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02 novembro 2011

Vida de gado, vida de cleaner - parte 1 - casas da segunda-feira

Comecei o ano de 2011 sem alunos de português.
A médica monstra sumiu - e eu não queria mais dar aulas mesmo pra ela -, o espanhol deve ter pedido outra professora para a agência, se continuou com as aulas; e o jornalista casado com um brasileiro disse que estava trabalhando muito e não ia continuar.
Sou muito perfeccionista e me cobro demais e acredito que por meu inglês ruim, minhas aulas de português não sairam bem, não só por isso já que os outros dois sabiam bem já o português, mas porque eu não conseguia me concentrar para preparar aulas boas... também porque era minha primeira experiência nessa área e estava mesmo perdida...
Eu não faria aulas comigo de novo naquele momento, sou sincera, precisaria ter melhorado muito e espero que se voltar a dar aulas no Brasil, eu esteja melhor preparada.
Primeiro, eu terei minha casa pra preparar aulas, ambiente com todos os materiais que preciso, principalmente um boa mesa grande pra espalhar as coisas, como gosto de fazer.

A questão é que ainda consegui uma aluna que morava na região de Greenwich (aprendam com os ingreis: "grênich"), mas não pude dar aulas pra ela porque ela só queria na parte do começo da noite e exatamente quando arrumei um emprego de cleaner de escritórios nesse horário...
Só que antes do escritório, mais conhecido como o Império do Fado (logo vocês conhecerão Darthvedrina e seu celular com toque musical do Robie Williams), vou contar a penúria anterior, ser cleaner de casa em Londres, ou diarista que aqui deveria se chamar "horista".

A horista é como o nome diz, trabalha por hora, não há faxineira diarista nas casas daqui. Como tudo gira em torno de se pagar a hora, a diarista não seria diferente e muitas casas pagam por 4 horas num dia ou essas mesmas 4 horas divididas em 2 dias e assim por diante... tudo depende da patroa e da "criná" para organizar os horários.

Como eu acho que contei um pouco aqui na postagem resumão de quando conheci a Marciana e suas amigas cleaners que passavam a perna nos patrões. Agora vou contar como é realmente todo o esquema delas.

Precisava de dinheiro e Marciana teve que operar perto do Natal uma das mãos, a outra também já era operada. Tudo isso graças ao esforço repetitivo de limpar até quatro ou cinco casas por dia na correria. Ela precisava de uma ajudante e me pagava 7 libras a hora, fui, precisava pagar o aluguel.

As casas da segunda-feira era a primeira de um homem, acho que polonês que morava só morava ele e seu rotweiller que veio pra cima de mim. O dono não o amarrava, o cão era bonzinho...
Pegamos uns 4 ônibus pra chegar lá.. era quase na cidade de Kent... sul de Londres.
A casa era um casarão, mas a parte toda de cima ele alugava os quartos. Nosso trabalho era só a casa dele que não tinha heating (em janeiro freezing...) e nas sala de jantar e na de estar não tinha luz também... tudo no escuro, sem aquecimento e os tapetes e carpetes imundos de tanto pelo de cachorro!
Fora os brinquedos do cachorro todos espalhados pela casa, brinquedos não, tinha um monte de garrafa de Lucozade (um refri meio redbull). Calma! São de plástico, mas os pedaços ficavam por toda a casa... fora os pedaços de bola e etc que a pequena criança destruia...
O nome do bichinho?
Jack e eu pus sobrenome, claro: Bauer rs

Tinha que ligar o aspirador na cozinha, imunda (que Marciana diz ter sido ainda mais imunda quando ela chegou e tirou um cascão do chão) e tentar ver se o fio alcançava toda a sala. Até ia... mas no escuro, no inverno, difícil limpar...
Mas como tudo é por hora, Marciana falava pra eu correr porque o tempo era pouco pra limpar aquela casa de cachorro...
Ela foi limpar o quarto do dono que estava inundado de pelo, inclusive na cama porque o cachorro dormia com o seu amigo dono. A casa fedia cachorro...
Tudo era velho e mal cuidado - meses depois o cara resolveu derrubar e começou a fazer a casa tudo de novo - ainda as escadas era preciso passar aspirador... correndo!
Tudo era com carpete... todos os corredores... e aja tomada pra achar ou extensão pra o aspirador...

Marciana é um tipo que tem preconceito de tudo, mas o dinheiro sempre é bem vindo. Ela desconfiava que o dono da casa, por dormi de dia, deveria trabalhar em boate, ela achava que ele deveria ser cafetão. Então, ela falava mal dele e das pessoas nas fotos da casa, tipo, achando que todas as mulheres nas fotos (tirando uma que era óbvio ser a mãe do cara) eram prostitutas.
Estava eu passando aspirador na escada e ele passou.
Daí Marciana veio falar pra mim:

Ele é assim, mas é respeitador! Os homens daqui são respeitadores, fiquei reparando quando ele desceu as escadas e ele não olhou pra trás pra olhar sua bunda!

Que simpático, né? Ela queria dizer: ele é cafetão, mas respeita as que não são suas empregadas à noite!
Achei imbecil o comentário... e mais ainda ela ficar reparando...
Corri como uma louca pra limpar toda aquele carpete... não estava acostumada com o hoover... e eles aqui são pesados e toda casa quer que você use...

