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15 novembro 2016

O Império do Fado - parte 4: a maratona

Não me lembro se contei na última postagem do Império que uma nova empresa iria assumir a parte de limpeza da TfL (Transport for London) e nem todos os funcionários se manteriam com essa mudança. Nova empresa assumiria esse setor, mas nem todo mundo ia ser mandado embora, na verdade, disseram que iriam reestruturar as tarefas e muito boato e conversinhas eram ditas, como de que a empresa anterior foi tirada por ter funcionários de alto escalão roubando coisas grandes nos escritórios da TfL, se era verdade, não sei, foi um dos boatos... que a portuguesada que mandava roubou nos finais de semana coisas como móveis... era o boato. Por isso teriam tirado o contrato com a empresa e dado a outra o trabalho de cleaners ali.

Virou uma maratona, uma correria por pontos, sim, tudo seria anotado em nossos prontuários para ver quem ficaria a trabalhar lá ou perderia o emprego...

Entrei nessa neurose e ainda morava na casa da Marciana, fiquei apavorada pensando o que faria se fosse mandada embora, pois mandava muitos cvs, principalmente estava sempre de olho nas vagas do Job Centre na Internet e nada... isso me dava medo... como eu ia me manter? era pouco, mas dava pra pagar o aluguel da semana.
E ainda por cima eu era uma das mais novas trabalhando lá, ou seja, menos pontuação, quanto mais tempo, mais pontuação.

O que eu ia fazer se fosse mandada embora? E aí que eu tinha que aturar mesmo a Marciana...
 Procurava não chegar atrasada, não deixar nada pra trás no meu trabalho, limpar como sempre limpava, mas sabia que Darthvedrina contava contra mim.
A semana da mudança foi exatamente as semanas que ela ficou de férias, ela sabia que nela ninguém mexeria... em nenhum supervisor.

Até que veio o veredicto, eu e as ucranianas e a russa estávamos fora, além da angolana. Dei pra ver nitidamente como foi a escolha, quer dizer, como os pontos contavam: português 1000 pontos, outras nacionalidades 0.
Não, mentira! 3 portugueses também foram mandados embora: uma senhora que mais faltava do que vinha e queria ser mandada embora, a moça que trabalhava no hostel e queria ser mandada embora porque tinha mais trabalho no hostel e um cara que estava voltando para Portugal. 

Imagina se houve algum complô e cartas marcadas, de jeito nenhum!

Quando soube que seria uma das pessoas a ir embora e só tinha mais uma semana, larguei mão. Não ia ficar com o emprego mesmo, por que trabalhar? E me escondia em alguma sala e ligava pra minha mãe, do meu celular, não usava os telefones de lá. Ficava na maior moleza, não tinha mesmo porque me matar, todo o trabalho que eu tive não era recompensado.

Comi doces e chocolates das mesas dos funcionários da TfL (comi bolos também rs), li as revistas deles e limpei só o que não poderia deixar de ser limpo. Na mesma época, algumas salas estavam sendo desativadas e aí havia mesmo coisa pra limpar porque mesas e repartições tinham sido levadas embora, toda uma ala foi desativada. Exatamente a que tinha uma sala de relax com pôsteres do The Times de alguns filmes famosos como Casablanca, Dr. Jivago, O Vento Levou, Manhattan e Conspiração Internacional. Subi nas paredes e levei tudo pra mim, trabalho duro rsrs tive que esconder no meu avental e era muita coisa dobrada, mas dei meu jeito.
Continuei minha busca por coisas abandonadas, como um monstrinho do lago Ness que estava jogado e era tipo de pelúcia, pequeno, levei. 

Naquela semana eu era sempre a primeira a chegar no porão pra esperar o Let's go da Darthvedrina. Ela mesma chegou a jogar uma indireta do tipo que quem tinha sido mandado embora não ia mesmo trabalhar aquela semana. Oh, como fiquei triste por isso! (sqn)
Se meu trabalho não ia ser recompensado o que adiantava ter sido certinha? E fui erradinha a semana toda.

Na outra semana, lá pela terça-feira, me ligaram da empresa falando que tinham uma vaga pra mim num prédio do lado, da TfL também, onde trabalhei uma vez para cobrir uma outra moça durante o dia com aquele carrinho. Deveria ir conversar com uma colombiana que era a cara - pelo menos pra mim rs - da Tenente La Guerta, de Dexter, então vou chamá-la de Laguerta, ok? Minha nova chefe. Bem, fui ver qual era a vaga, como seria e teria que trabalhar apenas duas horas por dia (menos dinheiro), tinha 4 andares para lavar APENAS os malditos banheiros... nada pode estar pior que não fique ainda mais... mas de 5,75 a hora, passamos a 8,40, era alguma coisa pra se agarrar...
 

28 janeiro 2016

O Império do Fado - parte 3: A guerra não muito fria...

Acabaram as pequenas férias e acabaram as alegrias.
No dia que voltei, como disse na postagem anterior, já tive que limpar o quarto que a belezura do Centro-Oeste não limpou e nem se dignaria a limpar a parte dela, pelo menos.
Mas o pior era voltar pro Império comandado por Darth Vedrina eu sua portugatrooper.

Sabe deprê depois das férias?
Sim, eu tive. Porque tive que voltar pras coisas ruins: casa da Marciana, Império do Fado... não voltei para uma casa aconchegante só minha e nem para um emprego razoável. Voltei para o terror, ou, o horror! como diria Marlon Brandon...

Fui trabalhar mais deprimida do que de costume. Infeliz, infeliz, infeliz... pensando no que poderia ser e não era, até pensando em ter ficado no Brasil com meu ex que já namorava outra, aquele doce de leite que já publiquei o quanto ela ria da minha cara...

