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05 fevereiro 2017

Eu, Daniel Blake: a pura realidade e os benefícios ingleses

Vi hoje a "I, Daniel Blake" e muita coisa do sistema inglês me fez rememorar coisas que aconteceram comigo.
Vocês devem se lembrar da questão "insurance number" e conta bancária, se não lembram, o link está aí.
Tudo me lembrou muito o que passei para conseguir ser uma cidadã, imigrante, mas uma pessoa, não um número ou seja lá como nos veem. Imagina quando você é um cidadão inglês de direito... você está dentro dos seus direitos e só recebe deveres, deveres irracionais, perguntas imbecis, desconfiança.

A verdade é que o sistema inglês é muito defensivo, como você vê no filme. Você tem sempre que provar tudo e mais um pouco. Eu me lembro como fiquei desanimada, frustrada para conseguir o insurance e não conseguir quem me ajudasse.
No filme a moça, Katie, diz que as pessoas em New Castle são muito mais gentis do que em Londres, realmente... eu só fui perceber isso quando fui para Irlanda e Escócia, mas isso é outra história, para outro dia, o que quero falar sobre isso é exatamente essa falta de gentileza das pessoas: isso mata aos poucos... quando você é honesto (meu caso e de mr. Blake) e estão desconfiando de você enquanto ilegais conseguem tudo por outros meios, mas conseguem.

Não vivi esse período em que as pessoas estão perdendo suas casas do governo como acontece com Katie. Explico:

Há uma lei inglesa que diz que se você é uma moça solteira e tem filho, você  tem direito a uma casa do governo. Não quer dizer que você não pague essa casa, paga. Menos que um aluguel normal, mas se paga. Acredito que no filme Katie esteja dentro dessa lei de benefício.
Quando estava para voltar ao Brasil, havia estourado a questão da máfia das casas alugadas (aquela questão que a pessoa consegue do governo e subaluga ao preço que quiser e quem aluga pode "subsubalugar" os quartos). Essa máfia estava sendo descoberta e parece que a coisa iria feder para os beneficiários (pelo menos espero que para os safados).

Os benefícios ingleses dão casas de aluguel por esse preço menor aos mais pobres, e cidadãos europeus da comunidade europeia e cidadãos europeus que não nasceram na Europa, mas estão há mais de 3 anos na Europa.
Se eu tivesse ficado, poderia ter tentando conseguir um studio flat, o que estaria de muito bom tamanho para mim, mas hoje essa lei deve cair, já que a Inglaterra pediu saída da comunidade europeia.
Dão benefício a você ter um salário que complemente o seu salário se não chega a 100 libras por semana.
Dão benefício se você é sem teto e pode morar num hotel custeado pelo governo e que se paga também um pouquinho ou é totalmente bancado pelo governo. Deve ter sido desse albergue que Katie também fala que morou.

Vejam que há muitos benefícios interessantes para proteger a população britânica, o problema é que o cerco se fecha para se conseguir esses benefícios.

No filme você vê o quanto é burra a burocracia e quanto os personagens sofrem para conseguir o mínimo de dignidade através dos agentes governamentais que fazem pouco caso e são extremamente frios e impacientes.
Isso eu sentia muito, porque não adianta você ter um motivo, tentar conversar, eles não ouvem mesmo. Não é como no Brasil que você conta uma história triste e amolece o pessoal, não, eles não amolecem! E eu sentia muita falta desse "amolecimento" brasileiro, porque é duro você tentar expor suas dificuldades e a outra pessoa só dizer: fuck off! Era praticamente isso e o filme mostra bem.

Teve um perrengue que passei quase antes de vir embora, eu ia contar no momento que chegasse na minha narrativa, mas o filme me faz contar agora.