Saimos dessa casa e pegamos mais alguns buses para a casa da "porquinha" porque Marciana disse que ouviu o marido da mulher a chamar assim... mas se Marciana não sabia quase nada de inglês... não sei como entendeu... acho que deve ter sido alguma vez que ela levou o filho e ele estava nas escolas daqui, já sabia entendia tudo em inglês. (ele terá sua história contada)

O caso é que era sim uma porca, mas perto da amiga dela (casa da terça-feira) ela era a limpeza em pessoa!
Os ingleses têm uma mania nojenta de usar uma bacia na pia pra lavar a louça, aí fica aquela água já suja pra lavar outras louças... coisas do tempos da guerra... mas é totalmente contraditório porque eu nunca vi tanta gente disperdiçando na vida e depois querem economizar água pra lavar louça... porquice total!
Aí eu joguei toda aquela água nojenta, cheia de gordura e resto de comida fora e fui lavar a louça!
Sim! Eles deixam TUDO pra cleaner limpar! Mesmo que ela só seja paga pra trabalhar por 2 horas...
Daí a correira: só tenho duas horas pra limpar tudo!
E o que dá?
Naquela velha história deeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!

Só pra inglês ver!!!!!

Sim, o que seria uma faxina, é só uma enganação porque não dá pra vc limpar uma casa inteira em 2, 3 horas, mesmo em quatro se deixam até camas pra fazer e jogar lixo fora... além da louça e da roupa pra pôr pra lavar, secar e, o pior, passar!

Lavei a louça, limpei a pia... e aí fui pro maldito hoover...
Como Marciana estava com a mão machucada é claro que eu teria que "hoovar" a casa...

O mais engraçado dessa casa é que ficava na única rua sem asfalto que vi em Londres... até pus foto dela no meu facebook...
Hoje não acho essa casa tão suja... vi piores...

Também tive que passar roupas... foi aí que aprendi a passar camisa social, coisa que nunca tinha feito na vida e Marciana me ensinou com aquela cara: essas moças de hoje em dia não sabem fazer nada!
Melhor não saber, assim se se vive com um cara que usa camisa social fala pra ele ir na tinturaria rs
Mas aprendi... naquelas porque eu não tenho saco pra passar roupa... mas dá pra enganar bem... acho rs

A casa era até bonita, cheia de fotos de lugares exóticos que o casal já tinha visitado e o pai da dona da casa, pela foto, deveria ser uma figuraça, tinha foto dele e da esposa quando eram jovens, nos anos de 1960, ele parecia um dos caras dos Animals... é muito interessante entrar em casas realmente inglesas pra ver a história vivida dentro delas...

E claro que eu não poderia terminar essa postagem sem uma linda observação de Marciana quando me mostrou a foto de casamento do casal: ele de camisa rosa e ela:
Só aqui que homem usa camisa rosa e no casamento e ninguém fala nada!

Já perceberam a figuraça, né?

08 setembro 2011

Mais coisas ainda do final de 2010

Quando trabalhava com o casal do sul, eles trabalhavam quase no esquema de vans, ainda em começo de carreira, mas é o que eles deveriam fazer em breve, pelo menos pretendiam. Tinha várias casas e pra trabalhar em várias no mesmo dia precisa-se de um batalhão.

Porque você ganha pra limpar uma casa em 5 horas, como já contei, e com um monte de gente, faz em 1,2 horas e paga uma miséria pros "assistentes".

Voltando, eles estavam procurando um ajudante pra todos os dias, integral e eu não quis, porque nunca foi esse meu objetivo aqui, por menos que ganhasse e passasse sufoco vendo meu dinheiro ir embora...
Trabalhei judando nos dias que pude e eles conseguiram um outro ajudante, um rapaz de São Paulo, de uma cidade próxima da capital, das várias dormitórios ao redor da big city.
Ele me disse que estava aqui há uns 2 anos, que em São Paulo trabalhava no palácio do governo, como garçom, um dia, encheu o saco, pegou férias e veio tentar a vida aqui...
Não fala praticamente nada de inglês, ilegal, procurava uma documentação ou um casamento fajuto. Eu fiquei beeem quieta...

O nosso grande amigo de trabalho é o famoso Henry, um dos aspiradores de pó mais usados nas casas aqui, ele tem uma carinha simpática:

Só a cara simpática... porque é pesado que a p*rr@! rs

O rapaz me disse que achava esse "hoover" (já até esqueço o nome em português de tanto que falo 'hoover', 'cleaner', 'shower', 'toilet', 'feather', 'mop', 'brush', 'brum', 'kitchen', 'tissue', 'wepping', 'bin', 'cloth'... esse é o vocabulário da "criner" rs), então, o rapaz achava que esse hoover é muito bom e disse que comprou um e mandou de presente pra mãe dele...
Eu fiquei só olhando e pensando: coitada dessa mãe, homem só acha que mulher tem que ganhar mais trabalho, né? aff mais uma vez, fiquei quieta...

A mulher só ouvia no rádio do carro, indo de uma casa pra outra, uma rádio no estilo Antena 1 e virou pra mim e disse: só músicas do NOSSO tempo!
E eu: ãh?????? Bee Gees e outros não são do MEU tempo... quem ela pensa que eu sou?
Mais uma vez, não lembro se falei minha idade pra figura... mas ela é mais velha que eu e tem um filho de 20 anos...
Não que eu não pudesse ser, se tivesse sido precoce... mas daí a ouvir Bee Gees e dizer que é do meu tempo??? Vai a PQP!!!!!

