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26 agosto 2018

O FCE

Como já contei aqui, estudei numa escola de inglês e depois, antes do trabalho ficava num parque pequeno perto da escola (Linconl's Inn Fields), em Horborn. Quando esfriou o tempo, passeando por aquele lugar, achei a Biblioteca da LSE (London School of Economics) e me informei se poderia estudar lá dentro. Sim, consegui fazer a carteirinha para visitante e ia pra lá estudar. Tinha uma mesa que eu sempre usava e também era bom porque tinha acesso à internet nos computadores deles. Não levava o meu porque de lá, ia pro trabalho onde não teria onde guardar o laptop.

Meu estudo consistia em fazer exercícios de gramática do livro famoso do Murphy, o Grammar in Use, nível intermediário e outros dois livros específicos para o FCE. Então eu estudava a gramática, tinha aulas de conversação e escrita e só faltava a parte de listening.

Fiz a maior besteira de deixar a parte de listening por último, para estudar em casa, porque precisaria de fones de ouvido para acompanhar. Esta era minha rotina de todos os dias: aulas na English Studio, almoçava, estudava inglês, ia pro trabalho.

A prova do FCE eu fiz em outra escola, a Kaplan, porque na English Studio não tinha a data que eu queria. Então descobri que a Kaplan fazia o exame em todas as datas que era aplicado.
A Kaplan era tipo a escola que estudaria se tivesse dinheiro rs muito mais cara e com mais recursos.

Era um sábado, de manhã que eu faria a prova. Tudo bem, estava acostumada a acordar relativamente cedo, mas como era uma prova eu quis acordar um pouco mais cedo para não dar nada errado.

Deixei o listening para fazer todinho na véspera, em casa...

Comecei o listening e Anjo? chegou com a filha. Sim, ela tinha uma filha que, pelo que eu entendi, as duas não se falavam há tempos e se encontraram no ônibus e resolveram ir pra casa.
Então, meu teste de audição ficou prejudicado...
Pelo que entendi, a filha de Anjo? estava "indocumentada" em Londres e por isso a briga de mãe e filha...
A filha foi embora e tentei ainda fazer os exercícios de audição, só que eu já contei da insônia de Anjo? Então... ela não dormiu e ficou assistindo TV até umas 2 da manhã sendo que eu acordaria lá pelas 6h para ir fazer o teste às 8h. Não era tão longe, era na Leicester Square, mas eu não queria me atrasar e teria que mudar de linha de metrô, eu morava perto da District Line e precisaria ir até a Picadilly.

Não me lembro, mas imagino que tenha ido até Hammersmith e pegado a Picadilly lá



Cheguei cedo para o teste e ele é todo feito, pelo menos na Kaplan, em computadores. Havia pessoas de outras nacionalidades lá pra fazer. Só não sabia qual era a nacionalidade da menina do meu lado.

Começou o teste, pelo listening...
Duas coisas me prejudicaram: eu ter feito mal feito os exercícios de audição e não ter dormido bem. Estava morta de sono e não conseguia fazer os exercícios direito. Foi tudo no chute.
Falei que tinha tempo pra fazer? Pois é... tem tempo determinado para cada parte da prova.
Quando cheguei na parte de escrita, já estava mais acordada e acredito que tenha ido bem, assim como na parte de gramática.
Como estudei por um livro que imita os exercícios do FCE não foi tão difícil essas partes. Assim como a conversação eu sabia que eu teria que responder a perguntas específicas para os avaliadores.

A parte de conversação era a última.
E a menina ao meu lado viu meu passaporte português e falou comigo, era uma mineira que precisava passar nessa prova para poder continuar com visto de estudante em Londres e assim continuar vivendo em Londres como, claro, faxineira.
Ela me contou que não dormiu bem à noite também, foi para a balada e que deu uma copiada nos meus exercícios de listening... fiquei p*** quando ouvi isso e o pior: a conversação era em duplas e já tinham me colocado com ela. 
Ela disse que faltava muito no curso de inglês que frequentava, mas que sabia que no listening ela teria de descrever coisas - errado, teria que se responder perguntas e falar sobre coisas que fossem pedidas.