Trabalhava no outro prédio que não o Império do Fado, como contei da última vez, comecei a trabalhar com alguns portugueses, colombianos e ucranianas. 
Um dos gerentes da empresa ainda era aquele português que deu sinal para o outro quando coloquei na minha ficha que havia tido depressão - deu sinal querendo dizer "melhor não contratar".
Ele não devia mais se lembrar disso e foi com a minha cara, talvez do mesmo jeito que o amigo que era noivo, lembram?
Se não lembram, o amigo que me deu o emprego parecia ter se interessado por mim, sempre era legal comigo até o dia que o vi com a noiva - de aliança e tudo - no metrô e fingiu não me conhecer rs


Voltando, o cara perguntou se eu queria trabalhar umas horas a mais por duas semanas, cobriria as férias de uma menina num prédio encostado na Victoria Station, o que daria uns dois pontos de ônibus de onde eu trabalhava e daria pra emendar: iria trabalhar das 8 às 17 e entraria no meu trabalho às 18, como sempre. Daria pra ir caminhando fácil. Aceitei! Era tudo que eu precisava para ganhar mais um pouco e juntar dinheiro para a famosa viagem pela Europa que queria fazer, eu não poderia perder essa de jeito nenhum!

Depois conto como foi o trabalho, que era com aquele maravilhoso carrinho de limpeza, limpando o dia todo os banheiros e copas de uns 4 andares que cada um tinha duas alas.

Quando, toda feliz, fui receber esse dinheiro no meu pagamento o que aconteceu?
Não é possível como acontecia tanta desgraça comigo, né?

O dinheiro foi comido pelo leão britânico... sim... eu mal ganhava para mim quanto mais para pagar quase tudo em imposto de renda.
Fiquei sem chão. 
O QUE ACONTECEU COM O MEU DINHEIRO QUE TRABALHEI TANTO PRA GANHAR? E MINHA VIAGEM???
Tive que conversar com todo mundo no trabalho para me dizerem que foi algum erro em algum dos formulários onde trabalhei, que era preciso eu ir em todos os lugares onde estava em aberto o formulário de trabalho para ver em qual estava errado...
Não descobri qual estava errado... talvez a de limpeza das mudanças, onde fui e pedi minha ficha, formulário... whatever! dei baixa para não ser cobrada por isso...
Enquanto eu deveria estar num tipo de desconto, ou seja, zero, estava numa numeração em que tinha que pagar o imposto.

Foi simplesmente um inferno!
Fui a vários lugares que me mandaram para resolver isso, ia de um lado pro outro, ia na sede da antiga empresa do Império do Fado, fui na sede da empresa atual... ninguém resolvia, muito menos o local do governo responsável por isso...
Eu só queria saber onde estava meu dinheiro que suei tanto e sofri tanto para conseguir e nada...

Anjo?, a mulher que morei por último, era autônoma e tinha um contador, me levou até ele para resolver o caso.
Consegui receber uma parte ainda lá, mas só quando estava no Brasil, depois de meses é que recebi o restante, descontado impostos e taxas por ser enviado para outro lugar o que deu uns 100 reais... não mais que isso...

Sei bem o que Daniel Blake sentiu, sei bem o que é ser honesto e não ter razão num país extremamente fechado para o diálogo e que não percebe o quanto é imbecil sua burocracia. Sei o que é passar muita raiva e sofrer só mais um pouquinho para ter certeza que Londres não era meu lugar.

09 outubro 2011

Mês de Janeiro, Londres, Zona Centro Sul (Parafrasendo os Racionais)

Pessoal da feira: Vamô chegando!
Já diriam os Racionais... mais um pouquinho...

Sim, é verdade... eu morava numa Cohab e sim, tinha um feira na rua do lado, a East Street onde, curiosamente nasceu Charles Chaplin. E esse mesmo lugar se tornou um rua com uma feira numa parte e várias "cohabs" por sua extensão até a outra ponta, que era melhor do que a ponta onde eu morava, caminho para Canberwell Green.

Ah! Toda feira, ou market em rua é assim aqui: a rua todo dia é tomada pelos feirantes, só segunda a rua é livre... bonito, né? uma maravilha morar em rua de feira, ainda mais aqui, 6 dias por semana...