****
Nem tudo foi ruim na casa de GG, lá, finalmente, consegui ir em um Job Centre e tirar meu famoso insurance number e num GP (posto de saúde) e tirar minha carteirinha pra usar...
A carteirinha pra usar o GP do NHS (INSS daqui) eu consegui até mais fácil que da vez que tive alergia na casa da Collorida... depois, não sei se comentei, descobri que não era bicho que tinha me mordido em Portugal e sim, que naquele colchão tinha o famoso bedbug...
Imagine: só chove, faz frio, nunca a casa e o colchão tomam sol... o que acontece? Claro que não ia descobrir isso pela Collorida, por ela, que os bichos me comessem, desde que pagassem o aluguel...

Dessa vez quis marcar um médico porque não aguenta, achava que tinha gripe e era minha alergia ataca à enésima potência, graças ao meu amigo do coração: o heating, ou o aquecimento e o meu carpete fedido de rato e que a Pureza (lembram?) falou que se eu quisesse ela tinha a máquina pra EU lavar o traste...

O que acontecia era o seguinte: minha garganta ardia como fogo, não conseguia falar direito como se tivesse perdido a voz de tanta dor de garganta e nada disso era gripe.
Cansei de tomar chá de pomegranate, ou a famosa romã que todo mundo come aqui e eu só via se tomar chá pra garganta no Brasil. E lá se foi xarope, remédio pra gripe que diziam ser tiro e queda...
Claro que não faziam o mínimo efeito: o problema era a alergia.
O heating também devia ser tão limpo quanto o carpete e ficava bem na cabeceira da minha cama... troquei de lado, comecei a pôr a cabeça pra dormir no lado dos pés. O ruim é que era onde ficava a tv e ficava complicado. Desligava o heating durante à noite, deixava o quarto quente e desligava pra conter o transtorno...
Só depois percebi que a garrafinha de água que deixava no quarto enchia de bolhas, como se estivesse esquentando... não era só esquentando por conta do heating, era porque ela ia secando, como minha garganta, porque esses aquecedores dos infernos, para aquecer, precisam tirar toda a umidade do quarto, inclusive a umidade da pessoa que dorme ali...

****

Nesse mesmo período ia até a casa da Marciana, fiz amizade com ela, porque estava numa fase de quase perguntar a todo mundo: você quer ser meu amigo? eu queria taaaaaanto um amigo...

E é aquela coisa: você só conhece realmente a pessoa quando convive diariamente com ela...

Só que depois de quase 4 meses em Londres e sozinha, já não aguentava mais me sentir sozinha...
Um amigo que mora em Dublin até esteve aqui e me senti a pessoa mais feliz do mundo de ter alguém pra passar uma tarde de sábado batendo papo num Costa (uma cafeteria famosa aqui e mil vezes melhor que o Star-água-bucks). É horrível estar sozinha, tão sozinha...

Foi assim que comecei a engordar... descontava toda a minha tristeza na comida, comia potes de Haagen Dazs  (é barato, ainda mais no inverno), um chocolate delícia com gostinho de laranja... e eu nunca curti esse tipo de coisa, mas esse... nossa:
Ele é assim, todo em gomos, como se fosse laranja e eu comia sem ver assistindo Friends na TV rs
Entre outros quitutes... me enchia...

E aí resolvi ser amiga da Marciana, mas muito em dúvida se ia ou não pra casa dela... tinha que ter outro jeito... (mas não teve).

Um dos fatos mais loucos foi quando fui até a casa de um casal de amigos dela, eles voltariam pro Brasil e a moça trabalhava com casas, e um dessas casas que ela limpava era de uma italiana, como ela soube que eu estudei italiano, passou a casa pra mim, antes de voltar pro Brasil.

Dois jovens de BH que moraram aqui por 3 anos, se mataram de  tanto trabalhar, ela nas casas e ele em restaurante para juntar dinheiro.
Juntaram tanto que a primeira vez que juntaram, pra comprar um terreno na cidade onde moravam, deram pros parentes comprarem, segundo conta a história, compraram de uma imobiliária de mentira que levou o dinheiro deles...
Da segunda vez, não foram bobos, guardaram pra comprar quando voltaram...
Só que ele abriu um negócio e ela comprou seu próprio apartamento, fizeram bem, apesar de ilegais, como sempre...
Ele teve a graça de me mostrar o passaporte e identidade portugueses para comparar com o meu, original, pesado e bem feito. E ficava: nossa, o seu é bem pesado, mais bem feito (dã!).

Daí descobri a nova: inglês de rua...
Ele me disse que falava bem o inglês, mas o de rua, assim como a irmã dessa menina também me falou o mesmo...
Nova definição...
Não, não se trata de gíria, de slang, se trata de brasileiro que mal sabe falar seu idioma e falar o dos outros mal e porcamente... daí inglês de rua...
Não que ele falasse mal, o cara tinha fluência, mas não queria dizer 100% aprendizado Murphy rs - nem 50% acho rs
Porque você aprende falar inglês "na rua" com outros estrangeiros que também falam como lords na câmara...
Aí a irmã falava: eXcRusivi e me dizia:

eu prestei o IELTS, na parte de gramática eu não devo ter passado, mas na conversação eu passei! Eu falo inglês de rua, mas falo!