Começou o teste, começaram a fazer perguntas que eu respondia, a mineira começou a descrever coisas e me atrapalhar, mas eu tomava a rédea da conversa e continuava - não sei se fui prejudicada por isso...
Sei que sai muito brava da prova e daí uns dias fui viajar. Só soube fora de Londres que tinha passado por pouco na prova...

A lição que tomei foi que nunca deixe pra última hora para estudar algo que é realmente importante e cuidado para não ter um brasileiro no mesmo teste que você. Brasileiros sempre querendo me ferrar!

Quando voltei à Londres fui buscar meu certificado e esqueci de perguntar se a menina tinha passado, lembrei tanto de falar, mas na hora, com o certificado na mão, esqueci tudo!
E esse sufoco foi superado, depois de muito desejar aquele certificado.

16 julho 2017

E você pensou que tinham acabado as casas para limpar? Ledo engano...

Anjo?  me apresentou algumas amigas delas, participei de almoços nas casas delas onde sempre fui bem recebida. Um povo simpático e que estava há mais de 20 anos morando em Londres. Um pessoal que viveu outras situações e lembra da cidade de outra forma.
Lembram de um tempo de como era difícil encontrar outros brasileiros para conversar e ter a de qualquer forma se manter firme sem indicações ou outras coisas. 

Mas a maioria deles não precisavam disso, tinham vindo trabalhar pelo consulado então todo mundo se conhecia daí - tirando alguns em outras situações e que fizeram amizade com elas também. Havia pontos específicos e assim os brasileiros se encontraram e fizeram amizade no final dos anos de 1980 e década de 1990. 

Destas amigas que vieram com Anjo? conheci uma pessoa peculiar, vamos chamá-la de Naughty Woman, depois vocês entenderão.

Naughty apesar dos 20 anos de Londres não conseguia fazer uma frase simples em inglês e assim ela não teve a mesma vantagem que as demais que depois do trabalho no consulado e desejaram ficar em Londres fizeram outras coisas de suas vidas, como Anjo? que é esteticista e fez cursos em inglês. Naughty não teve essa chance e limpava casas. Mas não eram qualquer casas, fazia limpeza de casas de gente com um bom dinheiro, não direi qual religião para não dizerem que sou racista ou coisa assim por dizer são fulanos e são ricos e pão duros... (já entenderam rs)

Anjo? me contou que Naughty tinha construído uma casa no Brasil para a mãe e uma sobrinha tomou conta de tudo. Como Nahghty não foi até lá ver nada, a sobrinha fazia o que quiser.


Quanto às casas que ela limpa, ela também limpava uma escola, no horário que as crianças voltavam para sala depois do recreio e assim vivia. Até que me pediu para ajudá-la com uma casa e lá fui eu limpar mais uma...

Era uma casa enorme, na região 2, no máximo 3 de Londres, casa com jardim e piscina. E limpamos a casa cheia de quartos e uma cozinha enorme. Os donos da casa se aproveitavam da falta de conhecimento de Naughty e pagavam até bem, 10 a hora, mas aproveitavam de toda a questão da limpeza de fazê-la limpar até a casa dos filhos e do vizinho (que foi o que fizemos também).

Os donos falavam com ela e diziam somente: coffee? tea?? porque ela não estabelecia um contato maior. O dono percebeu que eu entendia e resolveu ver até onde eu ia dizendo "Fulana is very very naughty, is not she?" Eu disse que não e fiz uma cara de poucos amigos pra ele. E ela do meu lado querendo saber o que ele dizia e eu respondi pra ela: ele disse que você é danada, safadinha. E ela só "ah" sem saber o que mais dizer.

Deram uma carona pra gente pra ir embora e ela me ofereceu de ir na casa do filho limpar e a partir do meu conhecimento da casa eu poderia ficar com ela, mas se eu não quisesse mais era pra devolver a ela. Claro, ela não queria que fosse uma casa vendida como vocês já bem conhecem como funciona. Eu disse que não ficaria com a casa, porque estava voltando pro Brasil e não adiantaria ficar alguns meses só com a casa e deixei com ela.

