29 abril 2012

O Império do Fado - parte 2: conhecendo personagens

Além de DarthVedrina, minha chefe amada, trabalhavam comigo outros conterrâneos dela - daí o Império do Fado -, algumas pessoas eram até simpáticas comigo, principalmente os homens, porque, como eu já disse: portuguesa, na grande maioria das vezes, odeia brasileira.

Elas me olhavam com um olhar que talvez nós brasileiros tenhamos herdado delas: aquele olhar de medir as pessoas e julgar. E nesse julgar aparente, já dava pra entender que eu havia sido condenada, sempre olhavam com cara feia pra mim e nunca me cumprimentavam.
Só que eu resolvi fazer diferente: chegava na prédio e no local que esperávamos pra trabalhar, cumprimentava a todos: "boa tarde! good evening!" (o último para as lituanas, a russa e o ucraniano). Isso, para as portuguesas, deve ter gerado um: como é metida! Mas eu só queria fazer o meu trabalho sem o peso do mau humor delas, que era contagiante!
Tinha uma que sempre estava de tão mau humor que até a fisionomia dela já tinha se moldado: as bochechas estavam sempre carrancudas, mesmo enquanto conversava, ou mesmo se ria de alguma baboseira, sempre acompanhando o jeito zangado de ser, os músculos já não saiam do lugar.

Não que português seja uma pessoa feliz, é só ouvir o fado para você saber que é da natureza do português - e porque eu tenho parentes, como você já leu aqui, portugueses. A maioria deles são fatalistas e não conseguem enxergar muito além do que vivem, não são pessoas esperançosas, uma grande maioria, principalmente os mais velhos e minha tia tinha até, digamos, um bordão: é assim a vida...

Só que esses não eram melancólicos, ou essAs, eram recalcadas.
Tinha uma que falava mais que a boca, o tempo todo com as amigas, eu passava por ela e ela empinava o nariz (como diriam os italianos la puzza sotto naso - o fedor debaixo do nariz). Minha vontade era virar para ela e dizer: olha aqui, eu sei de que buraco que você chama de aldeia você saiu, então, faz esse tipo de a poderosa pros seus patrícios quando você for lá e dizer que é executiva da limpeza em Londres.

O clima era ruim, as pessoas mal se falavam, só os portugueses quando se juntavam pra tomar café nas máquinas de café dos escritórios enquanto os outros que eram seguidos de perto por dona Darthvedrina trabalhavam.
Havia uma sala de máquinas de café, sucos etc no nono andar, o povo chegava e, ao invés de trabalhar, ficavam todos lá bebendo café e falando. Eu, mesmo trabalhando no segundo andar, tinha que passar todo dia ali para buscar e levar meu hoover.
Eu não tinha um aspirador pra mim, o do meu andar havia sido escondido numa salinha de materiais de limpeza por uma... (adivinha!), e ela que trabalha só duas horas por dia e mais faltava do que vinha, ficava com o hoover.
Meu miguxo por meses
Como eu sei que era o meu? Por que ele tinha escrito nele com caneta piloto "segundo andar fulana de tal" o nome da fulana que trabalhou no andar antes de mim, ou seja, o hoover era do meu andar e eu deveria usá-lo e não buscar um outro, em outro prédio, que tinha ligação com esse pelo nono andar (e só me contaram que tinha ligação também no meu andar muito meses depois) todos os dias e devolver, claro!
Então, eu passava todos os dias ali e ficava só olhando aquele bando que não fazia nada, deixava tudo sujo e só enganava - a limpeza em Londres sempre vai se encaixar em "para inglês ver" não vai ter jeito.
E a chefona deles compactuava com isso, mas para fingir que era chefe, ia praticar seu assédio moral na brasileira, na angolana e nas lituanas, além de uma russa.
Havia também um brasileiro que trabalhava lá, mas como ele trabalhava há anos ela já não tinha o que ficar no pé: era estável.
Esse espaço com as máquinas foi fechado depois, acredito que alguém do escritório viu a chacrinha que virava ali e mandou pôr na porta código, só os funcionários do andar sabiam e a russa que ali limpava e não dava o código aos portugueses que só a odiavam mais ainda.

Eu como instável fazia o possível para deixar tudo limpo, mas sempre Darthvedrina achava algo novo pra mim.

Havia um rapaz que pegava o lixo por vários andares, inclusive o meu, ele era a figura, ele e uma amiga dele que limpava os banheiros, mas passavam a maior parte do tempo batendo papo e perna pelos andares. Procuravam de tudo para "levar" com eles: bolos, bolachas, chocolates, qualquer quitute que o povo deixava nas mesas ou deixava numa parte para que todos comessem; usavam os cremes de mãos que o povo deixava nas suas respectivas baias, perfumes... o que eles encontravam pra usar e comer, eles pegariam, nem que fosse um lápis com um desenho diferente. Liam os jornais e revistas, levavam embora. Numa das baias havia até um recado: "depois de ler, não leve o SEU jornal para casa"... mas alguns nem entenderiam a ironia... duvido...
Eu costuma pegar revistas, mas as que já tinha jogado no lugar pra reciclagem de papel.
Esse rapaz passava e batia papo comigo, perguntava coisas sobre o Brasil, principalmente porque ele tinha a Record internacional e assistia ao Gugu e comentava. Ele adorava o Gugu, achava o cara mais do bem da face da terra...
Também queria saber se o Rio era daquele jeito que ele viu no Fast and Furious, no filme que se passa no Brasil, eu disse que não sabia, não conhecia o Rio.
Perguntava se eu era crente, porque a maioria dos brasileiros que ele conhecia eram, disse que não. Ele sempre perguntava se ia na igreja de domingo, porque os outros iam... disse que ia numa Casa Espírita e ele ficou com medo e eu disse que não era nada demais: que quando morremos não é o fim e que era uma doutrina que começou a ser difundida por um francês chamado Allan Kardec.
E ele: ah! o jogador do Benfica?????