Ela fazia curso de inglês aqui só pra ter visto, mais faltava do que ia na escola, o que interessa é o visto de estudante... por 6 longos anos... (no caso dela).
Fazia numa das famosas escolas da chamada "fábrica de visto"... (já deu pra sacar o nível só pela aluna rs)

Eles juntaram dinheiro e coisas... mandaram por navio 200 kilos de coisas antes de viajarem... e fui com Marciana no aeroporto dar tchau pras figuras...
Levaram mais 4 malas, chegaram atrasados, se eu não tinha falado pra Marciana de ficar na fila, teriam perdido o voo...
Chegaram no guichê: peso extra (isso porque mandaram 200 kilos por navio...).
E vai a correria da irmã da menina ir comprar outra mala no aeroporto e eles abrirem mala pra todo lado, no meio do caminho e pesar na balança que fica perto do guichê da TAM... (o preferido pelos brasileiros).
E daí só se via tênis com perfume dentro, um monte de tranqueira saindo das malas... como até patins...
A menina tão simplória, eu diria, levava na mão um Toblerone enorme que comprou, queria comer dentro do avião... tive que avisar que ela não poderia fazer aquilo... que seria barrada, só se comprasse lá dentro e levasse na sacolinha do freeshop...
Ajudei com as malas e ficava vendo aquele desespero louco, primeiro porque chegaram atrasados, segundo porque não ia dar pra levar tudo...
E não deu: a irmã ficou com algumas coisas por aqui...
A maior parte das coisas que compraram eram futilidades para mostrar pros parentes e amigos no Brasil, como uma câmera digital que você pode fotografar no escuro que sai perfeito e que tira fotos de uma plano maior do que se consiguiria numa câmera normal: não se precisa tirar várias fotos pra pegar um plano todo... ela faz isso...
Babei na câmera, mas... não deixa de ser futilidade...

Conseguiram embarcar... na volta, de metrô, a irmã dessa garota e a prima falavam das casas que lipam aqui. Que fazem as casas de gato e sapato.
Limpam de qualquer jeito porque tem várias casas no mesmo dia (mesmo esquema do dono da van, mas sem escravos, digo, empregados), ou seja, eu tenho 4 casas de 4 horas. 16 horas de trabalho? Claaaaro que não! Eu faço a famosa limpeza "pra inglês ver", almoço na casa (pegam comida da casa ou fazem comida com os alimentos dos donos da casa) e vou pra outra!
Outra palavra bem comum entre as "cleaners" aqui é tapa "ah, eu dou um tapa" é, pra mim, de tapear...

Não que toda faxineira é desonesta, mas uma grande parte sacaneia o patrão na cara dura...

Soube de casos em que se a cleaner ficou cansada e tem tempo sobrando, dorme na cama do dono da casa, ele está trabalhando mesmo...

A maioria das faxineiras têm chave da casa, os donos foram trabalhar e deixam um chave cópia pra cleaner. Ela vai a hora que convir e limpa, do jeito que convir também...
Deixam também o dinheiro de pagamento. Bom para pessoas ilegais, bom para ingleses que querem fugir do "tax" (imposto) de ter um empregado em sua casa e parecer rico pro leão daqui.
Mas não se preocupem! Em breve eu vou contar o outro lado da moeda: de que muitos desses patrões ainda tem empregadas muito legais para a porquice que são as casas deles... não é porquice de falta de limpeza, em alguns casos, falta de higiene mesmo...

27 julho 2011

O imbróglio mala e encomendas para o Brasil

Durante os meses de junho e de julho estive totalmente ansiosa por uma mala minha que iria mandar para o Brasil...

Tudo começou quando a irmã de um amigo viria para cá no começo de junho e ficou até 03 de julho. Ele me avisou que ela entraria em contato e se eu poderia ajudá-la. É claro que sim! Adoro ser guia! (Os amigos fora de Sampa, que a conheceram um pouquinho comigo, que levantem as mãos agora rs).
Sim, estava contente de ver um rosto conhecido e poder mostrar um pouco de Londres, dos lugares que amo e gostaria MUITO de compartilhar com quem quer que fosse que viesse para cá...
Adoro a cidade, apesar dos pesares, e adoro mostrar os lugares mais diferentes e legais que conheço, compartilhar tudo isso é muito bom.

Voltando, daí pedi para ela se poderia trazer umas roupas de verão pra mim - verão que não apareceu... - e ela disse que a mala dela estava bem vazia, que não teria problema. Meu irmão levou as coisas que minha mãe separou pra ela (inclusive minha meia de compressão porque o negócio de trabalhar como condenada tá f*dendo minhas pernas).
Ela trouxe, a encontrei e perguntei se ela poderia levar de volta uma mala minha, pois estou juntando muita coisa e seria bom ter essa oportunidade para conseguir levar aos poucos as coisas para o Brasil.
Ela me disse que tudo bem, disse para ela que me irmão buscaria as coisas no aeroporto, que eu levaria minha mala no aeroporto com ela e que se fosse coisa demais pagaria o excesso de bagagem e ela sempre dizendo: tudo bem, sem problema.

Liguei para a minha mãe e disse que mandaria uma mala para o Brasil. Como tenho vários parentes fazendo aniversário em julho (2 tias, 1 tio, 1 primo e meu irmão), minha mãe me pediu presentes daqui para todos, depositou até dinheiro na minha conta para isso...
E lá fui eu às compras...

