: por fora, você não dá nada, por dentro, ela expande para o fundo e para cima... são enormes!

A Feiona deixava a casa simplesmente emporcalhada... eu não cheguei a conhecer uma pessoa mais imunda que ela, mas várias que chegaram beeem perto, porque inglesa não liga muito pra manter a casa limpa, acha que é só se faxinada algumas horas na semana por uma cleaner...

O primeiro dia que cheguei, já assustei com a cozinha: ela também deixa a louça naquela bacia nojenta, só que a bacia nojenta dela é mais do que nojenta! Toda a louça estava lá no meio da gordura e restos de comida.
Marciana não sabia ligar a máquina de lavar louça (já estou dando uma pista do porquê do apelido dela...) e não me avisou que havia uma e lavei aquela nojeira na mão, claro, jogando beeem longe aquela bacia imunda. E Marciana reclamando comigo porque tem um jeito próprio de se lavar louça na bacia, que é uma combinação com as torneiras fria e quente e eu pouco ligando pro puxassaquismo dela. Combinação de água quente com fria? Jeito certo de lavar? Economizar água?
O caralho pra aquela porquice!

Imagine: o fogão estava todo cheio de porridge, o mingau de café da manhã dos ingleses, cheio de leite grudado com aveia e... Feiona é tão boa dona de casa que para fazer tudo mais rápido, pelo rastro que deixou no chão, tirava correndo do fogão imundo e jogava na mesa de jantar para que comessem, também tinha restos do café da manhã pela mesa e chão, claro!
Todos os cereais das crianças e suas canequinhas etc.

A cozinha, como deu pra perceber era imunda. E Marciana ficava mandando eu limpar melhor a cozinha. Juro que quando vi aquela cozinha desanimei e fiquei pensando que dar uma enganada naquela casa seria o melhor, mas Marciana ia lá e falava pra eu deixar brilhando o vidro do fogão... era pra tirar uma meleca danada! E imagina que Marciana fazia isso toda a semana!
Quer dizer, só uma vez na semana o fogão era limpo.

A sala era enorme, dividida em sala e sala pras crianças brincarem, ou seja: muita bagunça. Era fácil achar pedaços de doces no meio dos sofás.
O banheiro não era tão imundo, afinal, ainda bem! Era janeiro e eles não tomam banho! Mas... a mulher deixava cabelo por todo o lado...acho que ela precisava de um tratamento pra queda de cabelo porque era um inferno de cabelo pra todo canto!
Eu não tinha muito saco mesmo pra limpar aquela imundice toda e tentava dar um jeitinho, mas Marciana pra mostrar serviço (pra mim, claro) ia lá e mostrava como limpar bem. Então que limpasse, a minha mão estava bem, a dela que não estava e numa casa daquelas, não se merecia muita coisa.
O quarto das crianças também não eram tão problemáticos, mas o problema é sempre o carpete... aspirar os malditos carpetes...

Mas não é só isso!
Como diriam aquelas propagandas...
Tinha o quarto da figura pra limpar e eu já disse, elas querem que se faça até a cama, como se fôssemos camareiras de hotel.
Bem, cama desarrumada já era de se esperar, né? mas roupas todas jogada pelo chão?
As inglesas tem uma péssima mania de largar todas as roupas pelo chão ao invés de guardarem no armário ou pôr numa cadeira... fica tudo jogado... não jogado porque ela e o marido tiveram muito o que fazer durante à noite, jogado porque largam a roupa pra qualquer canto, bangunçado mesmo. No quarto que ela tinha pras roupas, com armários, era igual!
Só que ainda há o pior!
Entre os cantos que sobram entre o colchão e a cama havia vários papéis higiênicos dobrados... não tiramos... nem a Marciana dessa vez pôs a mão... e ficaram lá por quatro semanas, porque o casal Shrek não tirou (ogros...), daí, na última semana resolvemos fazer algo: aspirador neles! rs
Só poríamos a mão com luva, mas até assim ficamos com nojo!

Nas outras semanas, dona Marciana me falou da existência da máquina de lavar louça e eu joguei tudo lá, toda aquela melequice e não via a hora de passarem os dias pra não ir mais naquela casa e ao mesmo tempo pensava que precisava daquele dinheiro...

Ah! tinha que se passar a roupa também! E a feiona queria que passasse até a toalha de banho... mulherzinha dos infernos, a casa uma imundice e cada vez inventava uma coisa: pra limpar rodapé, limpar sei lá o quê... como se em quatro horas (quando eu ia era em 2 horas, duas horas pra cada) desse pra limpar a imundice que ela acumulava a semana toda e ainda queria mais coisas!
Só com um "spring cleaning" a casa ficaria decente.
Spring Cleaning é isso mesmo: a limpeza da primavera, porque no inverno (e em todo o resto do ano rs) a sujeira fica lá se acumulando até que um belo dia de "primavera" a dona da casa pensa: oh! essa casa precisa de uma limpeza pesada!