Fiquei com bastante dó de Naughty Woman afinal até no médico eram as amigas que marcavam e iam com ela porque ela não conseguia se expressar. Ficava pensando "caramba! como alguém conseguiu viver todo esse tempo aqui sem inglês". Mas não foi difícil porque ela trabalhava na casa de algum cônsul ou embaixador brasilero, depois as amigas a auxiliavam, parece até um pouco de preguiça não ter aprendido absolutamente nada de inglês e hoje ela se diverte tendo a Record e Globo internacionais em casa. Numa casa lá pela zona 4 de Londres onde tem um quarto só pra ela.

Foi uma das pessoas mais peculiares, como já disse, que conheci.

23 abril 2017

A casa da goiana

Anjo? tinha uma amiga goiana que morava fora de Londres, numa cidade que faz divisa com Londres, algo como ir pra Santo André. Ela tinha acabado de fazer um salão de beleza na parte debaixo da casa e continuava morando em cima.

Daí que ela precisava de alguém para limpar a bagunça que estava a casa dela e talvez o salão, mas fiquei só com a casa, onde fui 3 dias e ia ganhar 10 libras a hora.
Até aí tudo bem, ótimo pra mim que precisava de dinheiro, mas só depois descobri se tratar de mais uma goiana enganadora. Vamos do princípio.

Cheguei lá de trem e fui pelo caminho que vi no googlemaps, era só duas estações saindo de Londres, mas como saí de Londres tinha que pagar a diferença ao chegar. 
Já contei que você passa o bilhete na entrada e na saída do trem e do metrô, né? Que é na saída que se calcula o valor da passagem. Acho justo, mas lá não havia local para passar o cartão, tive que procurar e além disso, tudo era aberto, como na estação de Olympia. 
Todo mundo paga, pode ficar tranquilo, todo mundo  tem medo do fiscal da estação... eu não contei como funciona? Sempre passa alguém no trem, no metrô ou no trem pra verificar se você passou seu bilhete ou não, não há escapatória.

Voltando, cheguei na casa dela e ela me deu a sala para limpar. Claro, estava imunda e tive que passar o aspirador de pó em tudo, fora a bagunça das coisas fora do lugar. Me distraí arrumando vendo um canal de TV do tipo VH só com rock britânico, foi fácil trabalhar assim. Ainda mais vendo os vinis que o marido dela tinha, vinis incríveis dos anos de 1980. Fiquei com vontade de surrupiar um ou outro... depois que você começa a pegar coisas, como comecei a pegar no Império do Fado, fica difícil desfazer o hábito, mas fui forte e não cometi esse deslize.

Na hora do almoço nada de almoço, a goiana não tinha o que oferecer, disse que ia se virar por lá mesmo e que não estava com fome. Tive que ir procurar algum lugar com lanche para comer. A cidade, se o centro for perto da estação, não tinha absolutamente nada, mas achei um lugarzinho com lanches para comer, uma espécie de padaria.

Ao voltar, o marido dela, que era químico, estava ao telefone no salão, ele anotava pra ela os números que as pessoas falavam para ligar, ou seja, quem tentava marcar e deixava o número ela não conseguia anotar e pedia para ele que era nativo.
Em dado momento ela reclamou de algo e ele jogou na cara: e o dinheiro disso tudo é de quem?
Ela me olhou e eu desviei o olhar, não queria estar naquele momento ali e acho que isso foi um grande ponto contra mim, pois ela ficou intratável. Começou a cobrar mais meu serviço.

Limpei a sala e um quarto que estavam em petição de miséria de sujeira, limpei a cozinha que tinha uma saída pra outro lado e que tinha também uma espécie de garagem e jardim para limpar. Mas ela veio com um papo de limpar o quarto dela e pior: arrumar as roupas no guarda-roupa.
Me digam se não tem coisa mais íntima do que arrumar roupas em suas gavetas? Pra mim foi o fim da picada... ela queria tudo dobradinho... até roupa de frio que não dobra direito e queria na parte de cima, que eu não chegava, só com cadeira...
Tudo bem, vamos arrumar o quarto e deixar a roupa por último...
Arrumei, arrumei gaveta de calcinhas que tinham algumas de fantasia, tipo oncinha, com cinto e dois revolvinhos presos (sério rs), com outros fru-frus e assim foi.
Arrumei a tal parte de cima com as roupas de frio ruins de dobrar, do meu jeito e ela não gostou. Disse para no outro dia eu continuar (já era o segundo dia).