Final do mês de junho, nem sinal da cara de banana (já sacaram o nome dela rs), não me passou o número do telefone que usava aqui, mesmo eu sempre pedindo e ligando para o número dela do Brasil que sempre ia pra caixa postal...
Cansei de ligar e deixar mensagens no Facebook da figura...
Estava preocupada, porque ela queria ir no show do Pulp no Hyde Park, só que a viagem de volta dela era no mesmo dia e não sabia se ela havia mudado a data ou não, se teria que ir de manhã no aeroporto com ela despachar as malas ou não... fora que pensava em ir no sábado, véspera da viagem e do Pulp, pra Kent ver um festival que fecharia, naquele dia, com o Morrissey.
Fiquei nessa de esperar uma resposta... que nunca chegava...
Até que na sexta, dia primeiro de julho, a banana me responde que tinha muita coisa pra levar pro Brasil, que a mala dela já não cabia mais nada e que havia comprado outra, que iria pesar e ver se dava pra pôr algo meu...
Isso na sexta à noite e eu já tinha desencanado do show do Morrissey, com raiva de perder, além dele, Lou Reed, Patti Smith e The Stooges... acabei resolvendo ficar por Londres e fazer outra coisa, já tinha combinado outras coisas porque já tinha perdido o tempo hábil que teria, principalmente porque achava que não conseguiria sair de Kent super tarde e voltar pra Londres no mesmo dia... já acreditava que teria que dormir por lá e como faria se tivesse que ir no aeroporto com a mala?
Além do mais, nem tinha procurado hotel em Kent pra dormir...

Só vi a mensagem da menina no sábado, quando tudo já estava terminado...
Daí respondi para ela que tudo bem, que já tinha perdido mesmo o show do Morrissey esperando uma resposta dela e que não precisava se preocupar com nada...
Daí, a menina só me responde, no domingo, acho que do aeroporto falando:

Cara de Banana 03 de julho às 20:51
ai, fui embora no hives... tive que deixar coisa por aqui, abandonei guias... droga! mas desculpa qq coisa?         

DESCULPA QUALQUER COISA?????


CLARO... eu vim pra Londres para, com toda a certeza, passar pela maior prova de vida que alguém pode ter... pra ser canonizada quando voltar pro Brasil rsrs

Não respondi, melhor do que falar um monte, não? Afinal, o malfeito estava feito...
Estava revoltada e fiquei mais ainda com essa respostinha infantil de uma quase trintona infantiloide que veio estudar aqui um mês e ainda fala que queria ir no show do "pÛlpi" (pior que pupil rs é, eu não perdoo, né? rs)

A preocupação veio: e os presentes que seriam entregues no dia 10 na casa da minha tia no aniversário do meu primo e que todos os outros iriam receber o seu presente também  eestavam todos comigo?

A ideia foi mandar por uma empresa de entrega rápida... minha mãe pagou para eu mandar, já que as coisas chegariam no máximo em 3 dias no Brasil. Fiz a caixa e mandei pela empresa de três letras nas cores linda que combinam tanto: amarelo e vermelho...

Mandei na segunda dia 4 de julho e chegaram no Brasil na quarta, dia 6, e ficaram paradas lá... e nada de entregarem em casa e o aniversário chegando... no sábado, vejo no site de rastreamento que as coisas iriam voltar pra mim e fiquei mais do que surpresa, fiquei sem entender e totalmente nervosa...
Tive que esperar segunda para entender o porquê da volta das coisas... as moças da loja de postagem achavam que tinha sido o perfume (é, a burra aqui colocou na lista "perfume, vinho, cd, dvd, azeite"). Eu achava que não teria problema discriminar nada disso, porque tinha pago imposto e tal na postagem...
Um primo da minha mãe que trabalha em outra empresa dessa disse ao meu tio - é, família toda acionada - que se disseram que iria voltar que não teria mesmo jeito...
Meu irmão ligou para a empresa em Sampa que disse que o problema todo era o vinho, vinho é proibido ser mandado, o azeite também, mas que o azeite ainda passando pela anvisa poderia liberar assinando um termo de responsabilidade...
A empresa aqui pediu se poderia tirar o vinho para fazer a entrega, mas não se poderia mexer no pacote que estava em poder da polícia federal... e que iria voltar mesmo...
A moça da loja me manda um email de que iriam me cobrar a viagem de volta das coisas, aí eu entrei em parafuso e falei pra ela que não queria mais nada de volta... que não aguentava tanto estresse (i couldn't cope all this!) e aí pedi pro meu irmão ligar de volta em Sampa e eles confirmaram que não me cobrariam porque as coisas não deram entrada no Brasil, só se tivessem legalmente entrado eu pagaria... ufa!
As coisas iriam voltar e não teria papo... uma pena não conhecer um corrupto numa hora dessas...
Revolta e mais revolta... e não tinha o que fazer... estressei legal... passei quase dois meses nervosona... nervos a flor da pele, mas não adiantou nada...
Só conseguia culpar uma única pessoa que se não tivesse fugido de mim e tivesse conversado como gente grande teria poupado muito sofrimento meu e da minha família. Afinal, ninguém recebeu os presentes e minha mãe ficou muito chateada e gastou uma grana...
Todo mundo ficou muito chateado...

Uma frase adulta teria mudado tudo isso: Regina, eu não posso levar suas coisas, me desculpe, mas acredito que voltarei com muita coisa para o Brasil.