Fui infeliz trabalhar e com Darth Vedrina no meu pé, mas o pior não foi isso... foi ainda não ter me tocado que participava de uma guerra fria que não era muito fria.
De um lado a russa e as ucranianas e lituanas, de outro, as portuguesas e, no meio do fogo cruzado, eu. 
Demorei a perceber o quanto se odiavam, eu não tinha tempo pra isso, sempre trabalhando como uma condenada para não perder meu pouco sustento. Até que chego para me trocar e uma das lituanas bate a porta na minha cara, uma senhora batida na minha cara e quase choro do lado de fora pensando "o que fiz para merecer tanto ódio? por que não tenho um pouco de paz?". Na verdade, comecei a chorar e disfarcei. Daí escuto uma conversa entre elas e abrem a porta, pego minhas coisas e me mando dali, sem falar nada...
Voltei infeliz pra "casa"... e nem podia chorar na cama que é lugar quente: Bruxa estava no telefone com a filha que queria mais alguma coisa que ela mandasse senão ficaria de mal...

Eu nunca tinha reparado que os cantos onde nos trocávamos eram dois e não divididos por homens e mulheres e sim por portugueses de um lado e leste europeu (e brasileira) de outro. Achava melhor me trocar no lugar delas, o outro tinha os homens e os hoovers, não me sentia fazendo parte dali.
Havia um angolana que se arrumava do lado português também e eu não reparava nisso. Achava que ali era o lado das mulheres, porque tinham mais mulheres mesmo e não percebia a o muro de Berlim ali, entre os dois trocadores ou que nome tem aquilo...
Na verdade, eu mal me trocava... ia já com a roupa de trabalho (uma calça enorme do tipo esportiva e alguma camiseta mais velha) só colocava meu avental e deixava minha bolsa lá - que depois aprendi a não deixar com dinheiro, fui roubada duas vezes, não sei se pelo leste europeu ou pelos portugueses que tinham todo acesso quando subíamos para limpar os andares... poderia até ser Darth Vedrina... ela ficava a maior parte do tempo lá sentada, não tinha o que fazer, a única a olhar se trabalhava direito era eu...

Percebi muito depois a divisão e principalmente entendi tudo quando uma das lituanas me perguntou se eu era portuguesa e eu disse que não, que era brasileira. E ela me disse: mas você fala a mesma língua que eles! E eu respondi que sim, porque o Brasil foi colonizado pelos portugueses, por isso sabia a língua delas. A partir daí, elas me trataram bem porque eu só sabia falar português, mas não era tão do mal. E como ucranianas e lituanas tiveram no tempo da União Soviética que aprender na escola o russo e por isso conversavam com a russa, que era uma mulher bonita e simpática e nunca deixava barato o que os portugueses aprontavam (já contei aqui). Afinal, ela tinha anos ali e um dia a encontrei num ponto de ônibus perto de St. John's Wood Station, ela trabalhava de manhã num hospital dali. Até falei para ela se precisassem de alguém... mas como sempre não estavam contratando...

Uma das portuguesas, a de cara mais amarrada que já devo ter comentado na outra postagem, que nem quando ria a carranca se desfazia, começou a implicar com um lituana (ou albanesa? não lembro) que tinha acabado de chegar, as duas não falavam inglês e nem a língua uma da outra, mas se provocavam a todo momento. Não sei de onde tiraram aquilo, mas sei que foi ódio à primeira vista.

E viva-se assim no Império até as coisas ficarem piores (ah, pensa que tudo é flores, é? claro que teve mais... sempre tem mais pra mim...). A empresa que fazia o serviço de limpeza perdeu a boquinha - parece que era toda de portugueses já e andaram roubando materiais grandes de escritório... foi a conversa que ouvi e não sei se verdadeira - e uma nova empresa foi contratada, só que os empregados seriam os mesmos com uma condição: só os que obtivessem uma certa pontuação ficariam (claro que os efetivados não iam mandar embora... a lei inglesa garante para uma certa idade, a você não ser mais mandado embora do emprego e morrer ali - acredito que depois de uns 50 anos de idade). Nessa mudança também no mês de abril, como expliquei sobre ser o mês que começa a vigorar a parte de receita e impostos etc etc.
Recebíamos 6 e uns quebrados de libra a hora, passaríamos a receber £8,40 a hora, o que era um salarião! ainda mais pra mim e não queria perder meu emprego de jeito nenhum!

E bem nesses dias foram as férias vencidas de dona Darth Vedrina, muito interessante como ela tirou bem quando virava o ano fiscal... e pensamos que tínhamos nos livrado dela... mas não... a Guerra Fria iria continuar e com mais truculência de ambas as partes... e mudança de prédio...
aguardem...

29 abril 2012

O Império do Fado - parte 2: conhecendo personagens

Além de DarthVedrina, minha chefe amada, trabalhavam comigo outros conterrâneos dela - daí o Império do Fado -, algumas pessoas eram até simpáticas comigo, principalmente os homens, porque, como eu já disse: portuguesa, na grande maioria das vezes, odeia brasileira.

Elas me olhavam com um olhar que talvez nós brasileiros tenhamos herdado delas: aquele olhar de medir as pessoas e julgar. E nesse julgar aparente, já dava pra entender que eu havia sido condenada, sempre olhavam com cara feia pra mim e nunca me cumprimentavam.
Só que eu resolvi fazer diferente: chegava na prédio e no local que esperávamos pra trabalhar, cumprimentava a todos: "boa tarde! good evening!" (o último para as lituanas, a russa e o ucraniano). Isso, para as portuguesas, deve ter gerado um: como é metida! Mas eu só queria fazer o meu trabalho sem o peso do mau humor delas, que era contagiante!
Tinha uma que sempre estava de tão mau humor que até a fisionomia dela já tinha se moldado: as bochechas estavam sempre carrancudas, mesmo enquanto conversava, ou mesmo se ria de alguma baboseira, sempre acompanhando o jeito zangado de ser, os músculos já não saiam do lugar.

Não que português seja uma pessoa feliz, é só ouvir o fado para você saber que é da natureza do português - e porque eu tenho parentes, como você já leu aqui, portugueses. A maioria deles são fatalistas e não conseguem enxergar muito além do que vivem, não são pessoas esperançosas, uma grande maioria, principalmente os mais velhos e minha tia tinha até, digamos, um bordão: é assim a vida...