Bem, eles também eram fanáticos por futebol e passavam, os homens, a maior parte falando de futebol (enquanto fazia aquela 'pausa' no trabalho), mesmo eles fazendo todo esse corpo mole por serem estáveis, eram simpáticos comigo, mas só, não espere mais que isso: nunca sabiam de outro trabalho, nunca sabiam de um quarto para alugar... todo mundo ali ajudava português, brasileiro, não.
Só que brasileiro também não ajuda brasileiro e... como fica?
Fica na merda... como fiquei...
Acho que eram simpáticos porque eu disse que meu pai é português, que tinha família em Portugal e todos serem Benfica.

Havia uma moça que limpava o banheiro do meu andar e outros; trabalhava ela e o marido, o marido também tirava lixo dos andares. O esposo era o tipo carranca mesmo. Até o dia que ela ficou doente e perguntei se ela estava bem, ele me continuou com a carranca e só falou "está", cara fechada para não ter mais papo...
Ela era simpática comigo, talvez porque era obrigada a dividir o mesmo espaço de materiais do meu andar comigo e o mesmo tanque para encher os baldes dos mops.
Ela sempre me sacaneava: ela limpava o banheiro feminino que ficava bem na entrada de uma das alas, jogava todo o resto da sujeira - que ela não pegava com o mop - no carpete daquele corredor. Todo dia eu era obrigada a limpar exatamente aquela parte daquele carpete, mesmo quando não era dia da limpeza pesada daquela ala. Todo dia eu era obrigada a passar o hoover ali, todo dia eu tinha que ir caçar uma extensão para o fio do hoover, porque ficava justamente longe das tomadas aquela parte.
Um dia, Darthvedrina estava no meu pé e viu aquela sujeira ali e veio reclamar e eu disse que era o que a moça da limpeza do banheiro jogava pra fora e o que ela respondeu?
Você tem que ser mais displicente e dar conta do SEU trabalho.
Deveria pertencer à Darthvedrina, ela precisava -
percebam o tamanho comparando com o porta durex
Sim, meu trabalho!  (Ah, em Portugal quer dizer que eu tinha que ser mais ágil -  esse uso do displicente - Vejam que eu sempre tinha que ser ágil, até para dar conta do trabalho mal feito dos outros.)

Ah! A mulher que limpava os banheiros no meu andar tinha um outro emprego de camareira num hostel, perguntei se tinha vaga, ela disse que não, que era pequeno e só ela e outra menina davam conta e mesmo nas férias de uma delas tinha a pessoa certa para cobrí-las.
Um dia ela disse que ia sair desse emprego, mas não ia indicar ninguém.

Um dia Darthvedrina se divertiu: me pegou passando o mop nesse resto de sujeira...
Ela finalmente mostrou um riso naquela cara de carranca, deve ter doído muito fazer força e mexer os músculos da face...
Fiquei morta de medo, precisava do emprego.
Outro dia Darthvedrina me dava a parede da copa para eu limpar: era coberta por uma espécie de massa que virava o tal do papel de parede deles. Ela queria que eu tirasse todas as marcas de café dali.
Explico: era a parte que ficava bem do lado do lixo, o povo jogava os copos de café e chá e, conforme jogavam, manchavam aquela parte, coisa de anos e como não era azulejo, não havia produto de limpeza que tirasse.
E ela dizia pra mim: limpe aí todo dia que você consegue tirar a sujeira.
Outro dia ela vinha e falava que eu não estava passando o hoover direito: que eu tinha que passar em cada cantinho perto dos batentes das portas, que eu tinha que tirar a parte da vassoura do aspirador e só passar com o cano para limpar tudo...
Eu me sentia tipo o Capitão Gancho ouvindo de longe o barulhinho do jacaré que vinha querendo comer minha outra perna....
Estava sempre alerta, mais que um escoteiro.
Porque ela sempre dizia: desse jeito não vai dar pra você ficar aqui...
Num dia de desespero total com medo de ser mandada embora eu subi nas mesas do escritório para limpar.
Sabe aqueles cantos que você não alcança?
Pois é! Eu sabia que seria ali que ela ia passar o papel para pegar a poeira e brigar comigo. Daí decidi subir em cima das mesas e limpar tudo, cantinho por cantinho. Sempre com medo que ela chegasse e me visse em cima das baias.
Até ir embora de lá, limpei dessa forma, em pouco tempo, não tinha muito porque limpar "galgando" baias, tudo tinha ficado limpo, era só passar uma "flica" (feather - no caso, espanador), como diria a portuguesada, e ficava tudo ok.