Marciana me pagava 7 libras a hora para ajudá-la. Nessa casa, na da segunda-feira e da próxima, elas eram amigas e pagavam igual: £8,50 a hora. Em algumas casas ela ganhava 12, em outras 10.

Dessa casa, íamos pra amiga da Feiona que tinha um casal de filhos, casa mais bem arrumada, tinham acabado de reformar e para me alegrar a vida colocaram nos quatro andares carpete creme... ah! como eu amava ir naquela casa e passar aspirador cômodo por cômodo, escada por escada... e sempre os malditos carpetes felpudinhos pegavam e não largavam os fiapos de roupa... ah, que lindo que era ver aquele monte de bolinha de roupa naquela merda creme...
E o aspirador que pesava uns 10 kilos... ah, que vontade de jogá-lo pelos 4 andares abaixo... ou na cabeça de quem comprou aquela merda que mal aspirava, só pesava.
A menina, de graça, tinha uma beliche no quarto, só pra ela e eu pensava: vc tem uma beliche porque é divertido quando é criança, né? Vai dormir na minha!

Eu ficava olhando... a mãe levava a menina pra escola e o menino, muito pequeno, pra passear no parque, aí ela voltava, mas como ela era uma mãe estranha... ou todas as inglesas têm essa estranhice maternal?
Ela não fazia almoço, comia um lanchinho como todo inglês e fazia o mesmo com o menino de uns 2 anos que amava Toy Story e tinha os bonecos. Um menino fofo!!
Um dia, ela voltava pra casa com o menino dormindo no carrinho e empurrava, empurrava o carrinho pra entrar e não entrava, tive que ir lá falar e mostrar pra ela: o pézinho do menino ia se enfiando cada vez mais debaixo do carrinho, dobrando por conta da pressão que ela fazia pra empurrar e o tapete de entrada.
O menino não chegou a chorar, mas eu a vi como uma louca que não reparou um só momento e que nem ficou preocupda quando mostrei, só tirou o pé do bebê... e ficou lá... mandando mensagens sem parar no celular, como sempre a via fazer.

Marciana, como boa puxa-saco, achando que a dona da casa se importava com ela, começou a falar que estava com saudade do filho que tinha ido pro Brasil (história pra outro post) e também comentou da enchente no Rio de Janeiro que aconteceu naquele mês de janeiro.
Falava no inglês dela: see the flódi in Rio de Janeiro? My son is in Brazil.
A mulher só olhou pra ela e disse: não sei disso não. E continou com a vida atarefada de mandadora de mensagens por IPhone.

Dessa casa, tínhamos uma terceira, ainda mais longe e que pra voltar tínnhamos que pegar o trem até London Bridge se estivéssemos com pressa.
Era a casa de um espanhol e como bom latino, a casa de um homem solteiro era mais limpa que qualquer casa de uma inglesa casada.
Aí sim fazíamos o que a faxineira faz no Brasil: limpa o que não dá pra limpar no dia a dia com a correria. Era uma casa tranquila, sem grandes problemas por ser muito limpa e organizada.

Mas Marciana acabou dando um grande fora e a máscara de boa mãe, religiosa, temente a Deus, fiel aos bons costumes e honesta começou a cair...
Ela, dias depois, acabou comentando que o espanhol era tão gente boa que como não a dispensou do trabalho por conta de ela estar com a mão operada resolveu pagar além da hora para ela, para a ajudante (ou seja, eu!). Ela sem perceber me contou que era pra eu estar ganhando mais, não só 7 por 1 hora e meia nessa casa... mas acho que 10 por 3 horas! 10,50 para 30 libras é uma boa diferença no bolso meu e, claro, de Marciana...

Quarta e quinta-feira as donas das casas, algumas a dispensaram e até pagaram pra ela ficar em casa, outras não queriam ajudante e só fui numa das casas de quinta, de, como diria a própria Marciana: a casa do gay. Nunca o conheci, mas era uma casa também tranquila e longe, essa era preciso pegar o metrô e era em outro sentido, noroeste de Londres, perto de Wembley.
Só tinha muitas camisas sociais para passar e aí aprendi a passar (ou a enganar) essas horripilantes roupas...
Ela o chamava assim porque fazia a casa do companheiro dele, então, ela sabia bem a vida dos patrões...
Ela não fala inglês, entende pouco, mas acredito que muita das coisas que tenha percebido sobre a vida deles, foi porque anotou e mostrou pro filho, não só esse casal, mas das outras famílias.
O filho mandava e respondia as mensagens do celular para ela. Como já disse, outra história.