No último dia lá vou eu limpar de novo a cozinha e voltar pras roupas, tentei arrumar mais uma vez, mas para mim é tão íntimo arrumar roupas na gaveta... afinal, cada um gosta de um jeito e eu não sabia exatamente qual era o jeito dela.
Nas camisetas achei aquela famosa camiseta do Killers "I got a soul but I'm not a soldier" que ficava pequena pra mim (falei que ela era um pau de virar tripa?). Cheguei a experimentar e tirar foto até rs eu não tomo jeito rs

                   Sim, eu também quis levar essa camiseta embora... cheguei a embrulhá-la rsrs


Comentei da camiseta com ela e ela disse que foi num show do Killers com ela, além de ter dançado no palco com o  Ricky Wilson (historinha de goiana, claro que não acreditei) e mais uma vez ela não gostou do jeito como arrumei as roupas na parte de cima do guarda-roupa...

Fui limpar o salão e ela ia vender produtos da Natura, vindos da França, achava que fariam sucesso por lá e pretendia dar uma recepção (não fui convidada) pra marcar a chegada e venda dos produtos e ela pediu para que eu arrumasse os itens tirando eles da caixa e colocando em cima de uma mesa para depois separá-los. Pus os produtos em pé para visualizar melhor os produtos que eram, saber seus nomes e ela chegou na fúria dizendo que assim não teria espaço ali, me pôs de lado e começou a pôr tudo deitado e depois eu segui.
O salão estava começando, a única coisa que funcionava era a cabine de bronzeamento que uma moça chegou para fazer e eu não soube explicar como era - e a goiana veio pra cima reclamando como eu não sabia, e explicou pra moça - parece que era só entrar e colocar uma moeda e sair com a cor do verão... falso...
Nunca tinha visto ou mexido num troço daquele, como eu iria adivinhar?
Não via a hora de acabar tudo naquele dia e ir embora.

Fiquei no telefone e uma mulher ligou querendo fazer depilação do buço, como vi que a goiana estava sem o que fazer, falei pra mulher ir naquele momento mesmo. A mulher foi e a goiana não quis atender e marcou um outro horário e explicou o que era que a mulher queria, porque eu não havia entendido (não entendi mesmo, mas quis ser prestativa...).

A hora de ir embora chegou e a goiana não quis me pagar todas as horas que me devia porque eu não arrumei direito o guarda-roupa e descontou 20 libras do meu trabalho. Fiquei sem o que dizer, já estava tão acostumada às pessoas me pisarem que já nem doía mais e peguei meu dinheiro e fui embora.

Depois Anjo? me contou que moraram as duas juntas, que goiana era ilegal e ia aos pubs procurar um incauto para casar e conseguiu. No Brasil, Goiana deixou os filhos já crescidos com a mãe e foi pra Inglaterra. Um dos filhos resolveu seguir os passos e foi pra Portugal, casou-se com uma portuguesa e estavam morando na Inglaterra também.
Goiana queria que o filho e a nora fossem morar com ela, o marido, inglês não aceitou porque não acha normal alguém adulto, com filho, ainda depender dos pais para morar e parece que estavam mal com isso. 
Só que como sempre eu não tinha nada com isso e virei o saco de pancada. O filho chegou a aparecer lá para falar com a mãe, mas ficaram no salão para que eu não ouvisse a conversa, mas lavasse os copos deles.

E assim mais uma história da minha empatia por goianos.

20 março 2017

mais camelagem com Anjo

Anjo? era esteticista, mas as coisas não iam tão bem para ela, assim como de modo geral na Inglaterra em 2011. Perdeu muitas freguesas e precisou se virar: limpava a casa de duas ou três freguesas e cuidava de uma senhora de idade.