Nunca aquelas alas ficaram tão limpas quanto devem ter ficado comigo. Mais limpas que isso, só quando inauguraram - se é que limparam a sujeira antes disso... o que tenho dúvidas...

08 abril 2012

Vida entre brasileiros

Em dezembro de 2010 tinha deixado esse rascunho aqui:

Comunidade Brasileira em Londres: nunca eu digo NUNCA espere ajuda de brasileiros aqui, claro, eu achei umas quatro pessoas muito boas aqui... e o resto... é resto! O resto te olha como se você fosse tomar o emprego dele, que quisesse entrar numa ordem secreta e te dizem: ah, tá, eu vou ver se tem alguma vaga e te falo... A ordem secreta se explica, hoje, depois de 5 meses eu entendi que sou mal vista porque tenho passaporte europeu ORIGINAL de família, ou seja, um DIREITO meu garantido. A maioria está ilegal e tem medo de você, tem medo porque você pode conseguir um emprego melhor e medo que você o dedure para a imigração, como muitos fazem. Muitos brasileiros com visto britânico fazem isso e muitos portugueses também são acusados disso, só que eu não quero confusão com ninguém, quero que cada um viva a sua vida e deixe a minha em paz, o que nem sempre acontece. Além disso, há muitos brasileiros com passaporte europeu original e britânico que não te ajudam em nada: "se eu sofri, você merece pastar também", o egoísmo total. 

Meu pensamento não mudou muito, a partir daquele momento até tentei não ter tanto preconceito com "gente da minha terra", mas acabou sendo inevitável.
Os brasileiros realmente se fecham para outros brasileiros - não só por serem ilegais, mas realmente não gosta de ajudar. Ajudam se você for inglês ou alguma nacionalidade considerada superior (brasileiro não perde a mania de se sentir colonizado).

Estava infeliz vivendo com a marcação serrada da xereta Marciana e "não dormindo" no mesmo quarto que a Bruxa do Centro-Oeste. Minha Roommate do bem viria pro Brasil em abril e eu ficaria só, mais só do que já me sentia. Precisava mudar.

Procurei no famoso Gumtree, o site mais popular de classificados na Ilha. E, por isso mesmo, o mais cheio de golpes. O golpe mais comum (e como brasileira eu já reconhecia logo de cara ser um golpe) era da família que iria se mudar pra um outro lugar (US, África etc) e precisava de alguém para cuidar da casa, ou seja, era praticamente só cuidar de um apartamento enorme em Notting Hill (você não desconfiaria?), o preço era irrisório, algo como 100 libras por mês. Havia esse mesmo tipo de anúncio para emprego: você receberia 1000 libras por mês (aumentou 10 vezes!) para ser a governanta da casa.
Não encontrava nada que parecia bom e barato.

A mãe da minha professora de inglês, uma brasileira e elas precisam de alguns capítulos aqui, me falou sobre uma amiga que alugava quartos na região nordeste de Londres, lá na longíqua zona 3 quase 4, na Central Line. Fui ver o quarto.
Chegando lá, descobri que era pra dividir com um rapaz. Bem, como ele é gay você pode dividir sossegada. É o que sempre dizem por lá e muita gente faz isso. Iria me cobrar 60 libras a semana - eu pagava 50, mas era praticamente zona 1 e só pegava um ônibus por 15 minutos e estava no trabalho.

Lá teria que dividir o quarto com um homem - não deixa de ser um pra mim - e pagar 10 libras a mais: além de que teria que gastar dinheiro com transporte pra chegar lá, teria que pagar o metrô ou seria quase inviável. Ou seja: de 1,30 de busão, teria que pagar pelo menos 2,90 (preços só de ida).
Mais 10 do quarto e ainda teria um dia da semana para limpar a casa (onde estava já era incluído na limpeza da Marciana, que reclamava todo final de semana pra limpar, mas era o acordo dela, ela queria o quê? que eu ficasse com dó e além de pagar o aluguel dela ainda ia limpar o muquifo?).

Não achei viável e também ouvi algo que não gostei.
Elas são espíritas (a mãe da teacher e a dona da casa) e eu também.
Frequentava uma casa espírita pequena e que deixavam as crianças atrapalharem as sessões (filhos dos próprios voluntários que chegavam quase no final da sessão) e comecei a me irritar pela falta de indisciplina, tinha saído de lá para ir ver a casa.
E contei para a mulher sobre não estar gostando disso e a dona da casa veio com uma de "ah, mas dever o único horário que a mãe tem pra ir e o filho deve ser o maior necessitado que você".
Sim, todo mundo sempre na minha frente...
Como eu já andava com a tal da estima lá no inferno (sorry, mas tenho que usar MESMO essa palavra). Ouvir alguém me dando lição de moral naquele domingo à noite já bastava, se era tão espírita como dizia por que não conseguiu enxergar que estava diante de alguém que estava extremamente vulnerável a qualquer comentário?
Ainda mais porque a própria mãe da teacher tinha me dito que essa "dona da casa" (ela só era a Landlady e ela limpava a casa e a dona mudou e deixou que ela alugasse porque era de confiança) com a filha que trabalhavam de cleaner estavam ilegais e... faziam o que queriam na casa das donas: inclusive dormiam nas camas das donas das casas quando estava cansadas de limpar, comiam a comida etc.