E sexta tinha mais! Tinha uma casa também tranquila que era de 15 em 15 dias que se tinha que passar roupa e uma de uma professora quase para se aposentar que Marciana, finíssima, chamava de "a casa da sapatona".
A dona da casa era simpática e até deu uma garrafa de vinho para Marciana e outra pra mim, pelo Ano Novo que se iniciava - o vinho da minha mala, sabem já a história toda dele... - ela conversava bastante e saia para podermos limpar a casa tranquilamente.
Eu não vou esquecer de um dia, arrumando a cama de um dos quartos da casa, que era uma espécie de duas camas juntas formando uma cama de casal com um aparato tipo aqueles de deixar a cama mais alta igual em macas e a mulher de Marte disse: sei lá que cama maluca é essa, deve ser pra imundices de sapatona!
Não sei que tipo de cama era aquela, me parecia pra algum tipo de problema de coluna ou algo assim, mas Martian (rs) como uma pessoa sem preconceito, já tinha julgado e condenado a professora.

Salvem a professorinha!

Havia outra casa na sexta, mas era a mesma de uma mulher da quarta que a dispensou.
E assim minhas semanas de janeiro se passaram, mas antes que janeiro terminasse, tive que conciliar esse trabalho com um durante os finais da tarde, limpando escritórios, nooooooooooo

Império do Fado!
(próxima parada)

04 outubro 2011

Sal Grosso!

Como disse uma amiga minha, quando voltar ao Brasil precisarei tomar um banho de sal grosso, porque só assombração me aparece...

Há um tempo eu devo ter comentado aqui sobre não ter respondido ao recado de uma pessoa que conhecia de algum tempo na internet.
Cheguei aqui e tive dificuldades no começo com a internet, lembrem que a Collorida me cortou o acesso ao invés de dizer: pague mais dez libras pra ter internet, mas preferiu mentir descaradamente dizendo que os cabos haviam sido roubados, sim, da internet hi-fi...

Também respondia muita coisa correndo e demorei meses para responder alguns emails...

O que percebo agora que não é diferente do que falo dos outros brasileiros aqui: se reclamo de eles nunca terem tempo para nada, que a vida de trabalho e problemas pra resolver consome, consome a mim também e deveria entender que aqui não é lugar mesmo pra fazer muitas amizades logo de cara...

Bem, com a demora de uma resposta para essa pessoa, recebi, DOIS dias depois a seguinte mensagem via direct message do Twitter:



Achei a coisa mais BOPE do mundo: primeiro atira, depois pergunta. Devo ter desabafado aqui e bloqueei a pessoa. Afinal, estava aqui há 2 meses, cheia de problemas de mudança de casa, de ter saída da casa do terror, sem trabalho, dinheiro acabando e vem alguém do nada, porque não respondi um recado do tipo "tenho novidades!", dizer que sou metida a besta SÓ porque estou em Londres...

Odeio esse tipo de coisa, é como minhas tias que citei antes, fazem o mesmo: primeiro eu te julgo e dou veredicto, saber o que é e o que não é, não é da minha alçada (só pra ficar tudo no mundo jurídico, a pessoa pertence a ele...).

Quase um ano depois e me aparece a pessoa com essa:


Bem, eu sou malcriada além de metida a besta, ok!

E eu queria muuuuito entender porque alguém que sabe que foi bloqueada (por que será?) me acha metida a besta e malcriada ainda quer falar comigo e, pelo jeito, me encontrar!!!!
Sim, eu preciso de um banho de sal grosso pra ver se todo esse povo me deixa em paz!

Será que a metida a besta e malcriada faz falta de alguma forma? Será que a minha amizade era importante?
Bem, se era, não tem volta: ou as pessoas primeiro perguntam pra poder entender os meus motivos ou, por favor, me deixem em paz e esqueçam que eu existo!
Não dá pra darem o veredicto de culpada sem um julgamento digno.
O dia que me julgarem de modo digno, podem vir falar comigo, se eu for culpada, eu aceiterei, porque se eu quero que sejam justos comigo, preciso ser justa com os outros.
Então, quando forem justos comigo, acatarei a sentença.


Desculpem amigos que aparecem aí acima, se quiserem eu apago todos.

12 setembro 2011

3 meses pra voltar ao Brasil

Exatamente de hoje há 3 meses estarei novamente no Brasil.

Existem dois lados pra comentar.

O primeiro é que muitas pessoas, quando digo que estou voltando acham super cedo minha volta. Muita gente que está aqui há um bom tempo diz que o primeiro ano é assim mesmo, depois as coisas entram nos eixos...
Pode até ser, só que eu acho que não tenho idade e nem saúde para esperar mais.
Tenho 36 anos, já percebi que envelheci horrores aqui, além dos 8 kilos a mais...
Não me reconheço quando olho no espelho e nem nas fotos que tiro.
Vejo uma mulher pálida, gorda e feia.
Que deve estar cheia de varizes na pernas (mas nem olho pra não me deprimir), com algum problema de coluna, com toda certeza, pelo "colchão" que dormia na casa da Marciana - e logo vocês saberão mais sobre minha cama de faquir...