Ela ia cedinho todo dia para a casa dessa senhora para ajudá-la a tomar café e tudo mais, depois a senhora ia para o clube e ficava por lá. Às vezes dormia com ela quando ficava sozinha, fazia companhia.

Duas das casas que ela limpava eu conheci, fui junto limpar, mais uma vez fui faxinar casas, oh vida!

A primeira era Chelsea e quem não ia gostar de ir até Chelsea, perto do parque do bairro que é lindo e ainda tem um templo budista?
O apartamento era de uma mulher separada que tinha um filho. Casa cheia de brinquedos, mas bem mais organizada e limpa que as casas que conheci com Marciana.

A segunda casa sim, é digna de nota: de uma naturalista radical. Não se podia usar produtos de limpeza normais porque afetam o ambiente. E com produtos mais "fracos" era trabalhoso limpar, assim como passar a roupa sem produtos que a deixassem mais fácil, era um tormento, que ficou por conta de Anjo? que já tinha as manhas com aqueles tecidos horríveis e que não ficavam passado nem com reza brava!
O ferro também era de outro tipo, que demorava a esquentar, mas que consumia menos energia elétrica... tudo muito politicamente certo, mas que ajudava a escravizar mais sua faxineira... por um lado o meio ambiente, por outro a vida das pessoas que precisam trabalhar... complicado...
E não pagava lá grandes coisas para Anjo? A dona da casa era cheia de manias, mas também não pagava tão bem pelas manias que tinha. O que seria justo, afinal pessoas fazem parte da nossa biosfera, né não?

Não recebi pagamento, preferi que fosse descontado no meu aluguel o trabalho que fiz, já era uma ajuda na minha limitada vida financeira...

Daí fui trabalhar na casa de uma amiga de Anjo? só que essa é outra história longa... imagina... mais um goiana na minha vida! (arrepios!)

05 março 2017

A nova vida em Olympia

Depois de tanto contar sobre trabalho e outras coisas, finalmente falo um pouco de Anjo?

Anjo? com esse ponto de interrogação porque eu não sei até que ponto foi um anjo na minha vida ou não. Por ter me aceito na casa dela e me tirado de Elephant & Castle e me colocado a 10 minutos de High Street Kensignton é um bom motivo, mas custou um pouco caro... vamos ver na balança...

Ela é esteticista e como eu ia até ela - já contei isso - ela acabou me oferecendo morada. Depois fui percebendo que ela precisava de alguém pra dividir o lugar, não era só por bondade...

Como todo mundo ela tinha defeitos, o primeiro era a insônia... enquanto uma me acordava às 5 da matina, a outra ia dormir às 2h. Ficava até tarde na TV pra pegar no sono. Ela tomava remédios pra dormir e usava até um que grudava na testa, mas não pareciam surtir efeito. Era uma pessoa boa, conversava bastante comigo sobre os problemas do Reino  Unido e na diferença que era para quando ela chegou lá, há 25 anos, para trabalhar com diplomatas.
Pagava 55 a semana, cinco a mais pela eletricidade gasta, nada que me impediria de estar numa casa mais limpa e num bairro melhor.
A insônia de Anjo? atrapalhava um pouco porque eu queria dormir e não conseguia com a TV ligada.
Ela também me levou aos almoços que faziam com outros brasileiros amigos dela de  tempo de embaixada e outros que foram se somando. 
Relembrei o que era comida de verdade rs

Conversávamos sobre o Brasil e na época se falava bem pela economia do país e não ter entrado na crise que assolava a Europa naquele tempo... era fácil conviver com ela, apesar de não ser a pessoa mais arrumadinha no quesito cozinha, e deixava a comida estragar no fogão sem guardar na geladeira, por exemplo, não me sentia mal com ela. Era tranquilo, mas a vontade de ir embora era grande demais!

Anjo? Trabalhava também como cuidadora de uma senhora idosa e limpava casa de algumas clientes porque o dinheiro não estava dando, acabei sendo ajudante dela em pelo menos 2 casas. E assim ia ganhando minha vida.
Fui atrás de cursos de inglês, finalmente, me senti um pouco mais segura para ver isso, o que era desde o começo meu intuito, finalmente ia se realizar morando ali.