Então, cadê sua moral pra falar que eu não tenho paciência com uma pobre criança de dez anos que fica jogando bolinha durante a palestra e a mãe que chega no final só pra ser a primeira a receber o passe?
Antes de jogar pedra em mim, olhe se você também não merece um paralelepípedo na cabeça!
Se ela fosse uma madre Tereza de bondade e benfeitora eu engoliria: a mulher é um ser acima que preciso chegar e alcançar, mas se você faz barbaridade na casa das suas patroas, não vem falar de mim porque eu não vou aceitar!
E não aceitei...  o preço e os termos já não compensavam e eu como uma alma perdida em Londres, senti que realmente nunca conseguiria encontrar uma pessoa que me ajudasse e me desse pelo menos uma mão para me dizer: calma, Regina!
Não, ninguém era capaz disso.

Na escola-ong de brasileiros, para dar aulas para filhos de brasileiros (preciso comentar sobre lá, né?) havia uma maioria de legais e nem por isso me tratavam melhor.
A professora para a qual eu era assistente de sala, quando perguntei a  todos se ninguém sabia de algum quarto para alugar veio com as pedras nas mãos:
Você acha mesmo que vai achar algo barato em Putney? (a maioria morava por lá, mas eu não tinha dito que queria morar lá) Olha, nem adianta ficar procurando, nem tem lugar barato para morar lá e ninguém aqui sabe de nada. Ainda se fosse em Parsons Green... (perto de Putney, zona 2 oeste de Londres)


Fiquei tão chocada com a doçura dela que nem falei que não estava procurado exatamente em Putney... A voz não saía... e os outros olharam de lado e ninguém falou nada...

Depois me acostumei com a doçura dela quando a vi xingando o marido na frente de todos... vi que ela era doce assim de natureza e que o marido, mesmo sendo brasileiro, não devia estar dando conta... Deve ser difícil dar conta de tanto fel...
Ela mesma tinha me falado pra eu ser babysitter e procurar no... Gumtree... (todo mundo só me dizia: já procurou no Gumtree?)
Afinal, poderia morar na casa das pessoas...

O que achei no Gumtree não era babysitter nem Nanny, era escrava: moraria na casa, ganharia algo em torno de 80 libras por semana, com uma folga na semana e não teria horário pra estudar.
Uma das mulheres com quem falei, uma norte-americana se me lembro bem, disse: como assim você quer estudar? Não tem horário pra isso, você tem que cuidar das crianças durante o dia e a noite!

E a maioria é assim.
Lembro de ter visto um anúncio em St John's Wood (região bem classe alta londrina) que pagavam 5£ a hora para ser babysitter ( salário real para uma babysitter morando em casa seria por volta de pelo menos 10 se não morar na casa a partir de 12, o salário mínimo era 5,93 - o que ganhava no Império)
Comentei com uma brasileira e ela só me disse: você não quer? vai ter uma filipina pra fazer isso.
Ou seja: filipino é o escravo do londrino.

Também acabei me traumatizando depois do caso italiana... comecei a sentir que sou uma inútil e irresponsável com crianças.

Tentava arrumar um emprego e um quarto por minha conta, ia à agências imobiliárias, procurava empregos no site do governo também e nada... mandava meu c.v para todos os lugares... e nada... tristeza porque tentei muito. Passava o dia todo em sites de emprego.
Fiquei até sem estudar para ver empregos e casas e nada.

Chegava depois do trabalho, cansada e desesperada comentando que precisava achar outro emprego e Marciana vinha como a dona de toda a sabedoria:
Porque você não quer trabalhar o dia todo! Quem quer arruma emprego! Trabalha até de madrugada!

E eu:
E quando vou estudar? Vim aqui pra isso?

Woman from Mars: Estuda de noite... sei lá... Quem quer faz tudo que quer aqui!

Se eu tivesse para onde ir, teria saído dali, mas não tinha... Além de pagar para aquela vaca, ainda tinha de aturar desaforo de quem se acha porque se mata para sustentar família chupim no Brasil...

Outra na escola de brasileiros me disse: por que você veio aqui pra Inglaterra no meio dessa crise? Deveria ter vindo antes!

Eu:  Só agora consegui juntar dinheiro pra vir... não consegui antes... estava juntando... demora...

(ela morava lá já uns 7 anos... o pai pagou curso e tudo e aí ela arrumou um passaporte britânico: um marido inglês que deu emprego pra ela na empresa de telecomunicações de lá)

A todo momento ouvia coisas legais de todos os brasileiros... a mãe da teacher até tentou me arrumar um emprego na escola que trabalhava para ajudar na hora do almoço das crianças, mas a cucaracha me tirou do páreo, pôs uma amiga que ficou uns 3 meses no emprego... e eu sem nada por todo aquele tempo... (quer dizer, só com o Império no final da tarde).