Só que esses não eram melancólicos, ou essAs, eram recalcadas.
Tinha uma que falava mais que a boca, o tempo todo com as amigas, eu passava por ela e ela empinava o nariz (como diriam os italianos la puzza sotto naso - o fedor debaixo do nariz). Minha vontade era virar para ela e dizer: olha aqui, eu sei de que buraco que você chama de aldeia você saiu, então, faz esse tipo de a poderosa pros seus patrícios quando você for lá e dizer que é executiva da limpeza em Londres.

O clima era ruim, as pessoas mal se falavam, só os portugueses quando se juntavam pra tomar café nas máquinas de café dos escritórios enquanto os outros que eram seguidos de perto por dona Darthvedrina trabalhavam.
Havia uma sala de máquinas de café, sucos etc no nono andar, o povo chegava e, ao invés de trabalhar, ficavam todos lá bebendo café e falando. Eu, mesmo trabalhando no segundo andar, tinha que passar todo dia ali para buscar e levar meu hoover.
Eu não tinha um aspirador pra mim, o do meu andar havia sido escondido numa salinha de materiais de limpeza por uma... (adivinha!), e ela que trabalha só duas horas por dia e mais faltava do que vinha, ficava com o hoover.
Meu miguxo por meses
Como eu sei que era o meu? Por que ele tinha escrito nele com caneta piloto "segundo andar fulana de tal" o nome da fulana que trabalhou no andar antes de mim, ou seja, o hoover era do meu andar e eu deveria usá-lo e não buscar um outro, em outro prédio, que tinha ligação com esse pelo nono andar (e só me contaram que tinha ligação também no meu andar muito meses depois) todos os dias e devolver, claro!
Então, eu passava todos os dias ali e ficava só olhando aquele bando que não fazia nada, deixava tudo sujo e só enganava - a limpeza em Londres sempre vai se encaixar em "para inglês ver" não vai ter jeito.
E a chefona deles compactuava com isso, mas para fingir que era chefe, ia praticar seu assédio moral na brasileira, na angolana e nas lituanas, além de uma russa.
Havia também um brasileiro que trabalhava lá, mas como ele trabalhava há anos ela já não tinha o que ficar no pé: era estável.
Esse espaço com as máquinas foi fechado depois, acredito que alguém do escritório viu a chacrinha que virava ali e mandou pôr na porta código, só os funcionários do andar sabiam e a russa que ali limpava e não dava o código aos portugueses que só a odiavam mais ainda.

Eu como instável fazia o possível para deixar tudo limpo, mas sempre Darthvedrina achava algo novo pra mim.

Havia um rapaz que pegava o lixo por vários andares, inclusive o meu, ele era a figura, ele e uma amiga dele que limpava os banheiros, mas passavam a maior parte do tempo batendo papo e perna pelos andares. Procuravam de tudo para "levar" com eles: bolos, bolachas, chocolates, qualquer quitute que o povo deixava nas mesas ou deixava numa parte para que todos comessem; usavam os cremes de mãos que o povo deixava nas suas respectivas baias, perfumes... o que eles encontravam pra usar e comer, eles pegariam, nem que fosse um lápis com um desenho diferente. Liam os jornais e revistas, levavam embora. Numa das baias havia até um recado: "depois de ler, não leve o SEU jornal para casa"... mas alguns nem entenderiam a ironia... duvido...
Eu costuma pegar revistas, mas as que já tinha jogado no lugar pra reciclagem de papel.
Esse rapaz passava e batia papo comigo, perguntava coisas sobre o Brasil, principalmente porque ele tinha a Record internacional e assistia ao Gugu e comentava. Ele adorava o Gugu, achava o cara mais do bem da face da terra...
Também queria saber se o Rio era daquele jeito que ele viu no Fast and Furious, no filme que se passa no Brasil, eu disse que não sabia, não conhecia o Rio.
Perguntava se eu era crente, porque a maioria dos brasileiros que ele conhecia eram, disse que não. Ele sempre perguntava se ia na igreja de domingo, porque os outros iam... disse que ia numa Casa Espírita e ele ficou com medo e eu disse que não era nada demais: que quando morremos não é o fim e que era uma doutrina que começou a ser difundida por um francês chamado Allan Kardec.
E ele: ah! o jogador do Benfica?????

Bem, eles também eram fanáticos por futebol e passavam, os homens, a maior parte falando de futebol (enquanto fazia aquela 'pausa' no trabalho), mesmo eles fazendo todo esse corpo mole por serem estáveis, eram simpáticos comigo, mas só, não espere mais que isso: nunca sabiam de outro trabalho, nunca sabiam de um quarto para alugar... todo mundo ali ajudava português, brasileiro, não.
Só que brasileiro também não ajuda brasileiro e... como fica?
Fica na merda... como fiquei...
Acho que eram simpáticos porque eu disse que meu pai é português, que tinha família em Portugal e todos serem Benfica.

Havia uma moça que limpava o banheiro do meu andar e outros; trabalhava ela e o marido, o marido também tirava lixo dos andares. O esposo era o tipo carranca mesmo. Até o dia que ela ficou doente e perguntei se ela estava bem, ele me continuou com a carranca e só falou "está", cara fechada para não ter mais papo...
Ela era simpática comigo, talvez porque era obrigada a dividir o mesmo espaço de materiais do meu andar comigo e o mesmo tanque para encher os baldes dos mops.
Ela sempre me sacaneava: ela limpava o banheiro feminino que ficava bem na entrada de uma das alas, jogava todo o resto da sujeira - que ela não pegava com o mop - no carpete daquele corredor. Todo dia eu era obrigada a limpar exatamente aquela parte daquele carpete, mesmo quando não era dia da limpeza pesada daquela ala. Todo dia eu era obrigada a passar o hoover ali, todo dia eu tinha que ir caçar uma extensão para o fio do hoover, porque ficava justamente longe das tomadas aquela parte.
Um dia, Darthvedrina estava no meu pé e viu aquela sujeira ali e veio reclamar e eu disse que era o que a moça da limpeza do banheiro jogava pra fora e o que ela respondeu?
Você tem que ser mais displicente e dar conta do SEU trabalho.
Deveria pertencer à Darthvedrina, ela precisava -
percebam o tamanho comparando com o porta durex
Sim, meu trabalho!  (Ah, em Portugal quer dizer que eu tinha que ser mais ágil -  esse uso do displicente - Vejam que eu sempre tinha que ser ágil, até para dar conta do trabalho mal feito dos outros.)