Eu acho que se tivesse 10 anos a menos, talvez eu arriscasse ficar mais tempo, tipo, ver se as coisas realmente entrariam nos trilhos... mas não tenho, além do que disse acima, não tenho paciência...

Acho que depois de todas as humilhações e sufocos que passei aqui não tenho pique para aguentar mais...
Semana passada mesmo eu estava deprê total - acho que foi a tpm, mas... tem horas que é muito barra pesada estar sozinha num país já não tão estranho, mas sem com quem contar, sem ter onde chorar tranquila...
Ah, que saudade de chorar na minha cama! Nunca mais tive essa privacidade... acabei chorando em banheiro e ou na rua... que se dane, os outros não me conhecem...

O que acontece é que muita gente por aqui (Londres) não me entende...
Não só por tudo que falei acima, mas porque muitas pessoas vieram acompanhadas, estão com família, amigos, namorado, alguém que dê um apoio, que ajude nos momentos críticos e eu não, eu vim sozinha e continuei sozinha.
Fiz amizades, mas não é a mesma coisa de passar muita raiva e correr pra contar, ainda são amizades muito novas e que, a maioria das pessoas, como não passaram pelo mesmo, não conseguem, mesmo, me entender.

O segundo ponto é o do outro lado do Atlântico.
Voltar e encontrar minha família não será fácil. Os problemas que deixei continuam lá e prefiro eles a estar aqui, pelo menos é sofrimento coletivo, todo mundo junto, sofendo e se ajudando.

Mas o problema maior do outro lado da Atlântico, sim, serão minhas tias que fazem o favor de tudo ficarem no meu pé.
Tanto que teria o casamento de uma prima para ir e só volto dois dias depois.
Fiz de propósito.

Eu sei e já desabafei aqui como será.
Eu passei a vida inteira sendo vista como menos por elas, sempre minhas primas eram superiores a mim.
Então, chega, né?
A vida inteira foi:
"a F ganhou a boneca tal de Natal, você não".
Claro que eu não ganhei, meu pai nunca teve dinheiro pra isso...
"Nós fomos no Playcenter ontem! Fomos na Montanha Encantada que você queria ir, mas não fomos da vez que você foi!"
"Ah, você tá gorda! Essa roupa nunca vai servir pra você, serve na A"
"Você é muito portuguesa, mesmo, né? Por que não pode gostar de axé e pagode como suas primas ao invés desse barulho?"
"Ih, a S trouxe batons e perfumes pra todo mundo, mas esquecemos de guardar pra você... ah, tem esse aqui!"
sempre a coisa pior que ninguém queria...
"Nossa, como seu irmão é mole! Demora tanto pra arrumar uma antena de TV pra gente!"
Sim, meu irmão fazia as coisas e também sempre foi tachado.

E agora uma dessas minhas tias diz que eu sou antissocial e que se eu não arrumo inglês que eu deveria arrumar outra raça, assim, fácil, num estalo!
Antissocial foi porque disse que estava difícil dividir quarto - logo saberão o inferno que vivi.
Só que essa minha tia não me perguntou porque era tão difícil, não quis saber como era, como sempre, foi jogando tudo no ventilador. Não pensa, só fala o que vem na cabeça e, de preferência, tudo que seja pra detonar logo comigo.
Daí a bloqueei no msn e tive que bloquear todo mundo para, como disse pra minha mãe, os outros não ficarem com ciúmes.

Agora ela veio dizer pra minha mãe que tem saudades de falar comigo e que eu nunca mais falei com ela...
Já disse pra minha mãe: ou você diz que estou magoada ou ela espere pra eu jogar na cara quando voltar...
Infelizmente, anos e anos sendo tratada como lixo uma hora tem que acabar... Seja de forma doce ou amarga, acaba.
E sei que quando voltar e ter perdido o casamento todo mundo vai falar e eu vou dizer: pensei que eu não faria falta no casamento, ou eu fiz falta porque não estava lá pra fazer parte da turma de perdedoras que vocês queriam mostrar pros outros?

Não acho que sou perdedora, mas elas acham, sempre acharam e esse seria, pra elas, o momento de coroação da bela, classe média, doce, fã de axé e pagode sobre a pobretona, gorda, baixinha, portuguesa (por ser brava pra elas, e sim porque eu sempre tive opinião).