A mãe da Teacher achava que eu não me esforçava... era engraçado pra mim aquilo: todo mundo achava que eu não me esforçava...
Será que era porque todo mundo tinha realmente chegado numa época melhor e não conseguia enxergar porque eu não conseguia me virar logo?

Só quando conheci brasileiros que moram em Londres há 20, 30 anos eles me entenderam e me disseram: essa não é a mesma cidade como a conhecemos, mudou muito... e pra pior... (só isso me consolou).

21 março 2012

Há um ano...

Há um ano "comemorei" meu aniversário em Londres.
Fiz aniversário por lá.

Foi um dia normal: sozinha durante o dia, a tarde na companhia de Darthvedrina e recebi os parabéns das minhas roommates: Marciana, Bruxa do Centro-Oeste e Roommate do Bem.

Depois do trabalho, passei no Sunsbury's e comprei uma torta de morango pra fingir que era um bolo.
Cheguei na Cohab, tive que descongelar no microondas e parti com elas o meu bolinho sem graça.

Falei com minha mãe antes do trabalho, fiquei triste por não ter ninguém, por não ter com quem comemorar de verdade e nem fazer uma comemoração.
Na verdade, como eu tinha 4 dias de férias pra tirar antes de abril chegar - porque lá em Londres as empresas fecham o ano em 31 de março então, se vc não tirar suas férias até essa data: perdeu, perdeu!
Um desses dias eu fui no show do Foo Fighters, em fevereiro (calma, que terá post!) e os outros 3 dias, juntei com o final de semana e fui, no final de semana seguinte, com a Roommate pro Porto e Barcelona, com os bons e queridos preços da Ryanair (que também será uma postagem).

Falei com alguns amigos daqui via msn, apesar da diferença de 3 horas que não parecem muito, mas matam alguém que já está mal (e eu ainda tenho q contar muito nesse período do que aconteceu entre o show dos Manics até essa data e mais depois...) e por isso encontrei poucos on line, mas as mensagens foram fundamentais pra continuar.

Hoje posso dizer que foi um dia muito bom!
Muito carinho e lembranças e isso faz todo a diferença, há 3 meses de volta ao Brasil, eu penso todos os dias em Londres, mas não me arrependo de ter voltado estar perto das pessoas que amo.
Só fico arrependida quando "sinto na pele" a educação aprendida no inferno pelos brasileiros, fiquei ainda mais chata e irritada com isso...
Mas, como diz o Travis: nosso lar é onde está nosso coração. (meu coração poderia mudar pra Escócia rs)

11 março 2012

21 de janeiro de 2011 - Manic Street Preachers at O2 Academy Brixton

Em janeiro de 2011 assisti meu segundo show em Londres, dessa um show grande, o primeiro.
Fiquei preocupada por estar sozinha e como seria a multidão e preferi comprar um ingresso na parte de cima da Academy Brixton.
O show era pra  ter se realizado em 28 de outubro, mas James Dean Bradfield teve uma laringite e o show foi remarcado para janeiro.
Em novembro, meu problema era morar longe de Brixton, morava na região de Dalston Kingsland, começo do norte de Londres e já tinha até descoberto um ônibus para pegar na estação de Old Street e ou Angel para voltar para casa - depois de chegar até ali de metrô (pela Northen Line).
Com a mudança do show e da minha residência as coisas melhoraram: "Elefantinho Castro" é bem perto de Brixton e em 15,20 minutos de busão estaria em casa (estaria antes, mas os buses de Londres andam devagar para os padrões brasileiros) um único busão.
Cheguei a pegar o ônibus e ir conhecer o ambiente, ainda não conhecia Brixton, mas Marciana (uma descendente legítima de Dinamarqueses, como diria Caco Antibes) disse:

Você vai até Brixton????
Cuidado! Lá muito perigoso! Só tem preto! (imagina, ela não era uma pessoa preconceituosa e muito menos tinha descendência negra, nem os filhos e o marido de uma das filhas que era negro).

E começou a me falar de uma história que aconteceu com o casal polonês: que no verão eles tinham voltado daquela região espancados, que uma "preta" tinha encarado a polonesa e puxou pra briga e os dois tiveram que ir pro hospital, espancados pela "gangue de Brixton". E ela dizia que viu que eles não chegavam e estava preocupada, porque só voltaram no outro dia e tinham virado a noite no hospital.
Ou seja: ela estava tomando conta dos inquilinos, a hora que chegariam e tal. O filho deve ter traduzido o que aconteceu pra ela, acredito eu, porque ela não fala nada e mal entende o inglês.

Bem, fiquei com medo de Brixton porque ela "botou o terror", até eu chegar lá de ônibus e ver o lugar e pensar: peraí! Como assim? Aqui é normal... melhor que Elefantinho Castro! Uma estação de metrô muito, um cinema com arquitetura bonita, praça para as pessoas baterem papo e muito comércio! Um comércio muito melhor do que o da cohab elefante! E ônibus pra cidade toda.