Não ficaria bonitinho?
Minha mãe não teria pensado nos presentes, eu não teria ido comprá-los, eu teria ido pra Kent e dormido lá e ido pro Pulp sem preocupação e não teria rolado todo o grande estresse da transportadora...

O pacote voltou, chegou segunda agora, dia 25, fui buscar na loja e a moça me disse que se eu quiser mandar sem o vinho, eles cobrariam de mim SÓ (rsrs) metade do preço... e que nunca tiveram problema com o envio de vinho para países como States e outros da Europa...
Não sei se é verdade, mas uma outra menina que conheço, e trabalha em outra transportadora, investigou as coisas para mim e disse que deveriam ter me informado do que pode e o que não pode ser enviado, mas que se eu entrasse com uma queixa, elas poderiam alegar que eu insisti que fosse as coisas fossem enviadas - porque se o cliente insiste no risco eles mandam - e que seria a minha palavras contra a dela...

Bem, esse é todo o imbróglio...
E tudo que só consigo pensar agora é na música do Falcão , porque tudo é culpa de uma grandissima mala...

16 julho 2011

Portuguese Teacher: a médica monstra

Durante o período que morei na região da estação de Dalston Junction, norte de Londres, zona 2,  na casa do Leetle (Doolitle ?) , comecei também a dar aulas de português para estrangeiros.

Tive três alunos nessa época, dois por uma agência de aulas de idiomas.
Todos eram aulas particulares e enquanto a agência ganhava por volta de 34 libras a hora, me pagavam míseras 15 com muito sufoco.

A primeira aluna era uma inglesa, médica, que fazia pesquisas sobre doenças silvestres e iria para moçambique, onde já conhecia algumas pessoas via internet; e pretendia, em um futuro breve, ir ao Brasil para estudo também.
O segundo aluno era um espanhol que parecia um robozinho que só fazia copiar as lições, além de um dia esconder praticamente na minha cara a aliança, mas esqueceu do quadro da noiva...
O terceiro era um inglês, meia-idade, jornalista que vivia com o seu "patner" brasileiro. E falava já bem o inglês, dado o convívio e as visitas ao Brasil.

Bem, começarei pela médica.

Quando fui chamada pela escola de inglês, achei num anúncio no Gumtree, conversei com a dona da agência ou gerente, não sei o que ela era... uma mulher com um sotaque horroroso, que depois de meses vim saber que era sotaque indiano e eu mal entendia a mulher...

Eu dizia a ela: bem, o meu inglês não é tão bom, não sei se poderei dar aulas para turmas básicas e ela só dizia que meu inglês era ótimo - o que eu sei até hoje que não é.

E me passou para ir dar aulas para essa mulher.
Tudo bem, tentei falar com ela que não entendia absolutamente de português, mas tinha como parâmetro o francês, no qual ela era fluente, e o espanhol que o marido estudava e que me atrapalhava...
Sim, começou aí, na primeira aula o marido ficou para ver e me incomodava com palavras em espanhol, parecem o português? Parecem, mas não é português, muito menos o do Brasil.
Aí começou toda a tragédia, perguntei para ela qual o português ela queria: Brasil ou Portugal e ela não sabia (aff!!!) disse que tinha amigos em Moçambique e talvez fosse melhor o português da terra de Camões - só que fui contratada para aulas de português do Brasil - daí, ela pediu para eu conversar por telefone com o amigo moçambicano que disse que a influência dos programas de tv brasileiros era muito grande por lá e todo mundo entende o sotaque brasileiro.
Assim, por responsabilidade do rapaz, a escolha foi o português do Brasil.

Ela foi simpática comigo, o marido não participou mais das aulas - ficou lá só pra não deixar a esposinha sozinha - coitadinha! eu poderia ser um monstro! - e, como bom adEvogado: me julgar.

A partir dessa aula, foram marcadas as datas para as outras, que ela mudava sempre em cima da hora e mudou a maior parte das aulas para o hospital St Mary onde ela trabalhava.

Perdi muito dinheiro com essas mudanças em cima da hora: ela teria que assinar num papel que a aula foi mudada de última hora para que eu ganhasse e para essa mulher assinar?
Caminho que fiz em Rosa

Assinou uma de má vontade e ligou pra indiana maluca que cancelou que eu recebesse o dinheiro, como se eu tivesse agido de má-fé, com meu inglês péssimo, só entendi que não iam me pagar as aulas, com argumentos delas e eu, sem poder me defender, fiquei quieta e aguentei... como pegar um overground de Dalston Juction e quando estava chegando em Richmond, ligando para a mulher dizendo que estava a caminho da casa dela para a aula, ela me diz que não estava em casa e sim no trabalho e que não ia dar pra ter a aula naquele dia...
Voltei no mesmo trem.
Eu ainda teria que descer na estação de Richmond, pegar o metrô, andaria umas 4 estações de metrô e mais uns 15 minutos a pé...

E aconteceram outras vezes... mas eu me acostumei a ligar para confirmar se ela ia estar DISPONÍVEL para as aulas antes de sair de casa ou de um compromisso anterior à aula.