Farei postagens específicas sobre a escola e as que fui ver além das casas que trabalhei, entre outras coisas. See ya!

11 fevereiro 2017

I predicted a riot: panic on the street of London

Com todo esse caos ocorrendo nesses dias no Brasil, caos da violência escancarada, tenho que contar a semana de medo que passei em Londres, sim a "riot" que aconteceu em agosto de 2011.

Morava com Anjo? (eu sei, ainda não falei muito dela e esse ponto de interrogação só deixa curiosidade) e trabalhava no mesmo emprego, só mudei de prédio e não tinha tantos portugueses me infernizando, apesar do meu supervisor ser um português, mas até gente boa.

No sábado à noite, 6 de agosto, saí com o pessoal da escola. Fomos, na verdade num Congresso de Cultura Brasileira na Europa, o Focus Brasil, depois da discussão do Congresso houve o coquetel e resolvemos emendar uma balada. Grande balada rs fomos parar à 1 da manhã num McDonalds em Putney. De lá peguei um bus pra casa e fui de boa dormir, não soube de nada, só no dia seguinte, dia 07 que haviam boatos de que um negro tinha sido morto por policiais no norte de Londres.

Até aí parecia uma história estranha para quem não vivia preconceito racial, como eu, "só" de nacionalidade, não consegui imaginar Londres imitando Los Angeles ou qualquer cidade grande e racista norte-americana...

Anjo disse que comentou com a irmã que com o norte de Londres as coisas iriam descambar, que lá as coisas eram mais complicadas, havia uma ferida aberta.

Se vocês lembram, morei no norte de Londres por alguns meses, na casa do GG, e percebi que a população era de maioria negra, mas até aí, para mim, não havia nenhum problema, nunca fui uma pessoa de enxergar cor nas pessoas, sempre convivi sem preconceito racial com as pessoas...

Fui para o show do Morrissey naquele domingo, em que Moz chamou o primeiro ministro James Cameron de "camel" e seus fãs riram. Ele comentava justamente sobre a "riot" no norte de Londres.

Voltei pra casa e a coisa estava maior, estava brigando nas ruas, queimando lojas e prédios e uma surpresa nervosa me tocou. Como era possível aquilo numa cidade como Londres? Tão cheia de imigrantes, gente de todas as partes do mundo e que pareciam viver tão bem...

Fui trabalhar na segunda e foi tudo tranquilo, quer dizer, todo mundo foi trabalhar com medo e nos dispensaram mais cedo. Fui pra casa de metrô, estava com medo de pegar ônibus, estavam atacando ônibus e os boatos só deixavam a gente com mais medo.

Na terça avisaram para não irmos trabalhar, nem na quarta ninguém foi. Meus pais perguntavam com medo no telefone o que estava acontecendo e se eu morava ou trabalhava perto.
Não, eu não estava perto de tudo aquilo, mas foi se espalhando pela cidade. Daqui a pouco botaram fogo no centro comercial de Clapham Junction, sul da cidade e onde eu trabalhava às sextas-feiras na casa da Puffy Shirt e estava preocupada.

Ficava em casa, não ia estudar no parque como sempre fazia e ver a TV era ser torturada, ficava com mais medo... eu já tinha me desacostumado a ver as desgraças via TV. As notícias policiais eram muito pequenas na TV londrina, o que mais eu via de violento era a guerra na Síria, que infelizmente dura até hoje...

Na sexta as coisas se normalizaram, o pessoal que aumentou toda a confusão, estavam sendo caçados pela polícia britânica. Quando cheguei em Clapham Junction havia um telão mostrando as fotos dos arruaceiros, fotos pegas pelas câmeras de segurança da cidade. Muita gente denunciava, inclusive pais de pessoas, vejam só, refugiadas políticas que moravam lá... outra mãe que denunciou o filho, ele ia para as Olimpíadas e ela pedia para que ele não fosse depois da vergonha que lhe causou.