Final de dezembro, como eu havia contado, fui morar há dois pontos de ônibus da estação de Elephant & Castle. Uma região boa por ser muito perto do centro de Londres, em 10 minutos de ônibus você está no Big Ben e mais um pouco na Trafalgar Square. A localização é excelente, mas o lugar onde morava, horrível!
Não é que eu tenha preconceito da Cohab, morava no meio de várias em Sampa, a questão é que o negócio por lá era realmente feio e eu contarei porquê, calma!

Fui morar lá por não ter mais nenhuma aula particular pra me sustentar, estava realmente com a corda no pescoço quando perguntei para a Marciana se as outras meninas do quarto que ela tinha me oferecido e eu não quis - relembre as postagens... - aceitariam uma terceira no quarto.
De 65, elas e eu, pagaríamos 50 libras, seria bom pra todas.

Quando não aceitei, veio uma outra menina para o quarto, a qual pertencia a mesma igreja de Marciana, mas mudou-se porque o emprego dela era na zona norte de Londres, ficava longe...
Mas eu acredito que era porque ela não estava aceitando bem ou o controle de Marciana ou ficou de saco cheio da roommate, que agora vocês irão conhecer: a Bruxa do Centro-Oeste!!!!

Uma observação sobre essa garota: era uma ignorante imbecil!
Sim!
Ela tinha vindo com visto de turista pra cá (novidade!!!) para trabalhar de babá para uma prima que era casada com um cara de dinheiro (morava na região de Maida Vale, St John's Wood, algo como morar em Moema ou Itaim Bibi em Sampa) e precisava de uma babá, chamou a prima que virou escrava. E isso é muuuuito comum aqui: ela  ficava com a criança todas as horas do dia e da noite e ganhava uma miséria, porque morava com a "família" e estudar, não conseguia porque tinha uma criança pra cuidar.
A menina resolveu pedir ajuda para o pessoal da igreja que arrumou a casa da marciana e estava vendo um novo emprego pra ela.
Região em questão  é onde fica duas ruasfamosas no mundo da música: Warwick Avenue e Abbey Road.
Quando a imbecil me disse que morava perto da Abbey Road eu fiquei surpresa e falei de ser a rua dos... e ela já me cortou e disse:

É aquela rua mesmo que aqueles imbecis ficam tirando foto na rua e pichando o muro, bando de babacas! Nem sabem que ficam lá tirando foto (sic) e depois pintam aquele muro toda a semana! Bando de gente idiota! O que escreveram já era!

Quando passávamos pela rua e aparecia alguém vestido de algum jeito mais diferente ou as inglesas andando de bicicleta de saia (sim, elas fazem isso) ela ficava: olha que ridículo!
E eu só pensando: e você com esse seu cabelo destruído que nunca corta, com cara de ter mais de 40 e é mais nova que eu, com roupa de velha, parece o que, hein?
Daí ela estava preocupada porque precisava do dinheiro pra residência e o Insurance Number (lembram dele?) e que iria custar 100 libras...
E eu, muito da ingênua perguntei (e eu acho que já citei essa situação por aqui):
Tudo isso? Mas por quê?
E ela: é falso!
Mais um ilegal nessa Londres... e quem era mesmo o imbecil?
E aí ela falou que precisava fumar, disse pra eu não contar pra Marciana, mas era a única coisa que ela ainda não tinha conseguido se livrar e que o povo da igreja não poderia saber.
É claro que disse que não falaria e não falei, não era problema meu. Mas aí a ingênua era ela se achava que não Marciana não ia perceber o cheiro de cigarro... qualquer um que não fuma sente fácil o cheiro...