Aos poucos, fui percebendo que as aulas não fluiam, eu estava de saco cheio dela, porque ela sempre se atrasava, sempre desmarcava, NUNCA fazia as lições que pedia para ela fazer...
Ela viajava muito a trabalho, numa dessas, ficou 2 semanas sem aula e voltou toda bronzeada, feliz da vida e nada de ter feito as lições extras que pedi... era difícil dar aulas se eu tinha um inglês minúsculo e se ela era uma aluna relapsa.
No final, cansadíssima e não vendo a hora de terminar aquelas 10 aulas que foram combinadas, ela também já estava de saco cheio, claro, ela deveria achar que a culpa era minha.
Sim, de alguma forma, por não falar bem o inglês a aula não tinha como ser boa, mas eu me esforçava muito e ela, não.
E quando eu ia dar aulas para ela no escritório do hospital ela ficava caçando uma sala para termos aulas e estava preocupada com reuniões que teria ou que já tivera naquele dia... ela não se concentrava e jogava todo o estress em mim.
Além de querer traduzir tudo pelo francês ou usar palavras em espanhol, que com certeza o marido insistia em colocar no vocabulário dela para "ajudá-la" a aprender...

Num desses dias, na casa dela, ela queria saber o que era "temporada" e eu disse que naquele caso era season e ela não acreditou em mim, ela abriu o laptop e foi no google procurar e não achou, porque nem saber procurar o significado de uma palavra, um dicionário on line ela não sabia - ou estava tão estressada com o trabalho que nem isso conseguia fazer.

Fiquei muito, muito, muito chateada porque eu não diria algo que não soubesse e outra: sabendo do meu inglês eu preparava as aulas e procurava todo o vocabulário da aula para fazer o melhor possível. Eu sabia da minha deficiência e tentava driblá-la.
Mas naquele dia, pra mim, não dava mais. As outras aulas ela me tratou como se eu fosse a melhor amiga dela, ela sempre me cumprimentava com beijinho no rosto e como ela havia sido tão rude comigo e parecia tão irritada pensei que ela não faria isso. Tipo, eu me esquivei, dei um oi, mas ela insistiu no cumprimento de beijo para se achar meio brasileira.
Não sei se ela percebeu meu recuo, afinal, não é estranho uma pessoa que te trata mal num dia no outro vir cheia de amor pra dar?
Para mim é estranhíssimo, nunca vi isso no Brasil, só quando a pessoa é extremamente falsa e precisa de algo de você...
Na última aula ela também desmarcou e dei graças a Deus, avisei a indiana maluca - a qual eu sempre pedia pra me mandar emails explicando tudo e não me mandava (era melhor ler do que ouvir o inaudível), e aí a aula também não me foi paga porque a mulher não quis assinar o papel, mas eu, de saco cheio deixei pra lá, não aguentava mais aquilo...
Foi um alívio não dar aulas mais para aquela médica estressada e preguiçosa.

Mas ela me ensinou algo: ela queria saber o que era "aluno" e eu disse "pãpil" e ela não entendia o que eu queria dizer e disse que era como "student" e ela "ah! PIUPOL"  ou seja, toda a minha vida de estudante de inglês no Brasil aprendi errado a pronunciar essa palavra... e confirmei com uma prima minha - acho que já contei isso - que ela também aprendeu a pronunciar pãpil, e ela não estudou nos mesmos lugares que eu...
Ou seja, professor de inglês que nunca estudo fora do Brasil e as escolas vão aceitando só por ter um nível alto só quer dizer: gente que aprendeu errado com outros e que vai se propagando por uma nação inteira de estudantes brasileiros...
A palavra se escreve pupil e nunca mais a esquecerei e o quanto sua pronúncia verdadeira é parecida com people.