Via as lojas fechadas e marcadas pelo fogo em Clapham, fiquei triste pela loja de fantasias que sempre eu passava e ficava olhando algumas engraçadas, mas fiquei triste por toda a cidade e vi que um país civilizado também pode perder o controle quando não cuida bem de questões que ficam sendo sufocadas. É assim que vejo essa parte "norte" de Londres: era uma panela de pressão pronta a estourar.

Vou fazer um post sobre as diferenças que vi entre os estrangeiros, não para criticar países e povos, nem vou citar quais sejam, mas para mostrar que as diferenças, às vezes, não conseguem ser respeitadas do melhor modo por cada cultura não ser só diferente, mas muitas vezes impregnada de conceitos e morais não tão boas, como cansei de falar dos brasileiros...

Eu passei a semana cantarolando a música do Kaiser Chiefs "I predict a riot" e lembrando do verso dos Smiths "panic on the street of London..." rs

30 outubro 2016

Anjo?

Finalmente, em julho de 2011, eu consegui sair da casa da Marciana!!!!

Ia, quando tinha dinheiro sobrando, a uma esteticista que me foi indicada pela Ad, amiga da Collorida, essa mulher fazia depilação e eu precisava muito, algumas vezes, porque a Floresta Amazônica tomava conta das minhas pernas e não dava pra viver além de tudo, peluda, né? Só o que me faltava...

Depilação na Inglaterra não existe em que a virilha pode ser dividida em cavada ou não cavada ou é beeeeeeem cavada ou Brazilian Bikini (lindo, né?) ou você deixa um fio ou deixa nada... ainda estou falando de virilha, mas parece que ela não existe nesse tipo de depilação...
E Anjo foi indicada porque talvez me desse um desconto, não no dinheiro, mas de não precisar radicalizar na "virilha"...
Sempre que ia na casa dela, conversava bastante, ela era (é) uma pessoa que vive em Londres há quase 30 anos. Veio com diplomatas pelo consulado brasileiro no Rio de Janeiro para trabalhar na casa deles e tinha muitas amigas que chegaram na mesma situação e ficaram, não quiseram voltar ao Brasil, preferiram a vida na Europa, também para ajudar a família no Brasil. Ela tinha muitas freguesas não só brasileiras, mas inglesas, sul-africanas, australianas e conseguia se comunicar bem com elas; não fazia só depilação, era uma esteticista completa: com limpeza de pele e massoterapia.
Conversava bastante e num dos meus papos com ela, ela conhecia NaLgini, lembram dela? A cobra? Afinal, Nalgini estava há uns bons 18 anos em Londres e nessa época que chegou havia poucos brasileiros que se encontravam em comunidade, um desses lugares era a Igreja Católica que elas participavam.
 Anjo me contou que NaLgini ficou internada num hospital psiquiátrico em Hammersmith (!!!!) e percebi que realmente a culpa do imbróglio todo não era mesmo minha na casa da Collorida...

Um desses dias que fui e falava da minha vida triste para Anjo ela me disse: por que você não vem morar aqui? Quanto você paga lá por semana? E eu disse que eram 50 libras, e ela me disse que faria por 55 por causa do gás do heater... um alívio percorreu pelo meu corpo, quase chorei! E descobri um anjo na minha vida!
Primeiro quis saber onde dormiria e ela me mostrou que tinha no quarto dela (que também era o salão de estética) uma caminha baixinha debaixo da dela, para quando alguém precisasse dormir lá. Nada demais, melhor do que o colchão estragado da Marciana, era cama de espuma!!!

Era em Olympia, perto da High Street Kensington, o preço era bom para o lugar onde moraria, dois pontos de ônibus da estação de Hammersmith e do Apollo Hammersmith, onde vi a Adele.
Eu ia pegar ou o metrô até HighStreet Kensington e um bus pra casa do trabalho ou dois buses, era só o que atrapalhava ou pegar o metrô até Olympia que era uma linha meio desabitada, não sei por que a linha de Richmond deixava apenas de meia em meia hora passar um trem até Olympia então ficava inviável, mas eu tentei algumas vezes quando só ia na depilação... e chegava atrasada no trabalho...