Perdi o medo, fiz o percurso de volta, e só tinha um problema: o meu querido Império do Fado. Estava trabalhando lá a pouco tempo e não poderia faltar, se Darthvedrina queria me botar pra correr, era essa a hora!
Como o show teria abertura de duas bandas (uma menor e Britshi Sea Power - os shows em Londres começam cedo) fui olhar direitinho os horários para cada banda para ver se daria pra assistir depois do trabalho (eles também respeitam os horários fixados, pontualidade, realmente britânica) e os Manics entrariam no palco às 9:15pm e eu saía do trabalho 8:30h, era curto o tempo, mas teria que pegar o metrô ali do lado, St James Park, e trocar na próxima estação, em Victoria, para ir até o final da linha: Brixton e pelo que conheci da região, eram 5 minutos andando até a Academy Brixton.
Tudo cronometrado, naquele dia corri com o trabalho para poder me trocar no mesmo horário dos outros e sair quando a Vedrina dissesse Let's go! E foi!
Encontrei a portuguesa do trabalho no metrô, inclusive Extreme e sua noiva/esposa sei lá o quê e olhou tudo sério pra mim, agora não fez gracinha, né?
Quando o metrô chegou uma estação antes de Brixton, o trem parou, não foi adiante, em Stockwell, ora pois! (bairro português) - na hora não me toquei, só depois me lembrei que foi o mesmo que aconteceu com Jean Charles: o trem parou antes de Brixton e teve também que descer ali.
Como não conhecia a região e só sabia que estava perto, fiquei desesperadamente procurando um ônibus pra Brixton, me disseram um, que passou em frente à Academy, só que eu não percebi e desci no ponto do metrô, voltei correndo como louca, ainda eram 9:05 (transporte que funciona é outra coisa...).
Cheguei, fiquei sem minha garrafinha de água, entrei e vi como era o palco de cima.

A Academy Brixton é um lugar bem bonito por dentro, imita arcádias clássicas. Fiquei impressionada com a beleza do lugar. O palco estava na minha frente, mas teria que muitas vezes, se quisesse uma foto boa, levantar pra tirar - estava num local sentada - o que me arrependo até hoje, porque o povo não levantou, como imaginava que aconteceria...

Nervosismo, cansaço, mas estava lá.
E os Manics entram...

Enlouqueci e não queria mais sentar... mas fui obrigada, educação é educação, respeito é respeito e isso é bem cobrado por lá, não é uma zona!
Ao ver aqueles três caras, ali embaixo, só pensava que era uma sonho realizado, mas queria muito estar na parte debaixo pra pular.
As músicas ao vivo e a voz de James Dean Bradfield são ainda mais cristalinas ao vivo... e que voz, Bradfield... realmente uma das mais lindas.
Todos são grandes músicos e sentadinha deu pra prestar ainda mais atenção nisso: você deixa de ser macaca de auditório e passa a saborear a melodia e perceber as nuances do som, o jeito de tocar, a forte ligação e entrosamento dos caras e como eles tocam muuuito!

Um casal, mais pra lá do que pra cá (ou seja, normal para o padrão inglês) começou a ficar de pé e eu vendo se mais pessoas ficavam em pé, não, o povo não se movia e o cara pediu para o povo se levantar e nada! A mulher do cara ficava com um copo de cerveja balançando e dançando, atrapalhando todo mundo e nem assim... o povo foi irredutível... fiquei triste, estava a fim de levantar e pular! (guardem esse casal, eles aparecerão aqui novamente rs)

Mesmo sentadinha, vibrei e cantei muito com eles, feliz a cada música que amo, principalmente quando fecharam o show com Design for a Life! E o povo finalmente resolveu levantar pra cantar (e ir embora, o que estranhei). Vibrei muito naquela cadeira e amei cada instante de estar ali ouvindo uma banda que amo e que não sei se um dia tocará aqui no Brasil.

Não houve bis, aí sim estranhei muito... Como assim, não tem bis? E as pessoas foram embora como se fosse a coisa mais normal do mundo - tá certo, tocaram 22 músicas, mas bis é bis, né?
O povo foi embora, o palco se apagou e as luzes se acenderam e aí tive mesmo a certeza de que era hora de ir embora... não sem tirar fotos também do lugar.

Fiquei totalmente sem palavras... fui pro ponto de ônibus que ficou cheio, a rua estava cheia, pessoas iam pros pubs e cheguei são e salva por volta de 11:30 na cohab.
Nenhum problema, nada demais, uma noite normal de semana em Londres para a maioria, diferente pra mim que tinha visto pela primeira vez os Manics.



Claro que comprei camiseta no final.

Setlist aqui.

17 fevereiro 2012

O Império do Fado - parte 1, do começo

Já citei várias vezes aqui e citei muito no meu twitter sobre o Império do Fado, mas ainda não contei sobre lá... 
Let's go! 
 
Estava eu desesperada para arrumar um emprego (janeiro 2010), procurava no JobCentre, ligava pra ex-alunos de português e fiquei fazendo algumas faxinas, como já leram. 
E ai minha roommate tinha uma lista de lugares que poderiam contratar, uma lista de agências e empresas de limpeza e serviços. 
Liguei para todas, algumas o número já havia mudado, outras não tinham nada ou ficaram de me ligar e eis que em uma o cara me disse: venha amanhã e traga seu c.v. 
Fui. 
Do lado da Victoria Station, mas eu ainda errei o caminho e me apavorei porque estava atrasada e nem tive problemas com isso, o cara que disse para eu ir até lá não estava e um português pediu pra eu falar com um outro português. 
Tudo bem até aí, o que me atenderia era do leste europeu e eu não vou lembrar de onde... O português, vamos chamá-lo de Extreme (mesmo nome do vocalista portuga da banda), falou que sim, tinham vagas e precisavam urgente de alguém para um prédio ali perto, só que como estávamos numa quinta e sexta seria fechamento do pagamento. 
Então, comecei na segunda. 