Eu conheci essa garota, Marciana me apresentou a ela para procurarmos emprego juntas, daí os diálogos acima. Fomos procurar um pub de brasileiros e poloneses em Victoria Station, centrão londrino, algo como trabalhar na região da Sé e República em Sampa.
Na casa, além de Marciana, a Landlady, essa garota e a Bruxa, também havia um terceiro quarto de um casal polonês. O polonês em questão falou sobre esse emprego para Marciana que nos avisou, as indicações do emprego?
Facílimas!
O pub - ou 'pumb' como diria Marciana, sim, ela dizia e deve dizer se ninguém a corrigiu "pâmbi" - ficava na saída da estação de Victoria, perto de um mercado Sansbury's e da Orange (mobiles).
Muuuuuito fácil!
Qual saída da estação de Victoria? Deve ter pelo menos 4, qual Sansbury's ? Havia 2 e não achamos nenhuma loja da Orange nesse lugar... andamos como camelas pela região e nada de pub de brasileiros e poloneses...
Nada!
Para depois a Marciana dizer que o pub era "orange" e não perto de uma Orange, e disse com uma cara de desconfiada, achando que não achamos porque não quisemos... uma das maiores irritações do tempo que morei com Marciana era isso: sempre, mas SEMPRE ela desconfiava da gente...

Bem, a menina foi, e veio outra, a Roommate do Bem, como comecei a chamá-la quando falei dela no Twitter, até pensei em ser Rutinha, porque a outra era a Raquel...

Com a Room do Bem e a Bruxa do 21 (nosso flat) eu fui dividir minha vida.
Marciana era de Marte, mas não era boba: o quarto dela, era só dela.

Então era assim começou meu ano de 2011 em Londres: um apErtamento caindo aos pedaços literalmente (em breve fotos, vão se preparando psicologicamente...), 3 quartos com: 1 marciana, 3 estranhas e 1 casal polonês; uma cozinha minúsculas com janelas que não abriam, só a parte de cima e a fumaça da comida impregnava por todos os (in)comôdos e nos casacos de quem deixava no lugar perto da porta, um banheiro só com o "toilet' e outro com  pia e a maldita banheira (é costume aqui nas casas divididas por muitos a privada ser separada da banheira, para não haver muitos problemas, só o problema de não ter pia e a pessoa sair do vaso e ir lavar a mão na pia da cozinha... claro, quando lava a mão ou quando resolve escovar os dentes na pia da cozinha). Ah, nos banheiros também só se abria as janelinhas finais e muitas vezes, Marciana e Bruxa sentiam frio e fechavam até a janelinha única do toilet, o que eu acho uma grande ignorância, afinal, banheiro tem que ficar com janela aberta até quando o inverno está tenebroso, porque... nem preciso dizer... ou preciso?

Os apelidos logo vocês entenderão...

27 julho 2011

O imbróglio mala e encomendas para o Brasil

Durante os meses de junho e de julho estive totalmente ansiosa por uma mala minha que iria mandar para o Brasil...

Tudo começou quando a irmã de um amigo viria para cá no começo de junho e ficou até 03 de julho. Ele me avisou que ela entraria em contato e se eu poderia ajudá-la. É claro que sim! Adoro ser guia! (Os amigos fora de Sampa, que a conheceram um pouquinho comigo, que levantem as mãos agora rs).
Sim, estava contente de ver um rosto conhecido e poder mostrar um pouco de Londres, dos lugares que amo e gostaria MUITO de compartilhar com quem quer que fosse que viesse para cá...
Adoro a cidade, apesar dos pesares, e adoro mostrar os lugares mais diferentes e legais que conheço, compartilhar tudo isso é muito bom.

Voltando, daí pedi para ela se poderia trazer umas roupas de verão pra mim - verão que não apareceu... - e ela disse que a mala dela estava bem vazia, que não teria problema. Meu irmão levou as coisas que minha mãe separou pra ela (inclusive minha meia de compressão porque o negócio de trabalhar como condenada tá f*dendo minhas pernas).
Ela trouxe, a encontrei e perguntei se ela poderia levar de volta uma mala minha, pois estou juntando muita coisa e seria bom ter essa oportunidade para conseguir levar aos poucos as coisas para o Brasil.
Ela me disse que tudo bem, disse para ela que me irmão buscaria as coisas no aeroporto, que eu levaria minha mala no aeroporto com ela e que se fosse coisa demais pagaria o excesso de bagagem e ela sempre dizendo: tudo bem, sem problema.