Ah! A mulher que limpava os banheiros no meu andar tinha um outro emprego de camareira num hostel, perguntei se tinha vaga, ela disse que não, que era pequeno e só ela e outra menina davam conta e mesmo nas férias de uma delas tinha a pessoa certa para cobrí-las.
Um dia ela disse que ia sair desse emprego, mas não ia indicar ninguém.

Um dia Darthvedrina se divertiu: me pegou passando o mop nesse resto de sujeira...
Ela finalmente mostrou um riso naquela cara de carranca, deve ter doído muito fazer força e mexer os músculos da face...
Fiquei morta de medo, precisava do emprego.
Outro dia Darthvedrina me dava a parede da copa para eu limpar: era coberta por uma espécie de massa que virava o tal do papel de parede deles. Ela queria que eu tirasse todas as marcas de café dali.
Explico: era a parte que ficava bem do lado do lixo, o povo jogava os copos de café e chá e, conforme jogavam, manchavam aquela parte, coisa de anos e como não era azulejo, não havia produto de limpeza que tirasse.
E ela dizia pra mim: limpe aí todo dia que você consegue tirar a sujeira.
Outro dia ela vinha e falava que eu não estava passando o hoover direito: que eu tinha que passar em cada cantinho perto dos batentes das portas, que eu tinha que tirar a parte da vassoura do aspirador e só passar com o cano para limpar tudo...
Eu me sentia tipo o Capitão Gancho ouvindo de longe o barulhinho do jacaré que vinha querendo comer minha outra perna....
Estava sempre alerta, mais que um escoteiro.
Porque ela sempre dizia: desse jeito não vai dar pra você ficar aqui...
Num dia de desespero total com medo de ser mandada embora eu subi nas mesas do escritório para limpar.
Sabe aqueles cantos que você não alcança?
Pois é! Eu sabia que seria ali que ela ia passar o papel para pegar a poeira e brigar comigo. Daí decidi subir em cima das mesas e limpar tudo, cantinho por cantinho. Sempre com medo que ela chegasse e me visse em cima das baias.
Até ir embora de lá, limpei dessa forma, em pouco tempo, não tinha muito porque limpar "galgando" baias, tudo tinha ficado limpo, era só passar uma "flica" (feather - no caso, espanador), como diria a portuguesada, e ficava tudo ok.

Nunca aquelas alas ficaram tão limpas quanto devem ter ficado comigo. Mais limpas que isso, só quando inauguraram - se é que limparam a sujeira antes disso... o que tenho dúvidas...

11 março 2012

21 de janeiro de 2011 - Manic Street Preachers at O2 Academy Brixton

Em janeiro de 2011 assisti meu segundo show em Londres, dessa um show grande, o primeiro.
Fiquei preocupada por estar sozinha e como seria a multidão e preferi comprar um ingresso na parte de cima da Academy Brixton.
O show era pra  ter se realizado em 28 de outubro, mas James Dean Bradfield teve uma laringite e o show foi remarcado para janeiro.
Em novembro, meu problema era morar longe de Brixton, morava na região de Dalston Kingsland, começo do norte de Londres e já tinha até descoberto um ônibus para pegar na estação de Old Street e ou Angel para voltar para casa - depois de chegar até ali de metrô (pela Northen Line).
Com a mudança do show e da minha residência as coisas melhoraram: "Elefantinho Castro" é bem perto de Brixton e em 15,20 minutos de busão estaria em casa (estaria antes, mas os buses de Londres andam devagar para os padrões brasileiros) um único busão.
Cheguei a pegar o ônibus e ir conhecer o ambiente, ainda não conhecia Brixton, mas Marciana (uma descendente legítima de Dinamarqueses, como diria Caco Antibes) disse:

Você vai até Brixton????
Cuidado! Lá muito perigoso! Só tem preto! (imagina, ela não era uma pessoa preconceituosa e muito menos tinha descendência negra, nem os filhos e o marido de uma das filhas que era negro).

E começou a me falar de uma história que aconteceu com o casal polonês: que no verão eles tinham voltado daquela região espancados, que uma "preta" tinha encarado a polonesa e puxou pra briga e os dois tiveram que ir pro hospital, espancados pela "gangue de Brixton". E ela dizia que viu que eles não chegavam e estava preocupada, porque só voltaram no outro dia e tinham virado a noite no hospital.
Ou seja: ela estava tomando conta dos inquilinos, a hora que chegariam e tal. O filho deve ter traduzido o que aconteceu pra ela, acredito eu, porque ela não fala nada e mal entende o inglês.

Bem, fiquei com medo de Brixton porque ela "botou o terror", até eu chegar lá de ônibus e ver o lugar e pensar: peraí! Como assim? Aqui é normal... melhor que Elefantinho Castro! Uma estação de metrô muito, um cinema com arquitetura bonita, praça para as pessoas baterem papo e muito comércio! Um comércio muito melhor do que o da cohab elefante! E ônibus pra cidade toda.

Perdi o medo, fiz o percurso de volta, e só tinha um problema: o meu querido Império do Fado. Estava trabalhando lá a pouco tempo e não poderia faltar, se Darthvedrina queria me botar pra correr, era essa a hora!
Como o show teria abertura de duas bandas (uma menor e Britshi Sea Power - os shows em Londres começam cedo) fui olhar direitinho os horários para cada banda para ver se daria pra assistir depois do trabalho (eles também respeitam os horários fixados, pontualidade, realmente britânica) e os Manics entrariam no palco às 9:15pm e eu saía do trabalho 8:30h, era curto o tempo, mas teria que pegar o metrô ali do lado, St James Park, e trocar na próxima estação, em Victoria, para ir até o final da linha: Brixton e pelo que conheci da região, eram 5 minutos andando até a Academy Brixton.
Tudo cronometrado, naquele dia corri com o trabalho para poder me trocar no mesmo horário dos outros e sair quando a Vedrina dissesse Let's go! E foi!
Encontrei a portuguesa do trabalho no metrô, inclusive Extreme e sua noiva/esposa sei lá o quê e olhou tudo sério pra mim, agora não fez gracinha, né?
Quando o metrô chegou uma estação antes de Brixton, o trem parou, não foi adiante, em Stockwell, ora pois! (bairro português) - na hora não me toquei, só depois me lembrei que foi o mesmo que aconteceu com Jean Charles: o trem parou antes de Brixton e teve também que descer ali.
Como não conhecia a região e só sabia que estava perto, fiquei desesperadamente procurando um ônibus pra Brixton, me disseram um, que passou em frente à Academy, só que eu não percebi e desci no ponto do metrô, voltei correndo como louca, ainda eram 9:05 (transporte que funciona é outra coisa...).
Cheguei, fiquei sem minha garrafinha de água, entrei e vi como era o palco de cima.