Os pagamentos, na maior parte dos lugares ou é feita semanalmente ou quinzenal, alguns lugares preferem quatro semanas trabalhadas, não se conta mês e sim as semanas trabalhadas. 

Teria que trabalhar das 5:30 às 8:30 da noite, limpando escritórios da TfL (Transport for London) eles têm vários prédios e a minha vaga era no prédio da Saint James Station, em frente à New Scotlan Yard. O que era bem fácil pra mim, tinha um busão que me deixava do lado do trabalho. 

Quando cheguei, dei de caras com um mundo de portugueses, o prédio é dominado pela Ilha da Madeira principalmente, Minha supervisora, que deveria me ensinar o trabalho também era portuga. 
No primeiro dia, disse o que eu deveria fazer e o outro supervisor que tinha o mesmo nome de um falecido tio meu me explicou o que deveria ser feito. 
Ela me disse que se eu não entendesse muito bem tudo, durante aquela semana, colocaria uma pessoa pra me treinar. Tudo bem. Então, na terça ela já pediu pra outra portuguesa me ensinar o trabalho. 
Aí começa o problema... 
No primeiro dia ela, como dizem, mostrou os dentes como se fosse uma pessoa decente, no segundo dia, mostrou as garras, mostrou que pertencia ao lado sombrio da força e que ela não era Anakina e sim... 

 Darth Vedrina (o nome dela terminava em drina mesmo... feminino de Alexandre... daí precisa emendar um nome do mal, né?) 

No segundo dia e no resto da semana ela pediu para que uma outra amiga dela me ensinasse, só que o ensinasse era apenas organizar meu tempo entre todas as tarefas, o que eu ainda não tinha noção pra fazer. Era uma andar todo pra mim, menos os banheiros, eu tinha que limpar quatro alas. 
Uma ala por dia era a limpeza mais pesada e nos outros eu só teria q passar pra verificar o que tinha pra fazer de urgente durante a semana e na sexta fazer uma checagem geral. 

O que se fazia em cada ala: tirar pó das mesas e cadeiras, limpar com mop as pernas das mesas e cadeiras (e isso eu fazia quase nunca porque não dava tempo), passar aspirador na ala toda, limpar todos os dias a copa do andar e outra pia que ficava na parte de serviço, passar o pano (ou "mopar") as cozinhas (copa e esse lugar com outra pia), limpar armários e portas e limpar portas de vidro de todas as alas por causa das malditas marcas de mãos nos vidros. SÓ isso em 3 horas. 
Mas, claro, eu poderia descer 8:20 para me trocar! 

A rapariga que era pra me ajudar, me pôs pra ajudá-la a limpar o andar dela também - não tinha alguém pra substituí-la, então, tínhamos dois andares pra fazer e correndo como louca! 
A gorducha que me ensinava não teve a coragem me dizer o nome e nem de me perguntar o dela... Só para vocês terem ideia da simpatia... na verdade, ela não era uma pessoa ruim, mas vai ser antissocial assim lá na Casa do Cara***, opa! 

Até que eu disse o meu nome e perguntei o dela, lá pra quinta-feira... era mais um Maria entre 500 que tinham lá com um segundo nome pra diferenciar uma da outra. 
Apesar de conhecer a fama boca suja dos portugueses e ter um exemplo em casa, minhas tias nunca foram assim, mas as portugas por lá eram, e muito: adoravam um cara*** na boca, cara*** era a palavra mais usada por elAs, sim, elAs... Freud faria um belo trabalho ali... 

Afinal, as portuguesas por lá tem fama de odiarem brasileiras. Muitos dizem que é porque as brasileiras roubam os maridos e que tais delas, mas eu digo: do jeito que são bocas sujas, mal humoradas e carrancudas, só era pra eles preferirem a gente... 

Que homem vai gostar de mulher que só resmunga e, eu acredito piamente, ficam com cara de c* na hora H e devem dizer pra eles: já terminou? 
Porque nunca vi tanta carranca na minha vida... bando de mulher mal comida! (também, com aquele jeito doce delas fica difícil fazer bem feito rs) 

Já a Vedrina eu falava diferente: ela f*dia todo dia comigo porque ninguém queria f*der com ela... 

Não dizia pros amigos de pátria, não era doida! mas comentava sempre fora dali. Até onde podia perceber era mais uma solteira com mais de quarenta e a minha teoria era que nem mal comida era, era não comida, e não duvido que tinha perdido noivo ou qualquer outra coisa pra uma brasileira que só de dar oi com um sorriso já faz os portugas fiquem todos alegres! 
 Sim, porque eu não me interessava por eles, mas nunca deixei de ser simpática e todos conversarem simpaticamente comigo, os homens. E acho que se percebe muito facilmente a diferença, não? 