Liguei para a minha mãe e disse que mandaria uma mala para o Brasil. Como tenho vários parentes fazendo aniversário em julho (2 tias, 1 tio, 1 primo e meu irmão), minha mãe me pediu presentes daqui para todos, depositou até dinheiro na minha conta para isso...
E lá fui eu às compras...

Final do mês de junho, nem sinal da cara de banana (já sacaram o nome dela rs), não me passou o número do telefone que usava aqui, mesmo eu sempre pedindo e ligando para o número dela do Brasil que sempre ia pra caixa postal...
Cansei de ligar e deixar mensagens no Facebook da figura...
Estava preocupada, porque ela queria ir no show do Pulp no Hyde Park, só que a viagem de volta dela era no mesmo dia e não sabia se ela havia mudado a data ou não, se teria que ir de manhã no aeroporto com ela despachar as malas ou não... fora que pensava em ir no sábado, véspera da viagem e do Pulp, pra Kent ver um festival que fecharia, naquele dia, com o Morrissey.
Fiquei nessa de esperar uma resposta... que nunca chegava...
Até que na sexta, dia primeiro de julho, a banana me responde que tinha muita coisa pra levar pro Brasil, que a mala dela já não cabia mais nada e que havia comprado outra, que iria pesar e ver se dava pra pôr algo meu...
Isso na sexta à noite e eu já tinha desencanado do show do Morrissey, com raiva de perder, além dele, Lou Reed, Patti Smith e The Stooges... acabei resolvendo ficar por Londres e fazer outra coisa, já tinha combinado outras coisas porque já tinha perdido o tempo hábil que teria, principalmente porque achava que não conseguiria sair de Kent super tarde e voltar pra Londres no mesmo dia... já acreditava que teria que dormir por lá e como faria se tivesse que ir no aeroporto com a mala?
Além do mais, nem tinha procurado hotel em Kent pra dormir...

Só vi a mensagem da menina no sábado, quando tudo já estava terminado...
Daí respondi para ela que tudo bem, que já tinha perdido mesmo o show do Morrissey esperando uma resposta dela e que não precisava se preocupar com nada...
Daí, a menina só me responde, no domingo, acho que do aeroporto falando:

Cara de Banana 03 de julho às 20:51
ai, fui embora no hives... tive que deixar coisa por aqui, abandonei guias... droga! mas desculpa qq coisa?         

DESCULPA QUALQUER COISA?????


CLARO... eu vim pra Londres para, com toda a certeza, passar pela maior prova de vida que alguém pode ter... pra ser canonizada quando voltar pro Brasil rsrs

Não respondi, melhor do que falar um monte, não? Afinal, o malfeito estava feito...
Estava revoltada e fiquei mais ainda com essa respostinha infantil de uma quase trintona infantiloide que veio estudar aqui um mês e ainda fala que queria ir no show do "pÛlpi" (pior que pupil rs é, eu não perdoo, né? rs)

A preocupação veio: e os presentes que seriam entregues no dia 10 na casa da minha tia no aniversário do meu primo e que todos os outros iriam receber o seu presente também  eestavam todos comigo?

A ideia foi mandar por uma empresa de entrega rápida... minha mãe pagou para eu mandar, já que as coisas chegariam no máximo em 3 dias no Brasil. Fiz a caixa e mandei pela empresa de três letras nas cores linda que combinam tanto: amarelo e vermelho...