27 dezembro 2010

Uma paixão avassaladoramente platônica e duas lições de inglês britânico

Como não poderia ficar muito tempo com Soudemorte e eu nem queria. Estava procurando um lugar para morar nos anúncios por Richmond e Kingston, mas ainda sem saber bem o que fazer: procurar novo lugar pra morar, trabalho ou onde estudar? Tudo um problema porque tudo tem que ficar perto e poder conciliar...
Estava vendo preços de escolas e falei de uma em Kingston com Collorida, falei em inglês para Soudemorte não achar ruim e aí, lá veio ele:
“Você tem que procurar um lugar para morar ou pensa que vai ficar aqui pra sempre, tem que procurar uma escola perto de onde for morar, porque eu já disse, só oito semanas, não mais que isso, você tem que se preocupar com isso!”
Collorida fingiu que não existia na sala nesse momento, parecia que era surda e não falou absolutamente nada. Eu, cansada de levar patadas, engoli o choro e disse: estou procurando, H... Soudemorte. Fique tranquilo.
Sem internet era difícil procurar anúncios, sem amigos que me ajudassem e me dessem alguma ideia do que fazer era mais difícil ainda.
Sobre a internet, depois que comprei meu pc ela sumiu da casa... disseram, acho que já contei, que roubaram os cabos e não havia jeito de arrumarem rápido... fiquei indignada com isso. Mais de um mês sem net e eu sem amigos, sem poder procurar empregos e vagas pela internet ou mesmo mandar c.vs... de lan house a bibliotecas foi minha saga...
Depois disseram que a internet tinha voltado, mas como teste só das 6 às 10 da noite e eu aproveitei o mais que pude esse horário... depois, quando “voltou ao normal” LuigiMárioBros disse que como o serviço era muito ruim, mandou cortar... justamente quando voltou a funcionar direito!
Na casa havia duas redes, a de Collorida e Soudemorte e outra de LMBros, a qual ele me colocou pra não sobrecarregar a outra rede, daÍ ele disse que cancelou a rede dele, mas não me colocou na rede dos outros, eu que não ia pedir... e comecei, seriamente, achar que faziam de propósito, tiraram a internet pra eu não usar. Se queriam que eu pagasse era só falar...
Fiz uma lista de lugares do tipo pensionato para ir visitar, uma lista corrida, impressa da internet na biblioteca. Procurei num guia onde ficavam esses lugares e lá fui eu caçar...  sem um google maps pra me ajudar, tive que seguir o que o guia de um amigo dizia, ou seja, nem sempre o lugar ficava mesmo perto da estação que lá dizia... e, mais uma vez, andei por essa cidade como uma condenada... condenada a morar com Soudemorte por 8 semanas... tudo que eu não queria, queria sair correndo daquela casa, se ele queria que eu fosse embora eu queria vê-lo pelas costas o mais rápido possível! Na verdade, nem pelas costas queria vê-lo! Queria nunca ter conhecido tal assombração.
Os lugares que peguei nessa lista da internet, na maioria, eram albergues e teria que pagar por dia, nenhum tinha uma promoção por semana ou mês. Achei lugares interessantes: prédios em que você só dividiria a cozinha, o restante era seu, mas o preço era salgado para mim.
No meio dessa romaria, achei um anúncio em uma lavanderia por onde passava e fui até o tal endereço, sempre me guiando pelos mapas da região nos pontos de ônibus.
Cheguei até o tal local e o preço parecia bom. Não me abriram a porta para conversar com a pessoa, ou tentar pelo menos me entender, tive que falar por interfone com uma fulana que parecia ter um sotaque latino, muito educada me disse num inglês lindo de morrer:
Se você não sabe quando muda, não podemos conversar. Bye!
E desligou na minha cara... fiquei indignada e joguei todas as pragas possíveis a uma imbecil dessas, mas depois percebi que com essa educação ela não ia conseguir inquilinos muito legais, o que já era uma boa praga que ela mesma estava a se jogar.
Desci do metrô em Hammersmith, passei por várias estações e de tanto andar acabei em Gloucester Road. Havia um endereço que não achava de jeito nenhum... e resolvi perguntar nessa estação de metrô.
Fiquei do lado de fora da catraca e chamei um dos funcionários para me ajudar a dizer onde era tal lugar que eu não achava nos mapinhas da região.
O rapaz estava ajudando um senhor na minha frente a passar pela catraca e aí, quando olho direito para ele, fico simplesmente embasbacada: o cara era totalmente lindo! Lindo, simpático e atencioso!
Ele ajudava o senhor com toda a educação e simpatia e aí chegou minha vez e eu pensava “espero que ele me atenda e não venha outro funcionário... que ele me atenda! Que ele me atenda! Que ele me atenda!!”
E me atendeu... fiquei maravilhada com ele, sim, eu fiquei meio sem saber o que falar, mas eu já não sabia falar mesmo rs Perguntei pra ele onde era a tal rua “mulberry road” no meu sotaque americano do Brasil e ele “mulbéry”? para ele eu estava falando grego e eu olhando fixamente para ele, quase sem entender nada e muito menos prestando atenção e mostrei o papel com o nome do endereço e ele “ah, mãlbry!” e foi procurar num guia de ruas lá dentro pra mim.  Enquanto isso eu estava lá totalmente apaixonada, acho que devo ter babado ali...
Mais um lição do dia: no Brasil você sempre aprende “glastonbiurii” “mulbérii”, “sansbiurii”, mas os ingleses falam “glastonbriii”, “mulbriii” e “sansbriii” (sunsbury é um famoso supermecado aqui).
Ele voltou e me disse que eu teria que pegar (opa! rs) o metrô ali, fazer baldiação não sei onde e ir até a estação de não sei onde, sei lá... eu entendi as estações, mas não prestei atenção... não conseguia... não sei se ele percebeu, ingleses são homens ainda mais desligados que qualquer outro, mas ele lembrava muito o Gerard Butler com sotaque cockney e eu só fascinada ali...
Disse obrigada, toda simpática, ele também foi bem simpático, mas não entrei no metrô, tinha outro lugar por ali para ver e depois passaria por lá.  Na verdade, comecei a passar por aquela estação mesmo sem precisar, todo dia que andava de metrô e nunca mais o vi. Será que ele foi uma fantasia da minha cabeça? Miragem no deserto?
Não, só sei que infelizmente o tal lugar que ia ver ali perto, não era ali perto e andei e fui para em outra estação e extremamente cansada, peguei o metrô ali mesmo.
Nenhum desses lugares deram certo, a maioria era muito caro para mim e fui atrás dos classificados da Leros, ligando pra um e pra outro, visitando casas legais e caras e esperando resposta de pessoas que até hoje não me ligaram, como disseram que iam fazer, para me avisar de um quarto que fosse vagar, porque eu queria um quarto só pra mim e um single em Londres, com preço pequeno é um oásis, ou também uma grande miragem... como saberão em breve...
E a miragem que eu mais gostaria de ter novamente eu nunca mais tive... como me mudei pro outro lado da cidade, nunca mais passei na Gloucester Road Station e nunca mais vi aquele deus bretão.
Mais um lição de inglês: você aprendeu no Brasil GlouCEster  e LeiCEster? Pois é, aqui falam “Glouster” e “Leister”...
O rapaz da Glouster Road Station que procurou pra mim a Mulbriii road (ou street... não lembro).