Acho que tive uma vida muito dura desde criança, com vários problemas familiares e me tornei uma pessoa extremamente tímida e sonhadora, cheia de traumas e se hoje estou sozinha, tenho certeza, não foi porque perdi, não se perde, não se ganha, pelo menos eu acredito nisso, diferente delas que acham que isso é uma vitória.
Talvez eu seja vitoriosa só por conseguir colocar tudo isso no "papel".
E serei vitoriosa só por ter feito o que sonhava, ter descoberto por mim mesma que Londres não é meu lugar.
Hoje sei que não vou passar o resto da vida falando "ah, Londres que era o lugar para eu viver"...
Eu sei por experiência própria que não é assim e se elas continuarão me criticando, seja pelo que for, só que talvez eu esteja mais preparada para dar um basta nesse bullyig familiar.

08 setembro 2011

Mais coisas ainda do final de 2010

Quando trabalhava com o casal do sul, eles trabalhavam quase no esquema de vans, ainda em começo de carreira, mas é o que eles deveriam fazer em breve, pelo menos pretendiam. Tinha várias casas e pra trabalhar em várias no mesmo dia precisa-se de um batalhão.

Porque você ganha pra limpar uma casa em 5 horas, como já contei, e com um monte de gente, faz em 1,2 horas e paga uma miséria pros "assistentes".

Voltando, eles estavam procurando um ajudante pra todos os dias, integral e eu não quis, porque nunca foi esse meu objetivo aqui, por menos que ganhasse e passasse sufoco vendo meu dinheiro ir embora...
Trabalhei judando nos dias que pude e eles conseguiram um outro ajudante, um rapaz de São Paulo, de uma cidade próxima da capital, das várias dormitórios ao redor da big city.
Ele me disse que estava aqui há uns 2 anos, que em São Paulo trabalhava no palácio do governo, como garçom, um dia, encheu o saco, pegou férias e veio tentar a vida aqui...
Não fala praticamente nada de inglês, ilegal, procurava uma documentação ou um casamento fajuto. Eu fiquei beeem quieta...

O nosso grande amigo de trabalho é o famoso Henry, um dos aspiradores de pó mais usados nas casas aqui, ele tem uma carinha simpática:

Só a cara simpática... porque é pesado que a p*rr@! rs

O rapaz me disse que achava esse "hoover" (já até esqueço o nome em português de tanto que falo 'hoover', 'cleaner', 'shower', 'toilet', 'feather', 'mop', 'brush', 'brum', 'kitchen', 'tissue', 'wepping', 'bin', 'cloth'... esse é o vocabulário da "criner" rs), então, o rapaz achava que esse hoover é muito bom e disse que comprou um e mandou de presente pra mãe dele...
Eu fiquei só olhando e pensando: coitada dessa mãe, homem só acha que mulher tem que ganhar mais trabalho, né? aff mais uma vez, fiquei quieta...

A mulher só ouvia no rádio do carro, indo de uma casa pra outra, uma rádio no estilo Antena 1 e virou pra mim e disse: só músicas do NOSSO tempo!
E eu: ãh?????? Bee Gees e outros não são do MEU tempo... quem ela pensa que eu sou?
Mais uma vez, não lembro se falei minha idade pra figura... mas ela é mais velha que eu e tem um filho de 20 anos...
Não que eu não pudesse ser, se tivesse sido precoce... mas daí a ouvir Bee Gees e dizer que é do meu tempo??? Vai a PQP!!!!!

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Nem tudo foi ruim na casa de GG, lá, finalmente, consegui ir em um Job Centre e tirar meu famoso insurance number e num GP (posto de saúde) e tirar minha carteirinha pra usar...
A carteirinha pra usar o GP do NHS (INSS daqui) eu consegui até mais fácil que da vez que tive alergia na casa da Collorida... depois, não sei se comentei, descobri que não era bicho que tinha me mordido em Portugal e sim, que naquele colchão tinha o famoso bedbug...
Imagine: só chove, faz frio, nunca a casa e o colchão tomam sol... o que acontece? Claro que não ia descobrir isso pela Collorida, por ela, que os bichos me comessem, desde que pagassem o aluguel...

Dessa vez quis marcar um médico porque não aguenta, achava que tinha gripe e era minha alergia ataca à enésima potência, graças ao meu amigo do coração: o heating, ou o aquecimento e o meu carpete fedido de rato e que a Pureza (lembram?) falou que se eu quisesse ela tinha a máquina pra EU lavar o traste...