Vejam no mapa: é um braço da linha e muitas vezes não ia, quando fui embora, parece que fechariam essa parte do metrô e ficaria só a do trem, que é a linha com duas faixas laranjas que passam lá. Marquei também que trabalhava na estação St Jame's Park para verem como seria facinho de metrô, mas eu preferia pegar o bus pra pagar menos, ia até próximo da Notting Hill Gate e lá pegava outro bus.

Então, assim, me senti liberta de Marciana e sua corja! Estava tão feliz e aliviada de que poderia me mudar e não aguentaria mais aquilo! Numa casa pequena, mas aconchegante, bem mais limpa! E com geladeira, micro-ondas bem mais novos e sem medo de dizerem que eu entupi com meu cabelo ruim (sqn) a banheira! Não tinha banheira! Era só chuveiro num banheiro pequenininho!! Mas muito mais com cara de limpo do que o velho da Marciana!

Cheguei na casa da Marciana para avisar que ia me mudar e havia chegado mais um colchão box, estava no quarto dela e ela disse que ia pôr pra ela, neste mesmo momento falei que sairia da casa. Ela se espantou, achou que eu era a trouxa que aguentaria sempre tudo calada. E falou que tudo bem, que se eu ia ficar até sábado que era meu dia de pagamento, aí eu não precisaria pagar, era só levar as coisas. Quando avisei Marciana, eu já tinha levado muita coisa embora, para não ter que levar tudo de uma vez num único dia, como elas trabalhavam o dia todo, tive meu tempo para ir sumindo aos poucos com minhas coisas.
Até hoje a Marciana reclama que saí da casa dela, falou pra mãe dela aqui no Brasil que não esperava isso de mim, que me ajudou tanto. Disse isso para a prima da minha mãe, que foi quem arrumou o contato da Marciana. Uma tia minha que me contou, se um dia tiver a oportunidade de conversar com essa prima da minha mãe, contarei a ela o que passei na casa e que nada tive como favor, tudo eu paguei, saí sem dever nada a ela e ela sim a me dever respeito por me tratar tão mal por ser documentada. Por achar que eu trabalhava pouco e que deveria trabalhar como ela, mula de carga pra sustentar filho mimado no Brasil. Não, ela não fez nada demais por mim, eu que fiz por ela: fui uma inquilina fiel e que não trazia problemas, nem quando ela me cobrava adiantado o aluguel.

Ela ficou mais assustada ainda quando viu que eu já tinha levado praticamente tudo embora. Depois a Santa e a Bruxa vieram falar pra mim (porque voltei um outro dia lá para ver se tinha cartas pra mim) que Marciana queria saber porque eu fui embora e elas disseram que foi por causa do colchão, pelo menos foi o que me contaram. E que ela ficou pensativa e perguntou o que mais de errado tinha na casa rs aí elas falaram da banheira, da toalha da mesinha da cozinha que nunca foi trocada etc etc e ela trocou a toalha e pôs até tapetinho no banheiro! Isso eu vi quando fui lá.
Acho que foi até no show do Morrissey... passei lá antes, era no Brixton Academy, "aquele lugar de pretos!" como diria Marciana... loira dinamarquesa, diria Caco Antibes...

Meu último contato com Marciana foi por mensagem de celular, quis dar um troco bem dado a ela, antes de voltar ao Brasil, mandei mensagem perguntando se tinha aparecido mais alguma carta em meu nome na casa dela. E ela disse que tinha mudado de lá (ela disse que mudaria para um lugar menor quando a filha viesse no final do ano) e as meninas (Santa e Bruxa) também tinham mudado. Eu disse que só queria saber porque estava indo embora pro Brasil e só estava esperando me entregarem meu certificado de inglês. rsrsrs ela disse que era legal eu ter conseguido e tal - não com a ajuda dela que achava que eu passava todo meu tempo brincando na internet e não estudando...
E assim fui para a minha quinta casa em menos de um ano de Londres...
Feliz por não ouvir mais Marciana dizer "o tempo avoa!" e "vou depositar dinheiro na óquisfórdí".