A Academy Brixton é um lugar bem bonito por dentro, imita arcádias clássicas. Fiquei impressionada com a beleza do lugar. O palco estava na minha frente, mas teria que muitas vezes, se quisesse uma foto boa, levantar pra tirar - estava num local sentada - o que me arrependo até hoje, porque o povo não levantou, como imaginava que aconteceria...

Nervosismo, cansaço, mas estava lá.
E os Manics entram...

Enlouqueci e não queria mais sentar... mas fui obrigada, educação é educação, respeito é respeito e isso é bem cobrado por lá, não é uma zona!
Ao ver aqueles três caras, ali embaixo, só pensava que era uma sonho realizado, mas queria muito estar na parte debaixo pra pular.
As músicas ao vivo e a voz de James Dean Bradfield são ainda mais cristalinas ao vivo... e que voz, Bradfield... realmente uma das mais lindas.
Todos são grandes músicos e sentadinha deu pra prestar ainda mais atenção nisso: você deixa de ser macaca de auditório e passa a saborear a melodia e perceber as nuances do som, o jeito de tocar, a forte ligação e entrosamento dos caras e como eles tocam muuuito!

Um casal, mais pra lá do que pra cá (ou seja, normal para o padrão inglês) começou a ficar de pé e eu vendo se mais pessoas ficavam em pé, não, o povo não se movia e o cara pediu para o povo se levantar e nada! A mulher do cara ficava com um copo de cerveja balançando e dançando, atrapalhando todo mundo e nem assim... o povo foi irredutível... fiquei triste, estava a fim de levantar e pular! (guardem esse casal, eles aparecerão aqui novamente rs)

Mesmo sentadinha, vibrei e cantei muito com eles, feliz a cada música que amo, principalmente quando fecharam o show com Design for a Life! E o povo finalmente resolveu levantar pra cantar (e ir embora, o que estranhei). Vibrei muito naquela cadeira e amei cada instante de estar ali ouvindo uma banda que amo e que não sei se um dia tocará aqui no Brasil.

Não houve bis, aí sim estranhei muito... Como assim, não tem bis? E as pessoas foram embora como se fosse a coisa mais normal do mundo - tá certo, tocaram 22 músicas, mas bis é bis, né?
O povo foi embora, o palco se apagou e as luzes se acenderam e aí tive mesmo a certeza de que era hora de ir embora... não sem tirar fotos também do lugar.

Fiquei totalmente sem palavras... fui pro ponto de ônibus que ficou cheio, a rua estava cheia, pessoas iam pros pubs e cheguei são e salva por volta de 11:30 na cohab.
Nenhum problema, nada demais, uma noite normal de semana em Londres para a maioria, diferente pra mim que tinha visto pela primeira vez os Manics.



Claro que comprei camiseta no final.

Setlist aqui.

17 fevereiro 2012

O Império do Fado - parte 1, do começo

Já citei várias vezes aqui e citei muito no meu twitter sobre o Império do Fado, mas ainda não contei sobre lá... 
Let's go! 
 
Estava eu desesperada para arrumar um emprego (janeiro 2010), procurava no JobCentre, ligava pra ex-alunos de português e fiquei fazendo algumas faxinas, como já leram. 
E ai minha roommate tinha uma lista de lugares que poderiam contratar, uma lista de agências e empresas de limpeza e serviços. 
Liguei para todas, algumas o número já havia mudado, outras não tinham nada ou ficaram de me ligar e eis que em uma o cara me disse: venha amanhã e traga seu c.v. 
Fui. 
Do lado da Victoria Station, mas eu ainda errei o caminho e me apavorei porque estava atrasada e nem tive problemas com isso, o cara que disse para eu ir até lá não estava e um português pediu pra eu falar com um outro português. 
Tudo bem até aí, o que me atenderia era do leste europeu e eu não vou lembrar de onde... O português, vamos chamá-lo de Extreme (mesmo nome do vocalista portuga da banda), falou que sim, tinham vagas e precisavam urgente de alguém para um prédio ali perto, só que como estávamos numa quinta e sexta seria fechamento do pagamento. 
Então, comecei na segunda. 

Os pagamentos, na maior parte dos lugares ou é feita semanalmente ou quinzenal, alguns lugares preferem quatro semanas trabalhadas, não se conta mês e sim as semanas trabalhadas. 

Teria que trabalhar das 5:30 às 8:30 da noite, limpando escritórios da TfL (Transport for London) eles têm vários prédios e a minha vaga era no prédio da Saint James Station, em frente à New Scotlan Yard. O que era bem fácil pra mim, tinha um busão que me deixava do lado do trabalho. 

Quando cheguei, dei de caras com um mundo de portugueses, o prédio é dominado pela Ilha da Madeira principalmente, Minha supervisora, que deveria me ensinar o trabalho também era portuga. 
No primeiro dia, disse o que eu deveria fazer e o outro supervisor que tinha o mesmo nome de um falecido tio meu me explicou o que deveria ser feito. 
Ela me disse que se eu não entendesse muito bem tudo, durante aquela semana, colocaria uma pessoa pra me treinar. Tudo bem. Então, na terça ela já pediu pra outra portuguesa me ensinar o trabalho. 
Aí começa o problema... 
No primeiro dia ela, como dizem, mostrou os dentes como se fosse uma pessoa decente, no segundo dia, mostrou as garras, mostrou que pertencia ao lado sombrio da força e que ela não era Anakina e sim... 