O que acontecia era o seguinte: minha garganta ardia como fogo, não conseguia falar direito como se tivesse perdido a voz de tanta dor de garganta e nada disso era gripe.
Cansei de tomar chá de pomegranate, ou a famosa romã que todo mundo come aqui e eu só via se tomar chá pra garganta no Brasil. E lá se foi xarope, remédio pra gripe que diziam ser tiro e queda...
Claro que não faziam o mínimo efeito: o problema era a alergia.
O heating também devia ser tão limpo quanto o carpete e ficava bem na cabeceira da minha cama... troquei de lado, comecei a pôr a cabeça pra dormir no lado dos pés. O ruim é que era onde ficava a tv e ficava complicado. Desligava o heating durante à noite, deixava o quarto quente e desligava pra conter o transtorno...
Só depois percebi que a garrafinha de água que deixava no quarto enchia de bolhas, como se estivesse esquentando... não era só esquentando por conta do heating, era porque ela ia secando, como minha garganta, porque esses aquecedores dos infernos, para aquecer, precisam tirar toda a umidade do quarto, inclusive a umidade da pessoa que dorme ali...

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Nesse mesmo período ia até a casa da Marciana, fiz amizade com ela, porque estava numa fase de quase perguntar a todo mundo: você quer ser meu amigo? eu queria taaaaaanto um amigo...

E é aquela coisa: você só conhece realmente a pessoa quando convive diariamente com ela...

Só que depois de quase 4 meses em Londres e sozinha, já não aguentava mais me sentir sozinha...
Um amigo que mora em Dublin até esteve aqui e me senti a pessoa mais feliz do mundo de ter alguém pra passar uma tarde de sábado batendo papo num Costa (uma cafeteria famosa aqui e mil vezes melhor que o Star-água-bucks). É horrível estar sozinha, tão sozinha...

Foi assim que comecei a engordar... descontava toda a minha tristeza na comida, comia potes de Haagen Dazs  (é barato, ainda mais no inverno), um chocolate delícia com gostinho de laranja... e eu nunca curti esse tipo de coisa, mas esse... nossa:
Ele é assim, todo em gomos, como se fosse laranja e eu comia sem ver assistindo Friends na TV rs
Entre outros quitutes... me enchia...

E aí resolvi ser amiga da Marciana, mas muito em dúvida se ia ou não pra casa dela... tinha que ter outro jeito... (mas não teve).

Um dos fatos mais loucos foi quando fui até a casa de um casal de amigos dela, eles voltariam pro Brasil e a moça trabalhava com casas, e um dessas casas que ela limpava era de uma italiana, como ela soube que eu estudei italiano, passou a casa pra mim, antes de voltar pro Brasil.

Dois jovens de BH que moraram aqui por 3 anos, se mataram de  tanto trabalhar, ela nas casas e ele em restaurante para juntar dinheiro.
Juntaram tanto que a primeira vez que juntaram, pra comprar um terreno na cidade onde moravam, deram pros parentes comprarem, segundo conta a história, compraram de uma imobiliária de mentira que levou o dinheiro deles...
Da segunda vez, não foram bobos, guardaram pra comprar quando voltaram...
Só que ele abriu um negócio e ela comprou seu próprio apartamento, fizeram bem, apesar de ilegais, como sempre...
Ele teve a graça de me mostrar o passaporte e identidade portugueses para comparar com o meu, original, pesado e bem feito. E ficava: nossa, o seu é bem pesado, mais bem feito (dã!).

Daí descobri a nova: inglês de rua...
Ele me disse que falava bem o inglês, mas o de rua, assim como a irmã dessa menina também me falou o mesmo...
Nova definição...
Não, não se trata de gíria, de slang, se trata de brasileiro que mal sabe falar seu idioma e falar o dos outros mal e porcamente... daí inglês de rua...
Não que ele falasse mal, o cara tinha fluência, mas não queria dizer 100% aprendizado Murphy rs - nem 50% acho rs
Porque você aprende falar inglês "na rua" com outros estrangeiros que também falam como lords na câmara...
Aí a irmã falava: eXcRusivi e me dizia:

eu prestei o IELTS, na parte de gramática eu não devo ter passado, mas na conversação eu passei! Eu falo inglês de rua, mas falo!

Ela fazia curso de inglês aqui só pra ter visto, mais faltava do que ia na escola, o que interessa é o visto de estudante... por 6 longos anos... (no caso dela).
Fazia numa das famosas escolas da chamada "fábrica de visto"... (já deu pra sacar o nível só pela aluna rs)