Mandei na segunda dia 4 de julho e chegaram no Brasil na quarta, dia 6, e ficaram paradas lá... e nada de entregarem em casa e o aniversário chegando... no sábado, vejo no site de rastreamento que as coisas iriam voltar pra mim e fiquei mais do que surpresa, fiquei sem entender e totalmente nervosa...
Tive que esperar segunda para entender o porquê da volta das coisas... as moças da loja de postagem achavam que tinha sido o perfume (é, a burra aqui colocou na lista "perfume, vinho, cd, dvd, azeite"). Eu achava que não teria problema discriminar nada disso, porque tinha pago imposto e tal na postagem...
Um primo da minha mãe que trabalha em outra empresa dessa disse ao meu tio - é, família toda acionada - que se disseram que iria voltar que não teria mesmo jeito...
Meu irmão ligou para a empresa em Sampa que disse que o problema todo era o vinho, vinho é proibido ser mandado, o azeite também, mas que o azeite ainda passando pela anvisa poderia liberar assinando um termo de responsabilidade...
A empresa aqui pediu se poderia tirar o vinho para fazer a entrega, mas não se poderia mexer no pacote que estava em poder da polícia federal... e que iria voltar mesmo...
A moça da loja me manda um email de que iriam me cobrar a viagem de volta das coisas, aí eu entrei em parafuso e falei pra ela que não queria mais nada de volta... que não aguentava tanto estresse (i couldn't cope all this!) e aí pedi pro meu irmão ligar de volta em Sampa e eles confirmaram que não me cobrariam porque as coisas não deram entrada no Brasil, só se tivessem legalmente entrado eu pagaria... ufa!
As coisas iriam voltar e não teria papo... uma pena não conhecer um corrupto numa hora dessas...
Revolta e mais revolta... e não tinha o que fazer... estressei legal... passei quase dois meses nervosona... nervos a flor da pele, mas não adiantou nada...
Só conseguia culpar uma única pessoa que se não tivesse fugido de mim e tivesse conversado como gente grande teria poupado muito sofrimento meu e da minha família. Afinal, ninguém recebeu os presentes e minha mãe ficou muito chateada e gastou uma grana...
Todo mundo ficou muito chateado...

Uma frase adulta teria mudado tudo isso: Regina, eu não posso levar suas coisas, me desculpe, mas acredito que voltarei com muita coisa para o Brasil.

Não ficaria bonitinho?
Minha mãe não teria pensado nos presentes, eu não teria ido comprá-los, eu teria ido pra Kent e dormido lá e ido pro Pulp sem preocupação e não teria rolado todo o grande estresse da transportadora...

O pacote voltou, chegou segunda agora, dia 25, fui buscar na loja e a moça me disse que se eu quiser mandar sem o vinho, eles cobrariam de mim SÓ (rsrs) metade do preço... e que nunca tiveram problema com o envio de vinho para países como States e outros da Europa...
Não sei se é verdade, mas uma outra menina que conheço, e trabalha em outra transportadora, investigou as coisas para mim e disse que deveriam ter me informado do que pode e o que não pode ser enviado, mas que se eu entrasse com uma queixa, elas poderiam alegar que eu insisti que fosse as coisas fossem enviadas - porque se o cliente insiste no risco eles mandam - e que seria a minha palavras contra a dela...

Bem, esse é todo o imbróglio...
E tudo que só consigo pensar agora é na música do Falcão , porque tudo é culpa de uma grandissima mala...