 Darth Vedrina (o nome dela terminava em drina mesmo... feminino de Alexandre... daí precisa emendar um nome do mal, né?) 

No segundo dia e no resto da semana ela pediu para que uma outra amiga dela me ensinasse, só que o ensinasse era apenas organizar meu tempo entre todas as tarefas, o que eu ainda não tinha noção pra fazer. Era uma andar todo pra mim, menos os banheiros, eu tinha que limpar quatro alas. 
Uma ala por dia era a limpeza mais pesada e nos outros eu só teria q passar pra verificar o que tinha pra fazer de urgente durante a semana e na sexta fazer uma checagem geral. 

O que se fazia em cada ala: tirar pó das mesas e cadeiras, limpar com mop as pernas das mesas e cadeiras (e isso eu fazia quase nunca porque não dava tempo), passar aspirador na ala toda, limpar todos os dias a copa do andar e outra pia que ficava na parte de serviço, passar o pano (ou "mopar") as cozinhas (copa e esse lugar com outra pia), limpar armários e portas e limpar portas de vidro de todas as alas por causa das malditas marcas de mãos nos vidros. SÓ isso em 3 horas. 
Mas, claro, eu poderia descer 8:20 para me trocar! 

A rapariga que era pra me ajudar, me pôs pra ajudá-la a limpar o andar dela também - não tinha alguém pra substituí-la, então, tínhamos dois andares pra fazer e correndo como louca! 
A gorducha que me ensinava não teve a coragem me dizer o nome e nem de me perguntar o dela... Só para vocês terem ideia da simpatia... na verdade, ela não era uma pessoa ruim, mas vai ser antissocial assim lá na Casa do Cara***, opa! 

Até que eu disse o meu nome e perguntei o dela, lá pra quinta-feira... era mais um Maria entre 500 que tinham lá com um segundo nome pra diferenciar uma da outra. 
Apesar de conhecer a fama boca suja dos portugueses e ter um exemplo em casa, minhas tias nunca foram assim, mas as portugas por lá eram, e muito: adoravam um cara*** na boca, cara*** era a palavra mais usada por elAs, sim, elAs... Freud faria um belo trabalho ali... 

Afinal, as portuguesas por lá tem fama de odiarem brasileiras. Muitos dizem que é porque as brasileiras roubam os maridos e que tais delas, mas eu digo: do jeito que são bocas sujas, mal humoradas e carrancudas, só era pra eles preferirem a gente... 

Que homem vai gostar de mulher que só resmunga e, eu acredito piamente, ficam com cara de c* na hora H e devem dizer pra eles: já terminou? 
Porque nunca vi tanta carranca na minha vida... bando de mulher mal comida! (também, com aquele jeito doce delas fica difícil fazer bem feito rs) 

Já a Vedrina eu falava diferente: ela f*dia todo dia comigo porque ninguém queria f*der com ela... 

Não dizia pros amigos de pátria, não era doida! mas comentava sempre fora dali. Até onde podia perceber era mais uma solteira com mais de quarenta e a minha teoria era que nem mal comida era, era não comida, e não duvido que tinha perdido noivo ou qualquer outra coisa pra uma brasileira que só de dar oi com um sorriso já faz os portugas fiquem todos alegres! 
 Sim, porque eu não me interessava por eles, mas nunca deixei de ser simpática e todos conversarem simpaticamente comigo, os homens. E acho que se percebe muito facilmente a diferença, não? 

Voltando à Maria das Couves, ela me estressava! Ela me fazia correr e me ameaçar de alguma forma, e já falava mal da Darthvedrina - para ver se eu já falaria mal dela, ehehehe ela pensa que brasileira é burra... - ameaçava eu quero dizer: a Darth vem aí, ela vai olhar, ela vai ver que estamos atrasadas! E o meu andar era imundo! 
Totalmente imuuuuuuundooooooooooooooo! 

Eu não parava de limpar um minuto e a outra me falando que Darthvedrina viria e passaria um papel pra mostrar onde estaria sujo e brigaria comigo... e eu correndo pra terminar até 8:30... Corria como uma louca, não me lembro de ter suado tanto assim e ficado tão atordoada e sempre era a última a chegar pra me arrumar e ir embora... e claro, como Darthvedrina era uma pessoa do bem, ela fazia todos esperarem por mim pra poderem ir embora. 
Todos eram obrigados a esperar a vontade dela pra ir embora, esperar o Let's go. com sotaque luso. Porque havia algumas lituanas, duas russas também lá  nave Serra da Estrela da Morte. 

Acho que foi no segundo dia que realmente Darthvedrina veio com o papel com poeira. 
Ela veio, me parou e mostrou o papel. Eu não sabia que ela fazia isso ainda e apenas olhei pensando que o papel tinha caído em algum lugar... alguém tinha largado e eu não tinha visto, nem reparei se realmente estava sujo ou não. 
E quando eu disse que não tinha visto nenhum papel caído, ela me olhou impaciente e gritou falando que era a sujeira que ela havia achado no andar, que eu precisava ser mais ágil que assim não daria pra eu ficar se não pegasse o jeito. 
No outro dia, ela trouxe o Extreme, o coordenador do lugar, para olhar meu trabalho e ele também veio me dizer o que estava fazendo errado. 

Era tudo pressão em cima de mim que precisa urgentemente daquele emprego. 
No último dia da primeira semana, depois de tanto estresse, correia e preocupações, Maria das Couves acabou, acredito que sem querer, dizendo que aquele andar não era limpo há meses, porque não tinha ninguém para limpar. 
Ou seja: o andar estava imundo que não dava pra ficar limpo em uma semana em 3 horas por dia. Eu havia me matado porque Darthvedrina me chamava praticamente de incompetente por uma sujeira que eu não tinha como dar conta de limpar naquele curto espaço de tempo. 
Quando ouvi aquilo, no final do expediente fiquei tão revoltada, tão cansada e me perguntava que pqp eu estava fazendo em Londres... 
Revolta, desânimo e cansaço, mas tinha que continuar se quisesse fazer o que pretendia. 