Eles juntaram dinheiro e coisas... mandaram por navio 200 kilos de coisas antes de viajarem... e fui com Marciana no aeroporto dar tchau pras figuras...
Levaram mais 4 malas, chegaram atrasados, se eu não tinha falado pra Marciana de ficar na fila, teriam perdido o voo...
Chegaram no guichê: peso extra (isso porque mandaram 200 kilos por navio...).
E vai a correria da irmã da menina ir comprar outra mala no aeroporto e eles abrirem mala pra todo lado, no meio do caminho e pesar na balança que fica perto do guichê da TAM... (o preferido pelos brasileiros).
E daí só se via tênis com perfume dentro, um monte de tranqueira saindo das malas... como até patins...
A menina tão simplória, eu diria, levava na mão um Toblerone enorme que comprou, queria comer dentro do avião... tive que avisar que ela não poderia fazer aquilo... que seria barrada, só se comprasse lá dentro e levasse na sacolinha do freeshop...
Ajudei com as malas e ficava vendo aquele desespero louco, primeiro porque chegaram atrasados, segundo porque não ia dar pra levar tudo...
E não deu: a irmã ficou com algumas coisas por aqui...
A maior parte das coisas que compraram eram futilidades para mostrar pros parentes e amigos no Brasil, como uma câmera digital que você pode fotografar no escuro que sai perfeito e que tira fotos de uma plano maior do que se consiguiria numa câmera normal: não se precisa tirar várias fotos pra pegar um plano todo... ela faz isso...
Babei na câmera, mas... não deixa de ser futilidade...

Conseguiram embarcar... na volta, de metrô, a irmã dessa garota e a prima falavam das casas que lipam aqui. Que fazem as casas de gato e sapato.
Limpam de qualquer jeito porque tem várias casas no mesmo dia (mesmo esquema do dono da van, mas sem escravos, digo, empregados), ou seja, eu tenho 4 casas de 4 horas. 16 horas de trabalho? Claaaaro que não! Eu faço a famosa limpeza "pra inglês ver", almoço na casa (pegam comida da casa ou fazem comida com os alimentos dos donos da casa) e vou pra outra!
Outra palavra bem comum entre as "cleaners" aqui é tapa "ah, eu dou um tapa" é, pra mim, de tapear...

Não que toda faxineira é desonesta, mas uma grande parte sacaneia o patrão na cara dura...

Soube de casos em que se a cleaner ficou cansada e tem tempo sobrando, dorme na cama do dono da casa, ele está trabalhando mesmo...

A maioria das faxineiras têm chave da casa, os donos foram trabalhar e deixam um chave cópia pra cleaner. Ela vai a hora que convir e limpa, do jeito que convir também...
Deixam também o dinheiro de pagamento. Bom para pessoas ilegais, bom para ingleses que querem fugir do "tax" (imposto) de ter um empregado em sua casa e parecer rico pro leão daqui.
Mas não se preocupem! Em breve eu vou contar o outro lado da moeda: de que muitos desses patrões ainda tem empregadas muito legais para a porquice que são as casas deles... não é porquice de falta de limpeza, em alguns casos, falta de higiene mesmo...

29 agosto 2011

Mais acontecimentos, ainda na casa do GG

Durante os dois meses que morei na casa de GG e Pureza, além de morar com um rato, também passei por várias situações.

A primeira foi conhecer a neve, o primeiro dia que caiu neve aqui, dia 30 de novembro do ano passado, ainda me lembro, começou a nevar... estava na rua. Fiquei emocionada, ria como criança, deviam me achar uma boba no meio da rua, mas foi muito, muito legal!
Aquelas bolinhas que não eram gotas de chuvas e caiam forte, todos se protegiam, menos eu, eu queria sentir, ter certeza de que o que via era neve... incrível essa sensação... realmente voltei a ser criança naquele dia, de tão feliz.

Comecei a trabalhar numa escola para filhos de brasileiros, para que eles aprendam português e a cultura do Brasil, sou praticamente um voluntária, mas meus sábados mudaram e conheci pessoas diferentes que tenho amizade hoje.

Também comecei a trabalhar com faxina... infelizmente não  tinha como: meu dinheiro estava acabando, a semana a 85 libras de aluguel pra dividir com um rato e dormir com um carpete imundo que me dava uma alergia louca, não me davam alternativa: tinha que ver o primeiro trabalho que viesse e tinha que ver outro lugar pra morar.

Uma prima da minha mãe, contou para a minha tia que uma mulher que ela conhecia, que tinha uma perua em que vende ovos etc tinha uma filha que morava em Londres e ela alugava quartos.
Minha mãe achou que talvez esse fosse o caminho para eu mudar de casa.

Minha tia passou o contato da mulher e fui eu em Elephant & Castle (parte centro-sul de Londres, impregnada de brasileiros, latinos e caribenhos) é um lugar muito perto do centro. De ônibus você leva uns 15 minutos até o Big Ben, por exemplo.
Só que chegando lá, conforme as indicações da dona, fui achando o lugar extremamente horrível: me vi numa Cohab (desculpa você que mora na Cohab, mas aqui é pior) imunda, caindo aos pedaços, um lugar que não imaginava achar em Londres, pessoas com caras mal encaradas, rua principal entre as cohabs suja porque todos os dias tinha feira ali (aqui, a rua da feira, ou do market, é todo dia feira, menos segunda).
Ia andando e pensando: não pode ser nesse lugar! Prédios iguais, não pareciam velhos, mas muito mal cuidados. A mulher me disse pelo celular que me encontraria no caminho porque o elevador estava quebrado...
Eu pensei seriamente em voltar pra trás... mas não tinha dinheiro pra ficar de luxo e precisava pelos menos ver...
Encontrei a mulher, que nomeei de Marciana, em breve entenderão o porquê, uma mulher bem simpática e que me levou até o prédio certo que eu não acharia.
Entramos por outro prédio, pelo elevador do outro prédio.
Ela se gabava de morar tendo como vista a London Eye, se via quase todos os principais "heritages" de Londres dali: Big Ben, London Eye, Saint Paul...