25 novembro 2010

A BuRRocracia Inglesa e o Jeitinho Brasileiro

Depois das simpáticas patadas de Soudemorte, comecei a sair de casa todos os dias, todos os dias eu inventava o que fazer: distribuir cv, comprar algo, ver emprego etc.
Alguns empregos era só preciso ligar, mas eu já estava traumatizada com o telefone, não pela questão do Soudemorte, mas porque uma atendente não me entendeu e pediu pra que eu chamasse alguém pra falar com ela... uma atendente do insurance number. Só tinha o Soudemorte para fazer isso, eu NUNCA pediria um favor para ele e não pedi, pedi para a Ad e disse que Soudemorte foi rude comigo e não iria pedir para ele, pedi para que ela não contasse à Collorida, mas do jeito que aquelas duas falam mais que a boca, nunca vi duas pessoas se juntarem pra falar e nem pararem pra respirar, duvido que Collorida hoje não saiba, só não sabe o que aconteceu exatamente porque não contei para Ad.
Para se trabalhar aqui e fazer tudo, você precisa de um número, de um documento que se chama “nacional insurance number”, para tirar o negócio é simples: você precisa apresentar uma carta, uma conta, para confirmar o seu endereço. Se não for uma conta sua, não vale. Eu tinha acabado de chegar e não tinha conta nenhuma em meu nome... bem, então, abra uma conta de banco aqui para mandarem correspondência pra você: o banco só abre conta pra vc de cartão de débito pra tirar dinheiro no caixa eletrônico, nada de compras; nada de compras, nada de dívidas, nada de contas a pagar que vai até o seu endereço... e minha conta no banco de 4 letras que tem no mundo todo? Só posso transformar minha conta numa conta inglesa depois de um ano aqui... e então vou mudar meu celular de pré-pago para pós-pago, terei uma conta pra pagar e provar meu endereço! Pós-pago só pode com cartão de crédito de conta inglesa...
E estou esperando, até o momento que escrevo esse post, um caridoso empregador que me empregue e tire o insurance pra mim... pelo empregador seria a outra maneira...
Para se ir ao médico também, há os postos de saúde daqui que se chamam GP e o INSS é o NHS.
Estava com uma alergia que não aguentava mais, com certeza tinha sido ainda em Portugal, tinha sido mordida por algum bicho e não aguentava de coceira nas pernas e braços há dias... Resolvi ir no GP, eles fariam meu cadastro e poderia começar a usar o posto de saúde. Ledo engano: quanto tempo você vive aqui: 3 semanas. Ah, então não pode... você precisa ter 6 meses pra ter um cadastro/ficha aqui, mas pode ir ao hospital que atende a região pra ser medicada...
Foi o que eu fiz, fui até ao hospital e a médica me pergunta porque eu tinha ido a um hospital por conta de uma alergia simples e eu disse o que a mulher do GP me falou... ela ficou quieta, pegou a pomada, marcou quantas vezes eu deveria usar e sai com a pomada – de graça – do hospital.
Mais uma: ia fazer um curso de inglês perto da estação de Richmond, todo mundo falando que os cursos são bons e não são caros por ser uma escola do governo e tem desconto pra união europeia. Vou lá.
Chego, faço prova de nível, passo por uma outra professora para escolher horário de acordo com o nível que tenho e vou fazer a matrícula...
Há quanto tempo você mora aqui?
Há algumas semanas.
Algumas semanas e antes você não morava em Portugal, morava no Brasil? (por conta do passaporte português)
Sim, morava no Brasil.
Então, sinto muito, você terá que pagar o preço normal porque você precisa estar há 3 anos num país da comunidade europeia pra ter direito ao desconto....
Eu entendia mal o que a menina dizia e tentei falar mais com ela, ela correu e chamou outra mulher pra falar comigo... se descontrolou total porque, eu acho, já estava o dia todo fazendo matrículas de estrangeiros que não a entendiam direito... deve ser desgastante, eu sei, mas ela saiu da poltrona dela e chamou a outra moça, bem mais simpática, que falava devagar e com calma do que ela, saiu da cadeira como se eu a tivesse ofendido, sei lá... saiu na maior braveira... eu não tenho culpa se o trabalho dela é esse: atendente numa escola de idiomas em Londres... e olha que a moça deveria ser descente de indus e tal... alguém da família dela também já deve ter passado o mesmo que eu ...