Vontade de matar a Darthvedrina não me faltava, mas eu sabia só de uma coisa: ela fazia aquilo comigo porque era muito ruim, tão ruim que era uma pessoa infeliz e eu não seria nenhum pouco como ela. Tanto que a tratava bem sempre, só pra deixá-la com raiva, por dentro ela deveria ficar...

Sabem quando o capitão gancho ouve o som do jacaré atrás dele e se apavora? 
Eu me apavorava só de ouvir o toque do celular da capacete com voz de rouquidão: Take That, era o comecinho dessa...  era o maior sucesso na época...

Mulher com mais de 40, solteira, carrancuda, fã de Take That... é pra se pôr na camisa de força! principalmente se for portuguesa emigrada na Inglaterra...

06 dezembro 2011

Vida de Gado, Vida de Cleaner - parte 2 (terça-feira e sexta)

Como andei contando sobre os donos das casas, terça-feira era pior dia, era o dia da casa da "Feiona" ou porcona mesmo... o nome dela é o mesmo da esposa do Shrek, daí feiona...

Bem, começávamos por ela... era uma casa longe... longe... longe... todas as casas de Marciana são longe... na região de Lewisham, sul de Londres, e do outro lado da rua ficava a casa da amiga dela que também era cliente de Marciana, iriamos pra lá depois... e mais história...

Mas Feiona tinha dois filhos e uma casa como as tradicionais inglesas e não lembro se já falei aqui sobre isso: por fora, você não dá nada, por dentro, ela expande para o fundo e para cima... são enormes!

A Feiona deixava a casa simplesmente emporcalhada... eu não cheguei a conhecer uma pessoa mais imunda que ela, mas várias que chegaram beeem perto, porque inglesa não liga muito pra manter a casa limpa, acha que é só se faxinada algumas horas na semana por uma cleaner...

O primeiro dia que cheguei, já assustei com a cozinha: ela também deixa a louça naquela bacia nojenta, só que a bacia nojenta dela é mais do que nojenta! Toda a louça estava lá no meio da gordura e restos de comida.
Marciana não sabia ligar a máquina de lavar louça (já estou dando uma pista do porquê do apelido dela...) e não me avisou que havia uma e lavei aquela nojeira na mão, claro, jogando beeem longe aquela bacia imunda. E Marciana reclamando comigo porque tem um jeito próprio de se lavar louça na bacia, que é uma combinação com as torneiras fria e quente e eu pouco ligando pro puxassaquismo dela. Combinação de água quente com fria? Jeito certo de lavar? Economizar água?
O caralho pra aquela porquice!

Imagine: o fogão estava todo cheio de porridge, o mingau de café da manhã dos ingleses, cheio de leite grudado com aveia e... Feiona é tão boa dona de casa que para fazer tudo mais rápido, pelo rastro que deixou no chão, tirava correndo do fogão imundo e jogava na mesa de jantar para que comessem, também tinha restos do café da manhã pela mesa e chão, claro!
Todos os cereais das crianças e suas canequinhas etc.

A cozinha, como deu pra perceber era imunda. E Marciana ficava mandando eu limpar melhor a cozinha. Juro que quando vi aquela cozinha desanimei e fiquei pensando que dar uma enganada naquela casa seria o melhor, mas Marciana ia lá e falava pra eu deixar brilhando o vidro do fogão... era pra tirar uma meleca danada! E imagina que Marciana fazia isso toda a semana!
Quer dizer, só uma vez na semana o fogão era limpo.

A sala era enorme, dividida em sala e sala pras crianças brincarem, ou seja: muita bagunça. Era fácil achar pedaços de doces no meio dos sofás.
O banheiro não era tão imundo, afinal, ainda bem! Era janeiro e eles não tomam banho! Mas... a mulher deixava cabelo por todo o lado...acho que ela precisava de um tratamento pra queda de cabelo porque era um inferno de cabelo pra todo canto!
Eu não tinha muito saco mesmo pra limpar aquela imundice toda e tentava dar um jeitinho, mas Marciana pra mostrar serviço (pra mim, claro) ia lá e mostrava como limpar bem. Então que limpasse, a minha mão estava bem, a dela que não estava e numa casa daquelas, não se merecia muita coisa.
O quarto das crianças também não eram tão problemáticos, mas o problema é sempre o carpete... aspirar os malditos carpetes...

Mas não é só isso!
Como diriam aquelas propagandas...
Tinha o quarto da figura pra limpar e eu já disse, elas querem que se faça até a cama, como se fôssemos camareiras de hotel.
Bem, cama desarrumada já era de se esperar, né? mas roupas todas jogada pelo chão?
As inglesas tem uma péssima mania de largar todas as roupas pelo chão ao invés de guardarem no armário ou pôr numa cadeira... fica tudo jogado... não jogado porque ela e o marido tiveram muito o que fazer durante à noite, jogado porque largam a roupa pra qualquer canto, bangunçado mesmo. No quarto que ela tinha pras roupas, com armários, era igual!
Só que ainda há o pior!
Entre os cantos que sobram entre o colchão e a cama havia vários papéis higiênicos dobrados... não tiramos... nem a Marciana dessa vez pôs a mão... e ficaram lá por quatro semanas, porque o casal Shrek não tirou (ogros...), daí, na última semana resolvemos fazer algo: aspirador neles! rs
Só poríamos a mão com luva, mas até assim ficamos com nojo!

Nas outras semanas, dona Marciana me falou da existência da máquina de lavar louça e eu joguei tudo lá, toda aquela melequice e não via a hora de passarem os dias pra não ir mais naquela casa e ao mesmo tempo pensava que precisava daquele dinheiro...

Ah! tinha que se passar a roupa também! E a feiona queria que passasse até a toalha de banho... mulherzinha dos infernos, a casa uma imundice e cada vez inventava uma coisa: pra limpar rodapé, limpar sei lá o quê... como se em quatro horas (quando eu ia era em 2 horas, duas horas pra cada) desse pra limpar a imundice que ela acumulava a semana toda e ainda queria mais coisas!
Só com um "spring cleaning" a casa ficaria decente.
Spring Cleaning é isso mesmo: a limpeza da primavera, porque no inverno (e em todo o resto do ano rs) a sujeira fica lá se acumulando até que um belo dia de "primavera" a dona da casa pensa: oh! essa casa precisa de uma limpeza pesada!