Daí conheci a casa... cheia de mofos pelos cantos das paredes, meio escura, precisando seriamente de uma reforma e na qual teria que dividir com outra pessoa o quarto...
Até aquele momento, parecia até tranquilo, mas não queria, iria aguentar mais um pouco na casa do GG, o rato iria sumir...
Ela prometeu me ajudar, que logo eu arrumaria um emprego fixo, que ela tinha muitos contatos e dizia porque eu morava tão longe, ali era uma ótima localização!
Realmente, geograficamente, a localização é ótima, as moradias é que não prestam... por conta de seus donos e landlords... eles naõ cuidam como todos fazem: só querem dinheiro no bolso.

Para ir embora, ela me disse pra descer as escadas, que ficaria mais fácil...
Conforme descia as escadas, cinco andares, mal iluminadas e sujas... fui pensando que não queria morar ali de jeito nenhum! Encontrei até um absorvente feminino sujo na escada e sai como louca, corri nas escadas e só pensava: aqui eu não quero morar!!!

Marciana realmente me indicou empregos, falou porque eu não trabalhava nas vans (já contei aqui sobre elas, né?) e achei aquilo o fim da picada, mas ela me passou a indicação de uma mulher que precisava de ajuda apenas por alguns dias na limpeza de casas...

E lá fui eu acordar às 4:30 da manhã num domingo, o domingo em que o rapaz goiano levou peixe pra casa e ouvi aquela conversa que me pareceu muito estranha...
Teria que pegar o trem, era beeem longe onde encontraria a mulher para a limpeza... e teria que estar na estação certa às 7 da manhã.

Cheguei, a encontrei, ela e o marido, do sul do Brasil, me levaram até a primeira casa. Na verdade, não era a casa, só um escritório que ficava bem nos fundos do quintal. Um escritório que ficava cheio de folhas das árvores que caiam e só era limpado uma vez por ano...

Depois fomos limpar a casa de um senhor inglês viúvo e que tinha estado na 2a Guerra. Ele ficava na dele enquanto limpávamos e eu só pensava: cadê a família dele? é Domingo!
Daí ele foi no forno pôr um congelado pra ser o almoço dele... que vida triste, gente!
Só que no final eu entendi: quando íamos embora, ele dava bye-bye pra gente quase nos botando porta pra fora... educação britânica!

A moça me dizia que muita gente gostava de trabalhar com ela e o marido, porque as pessoas diziam que riam muito com eles.
Eu não ri nenhuma vez: só via ela dar altas cortadas nele e ele, quieto...
E ela ainda me dizia: já consegui casar, tá bom, ou seja: casei e pronto, ninguém pode falar o contrário, seja bom ou ruim.
Ele tinha cidadania italiana e ela ganhou de lambuja...

Nesse dia, voltei cedo pra casa, cansada, mas tudo bem...
O problema foram as casas que fiz durante a semana: 7 casas num dia...
E ela sempre me dizia:
Você fica com o banheiro.

E virei uma expert em limpar banheiro... morria de raiva, nem era raiva, era tristeza mesmo... tinha que me sujeitar porque as aulas eram poucos, o dinheiro acabava e o aluguel que eu queria manter era arrasador...

Cheguei em casa depois de sete casas e só quis deitar na cama.
Fiquei lá estirada, tentando descansar, não aguentava mais. Estava extremamente cansada, acabada, moída... e ainda tinha GG e Pureza no seu banho de espuma... e pra eu tomar banho?

Fiquei pensando enquanto estava derrotada na cama: se aquilo era vida, se isso seria só por aquele momento, que precisava fazer algo... pensar... pensar... sofrer... sofrer...

E nada mudou muito na minha vida, ainda comecei a fazer aulas de inglês, minha mãe mandou dinheiro pra que eu fizesse, e parti pras aulas particulares para ver se isso adiantaria meu aprendizado, fiz amizade com a professora e a mãe da professora que me ajudou em muitos momentos.

Tive que pedir dinheiro para o meu pai, para, pelo menos, ter um Natal digno: ir pra Portugal na casa das minhas tias, quando voltei de lá, voltei para morar na Cohab...não teve jeito, foi a única alternativa que me restou naquele momento.