A burrocracia, sim, buRRocracia aqui chega à enésima potência... Tudo o que você ganha e está no banco é sabido pelo “tax” se aparece uma dinheiro a mais, eles vão querer saber de onde saiu aquele dinheiro... se você não está enganando o governo...
Todo mundo que tem outro emprego aqui, informal tipo manicure, pede pra se pagar em dinheiro, pra não ir para a conta da pessoa. Os brasileiros sempre sabem dar seu jeitinho...
Tanto jeitinho que tem ilegais aqui que tem insurance number, falso, claro, mas tem! Tem insurance number, visto falso, passaporte português ou italiano falsos para estarem “elegíveis” para trabalhar aqui, conta pra compravar endereço que também é falsa. Aqui, você pagando consegue tudo! E me ofereceram! Mas como eu não sou ilegal, ando na lei e me ferrando com a burrocracia, crente que uma hora ela venha a sorrir pra mim... espero!
Porque, eu acredito, que quem está ilegal é como um assassino: não fica só em um, tem que matar os outros que descobrem o que ele fez... cada vez a coisa complica e aumenta mais o seu trabalho pra parecer na lei...
Três meses em Londres e finalmente consegui abrir uma conta no banco de 4 letrinhas! Eu não sei o que acontece... cada agência que você vai a pessoa tem que ir com sua cara, talvez... tenho um cartão de débito, acho que vou poder com ele transformar em pós-pago meu celular, porque pré-pago aqui é um absurdo! Você põe 10 libras e acaba em menos de uma semana! Um horror! E o pós-pago tem promoções do tipo “pague 35 por mês e ganha 2 mil minutos...”
Num banco muito famoso aqui, quase consegui abrir uma conta porque tem duas atendentes brasileiras, mas também precisava da tal conta com meu nome. O que brasileiros me disseram para fazer: pedir para alguém colocar uma conta de gás, água etc no meu nome por um mês para a conta vir no meu nome... brasileiros e seus jeitinhos.
Resisti até o último momento e deu certo, não precisei de conta com meu nome, só disse que estava trabalhando e tinha um cheque pra depositar (o que era verdade) e a menina não viu o cheque, não comprovou meu endereço, só pediu uma conta do Brasil, do mesmo banco, mostrei e ela abriu com meu passaporte português (original). No banco famoso aqui – um Brad... daqui, o Barcl... – elas queriam uma conta comprovando meu endereço no Brasil também, mas só poderia ser conta de telefone FIXO (celular não vale aff!), água, luz e estrato bancário, nada de fatura de cartão...
Estava já ficando de saco cheio, liguei pro meu irmão e desabafei: esse bando de idiotas pedem um monte de coisa, só dificultam a vida de quem está certinho por culpa desses fdps ilegais e que ainda se dão bem porque usam tudo falso e ninguém se toca!
Estava revoltada... como podem ser tão idiotas... não saber que alguém pode mudar por um mês a pessoa que vai pagar a conta ou qualquer outra coisa assim... (Collorida deveria saber disso, mas nunca se ofereceu, sempre pôs dificuldades) ou outro caso que fiquei sabendo aqui.
Celulares tem um seguro irrisório, todo mundo aqui, ou 80% da população londrina (seja inglês, ilegal, legal, adolescente) tem ou blackberry ou iphone. Você paga quando compra esse valor mínimo e quando diz “fui roubada, perdi meu celular” eles te dão um novinho em folha, não questionam, não pedem B.O. simplesmente você angaria blackberries ou iphones pra família toda... Isso é o mais engraçado, enquanto em algumas coisas eles desconfiam demais, em outras “abrem as pernas” (odeio esse tipo de termo, mas é a verdade). Depois, quando descobrirem (ohhhhh!) o que o povo faz, farão nova lei, nova burrocracia, que eu duvido parará o jeitinho brasileiro!
Como o outro dia uma menina me falou:
Só preciso de 100 libras para meu insurance number e a identidade de imigrante legal, sai em 2 dias
E eu, tonta:
Ah, você conseguiu tirar tudo?
Ela, sussurando: É falso!!
Ainda não tenho um insurance number, mas acho que agora as coisas ficarão mais fáceis com a conta aberta... foi um sufoco, foi angustiante esse tempo, mas acho que agora vai... e graças a Deus não preciso me sujar para nada aqui, estou limpa, sou legal, sou honesta e sou brasileira, mas não compactuo com erros, safadezas, sujeiras dos meus conterrâneos.
Parece que estou sendo má com os brasileiros ilegais, né? Mas se eu contar o que fazem aqui, vão me entender, num próximo post.