Marciana me pagava 7 libras a hora para ajudá-la. Nessa casa, na da segunda-feira e da próxima, elas eram amigas e pagavam igual: £8,50 a hora. Em algumas casas ela ganhava 12, em outras 10.

Dessa casa, íamos pra amiga da Feiona que tinha um casal de filhos, casa mais bem arrumada, tinham acabado de reformar e para me alegrar a vida colocaram nos quatro andares carpete creme... ah! como eu amava ir naquela casa e passar aspirador cômodo por cômodo, escada por escada... e sempre os malditos carpetes felpudinhos pegavam e não largavam os fiapos de roupa... ah, que lindo que era ver aquele monte de bolinha de roupa naquela merda creme...
E o aspirador que pesava uns 10 kilos... ah, que vontade de jogá-lo pelos 4 andares abaixo... ou na cabeça de quem comprou aquela merda que mal aspirava, só pesava.
A menina, de graça, tinha uma beliche no quarto, só pra ela e eu pensava: vc tem uma beliche porque é divertido quando é criança, né? Vai dormir na minha!

Eu ficava olhando... a mãe levava a menina pra escola e o menino, muito pequeno, pra passear no parque, aí ela voltava, mas como ela era uma mãe estranha... ou todas as inglesas têm essa estranhice maternal?
Ela não fazia almoço, comia um lanchinho como todo inglês e fazia o mesmo com o menino de uns 2 anos que amava Toy Story e tinha os bonecos. Um menino fofo!!
Um dia, ela voltava pra casa com o menino dormindo no carrinho e empurrava, empurrava o carrinho pra entrar e não entrava, tive que ir lá falar e mostrar pra ela: o pézinho do menino ia se enfiando cada vez mais debaixo do carrinho, dobrando por conta da pressão que ela fazia pra empurrar e o tapete de entrada.
O menino não chegou a chorar, mas eu a vi como uma louca que não reparou um só momento e que nem ficou preocupda quando mostrei, só tirou o pé do bebê... e ficou lá... mandando mensagens sem parar no celular, como sempre a via fazer.

Marciana, como boa puxa-saco, achando que a dona da casa se importava com ela, começou a falar que estava com saudade do filho que tinha ido pro Brasil (história pra outro post) e também comentou da enchente no Rio de Janeiro que aconteceu naquele mês de janeiro.
Falava no inglês dela: see the flódi in Rio de Janeiro? My son is in Brazil.
A mulher só olhou pra ela e disse: não sei disso não. E continou com a vida atarefada de mandadora de mensagens por IPhone.

Dessa casa, tínhamos uma terceira, ainda mais longe e que pra voltar tínnhamos que pegar o trem até London Bridge se estivéssemos com pressa.
Era a casa de um espanhol e como bom latino, a casa de um homem solteiro era mais limpa que qualquer casa de uma inglesa casada.
Aí sim fazíamos o que a faxineira faz no Brasil: limpa o que não dá pra limpar no dia a dia com a correria. Era uma casa tranquila, sem grandes problemas por ser muito limpa e organizada.

Mas Marciana acabou dando um grande fora e a máscara de boa mãe, religiosa, temente a Deus, fiel aos bons costumes e honesta começou a cair...
Ela, dias depois, acabou comentando que o espanhol era tão gente boa que como não a dispensou do trabalho por conta de ela estar com a mão operada resolveu pagar além da hora para ela, para a ajudante (ou seja, eu!). Ela sem perceber me contou que era pra eu estar ganhando mais, não só 7 por 1 hora e meia nessa casa... mas acho que 10 por 3 horas! 10,50 para 30 libras é uma boa diferença no bolso meu e, claro, de Marciana...

Quarta e quinta-feira as donas das casas, algumas a dispensaram e até pagaram pra ela ficar em casa, outras não queriam ajudante e só fui numa das casas de quinta, de, como diria a própria Marciana: a casa do gay. Nunca o conheci, mas era uma casa também tranquila e longe, essa era preciso pegar o metrô e era em outro sentido, noroeste de Londres, perto de Wembley.
Só tinha muitas camisas sociais para passar e aí aprendi a passar (ou a enganar) essas horripilantes roupas...
Ela o chamava assim porque fazia a casa do companheiro dele, então, ela sabia bem a vida dos patrões...
Ela não fala inglês, entende pouco, mas acredito que muita das coisas que tenha percebido sobre a vida deles, foi porque anotou e mostrou pro filho, não só esse casal, mas das outras famílias.
O filho mandava e respondia as mensagens do celular para ela. Como já disse, outra história.

E sexta tinha mais! Tinha uma casa também tranquila que era de 15 em 15 dias que se tinha que passar roupa e uma de uma professora quase para se aposentar que Marciana, finíssima, chamava de "a casa da sapatona".
A dona da casa era simpática e até deu uma garrafa de vinho para Marciana e outra pra mim, pelo Ano Novo que se iniciava - o vinho da minha mala, sabem já a história toda dele... - ela conversava bastante e saia para podermos limpar a casa tranquilamente.
Eu não vou esquecer de um dia, arrumando a cama de um dos quartos da casa, que era uma espécie de duas camas juntas formando uma cama de casal com um aparato tipo aqueles de deixar a cama mais alta igual em macas e a mulher de Marte disse: sei lá que cama maluca é essa, deve ser pra imundices de sapatona!
Não sei que tipo de cama era aquela, me parecia pra algum tipo de problema de coluna ou algo assim, mas Martian (rs) como uma pessoa sem preconceito, já tinha julgado e condenado a professora.

Salvem a professorinha!

Havia outra casa na sexta, mas era a mesma de uma mulher da quarta que a dispensou.
E assim minhas semanas de janeiro se passaram, mas antes que janeiro terminasse, tive que conciliar esse trabalho com um durante os finais da tarde, limpando escritórios, nooooooooooo

Império do Fado!
(próxima parada)