Voltando à Maria das Couves, ela me estressava! Ela me fazia correr e me ameaçar de alguma forma, e já falava mal da Darthvedrina - para ver se eu já falaria mal dela, ehehehe ela pensa que brasileira é burra... - ameaçava eu quero dizer: a Darth vem aí, ela vai olhar, ela vai ver que estamos atrasadas! E o meu andar era imundo! 
Totalmente imuuuuuuundooooooooooooooo! 

Eu não parava de limpar um minuto e a outra me falando que Darthvedrina viria e passaria um papel pra mostrar onde estaria sujo e brigaria comigo... e eu correndo pra terminar até 8:30... Corria como uma louca, não me lembro de ter suado tanto assim e ficado tão atordoada e sempre era a última a chegar pra me arrumar e ir embora... e claro, como Darthvedrina era uma pessoa do bem, ela fazia todos esperarem por mim pra poderem ir embora. 
Todos eram obrigados a esperar a vontade dela pra ir embora, esperar o Let's go. com sotaque luso. Porque havia algumas lituanas, duas russas também lá  nave Serra da Estrela da Morte. 

Acho que foi no segundo dia que realmente Darthvedrina veio com o papel com poeira. 
Ela veio, me parou e mostrou o papel. Eu não sabia que ela fazia isso ainda e apenas olhei pensando que o papel tinha caído em algum lugar... alguém tinha largado e eu não tinha visto, nem reparei se realmente estava sujo ou não. 
E quando eu disse que não tinha visto nenhum papel caído, ela me olhou impaciente e gritou falando que era a sujeira que ela havia achado no andar, que eu precisava ser mais ágil que assim não daria pra eu ficar se não pegasse o jeito. 
No outro dia, ela trouxe o Extreme, o coordenador do lugar, para olhar meu trabalho e ele também veio me dizer o que estava fazendo errado. 

Era tudo pressão em cima de mim que precisa urgentemente daquele emprego. 
No último dia da primeira semana, depois de tanto estresse, correia e preocupações, Maria das Couves acabou, acredito que sem querer, dizendo que aquele andar não era limpo há meses, porque não tinha ninguém para limpar. 
Ou seja: o andar estava imundo que não dava pra ficar limpo em uma semana em 3 horas por dia. Eu havia me matado porque Darthvedrina me chamava praticamente de incompetente por uma sujeira que eu não tinha como dar conta de limpar naquele curto espaço de tempo. 
Quando ouvi aquilo, no final do expediente fiquei tão revoltada, tão cansada e me perguntava que pqp eu estava fazendo em Londres... 
Revolta, desânimo e cansaço, mas tinha que continuar se quisesse fazer o que pretendia. 

Vontade de matar a Darthvedrina não me faltava, mas eu sabia só de uma coisa: ela fazia aquilo comigo porque era muito ruim, tão ruim que era uma pessoa infeliz e eu não seria nenhum pouco como ela. Tanto que a tratava bem sempre, só pra deixá-la com raiva, por dentro ela deveria ficar...

Sabem quando o capitão gancho ouve o som do jacaré atrás dele e se apavora? 
Eu me apavorava só de ouvir o toque do celular da capacete com voz de rouquidão: Take That, era o comecinho dessa...  era o maior sucesso na época...

Mulher com mais de 40, solteira, carrancuda, fã de Take That... é pra se pôr na camisa de força! principalmente se for portuguesa emigrada na Inglaterra...

10 fevereiro 2012

Changes (Turn and face the strange)

Uma das coisas que tenho percebido é que eu ando mais antissocial do que era.

Bem, acho que sim...

Como passei por muitas aporrinhações na minha solidão londrina, acho que acabei por me acostumar a ser sozinha e ando meio de saco cheio de gente... é muito estranho... mas parece que eu não tenho vontade de nada que tenha o tema "gente" no meio.

Já fui convidada para festas e não fui, só de pensar em estar no meio de um monte de gente eu já me sinto sufocada. E muitas vezes já me cansa só de pensar em festa... (a depressão parece estar me dando um oi)

Claro que também não tenho nenhum tostão, vocês sabem e saberão como tive uma vida de privações das brabas...

Outra coisa, parece que tudo que fazia sentido antes não faz mais agora...
Por exemplo, eu fazia depilação com a mesma mulher aqui em Sampa há muitos anos, fui até lá, fiz e não pretendo voltar lá!Só porque eu achei que ela não deu a mínima para conversar comigo e ficou só falando do caso do BigBosta...Vai ver eu ando carente demais que queria a atenção de todos... não sei... eu tenho atenção das pessoas, mas sei lá o que deu... saco cheio...
E outra: meus pelos estão todos encravados, coisa que nunca aconteceu comigo. Um ou outro é normal, mas agora foi demais! Talvez eu tenha me acostumado com o método de lá e minhas pernas se adaptaram e agora voltou ao antigo método e o calor...

Mas a questão é que parece que muita coisa que fazia antes, com pessoas que conhecia antes não fazem o menor sentido pra mim.

Não estou falando de TODOS os amigos, mas algumas pessoas, ao menor sinal de que não estou agradando, eu não pretendo me prender...

Eu já andei comentando, antes de sair de Londres que me acostumei a ficar sozinha e isso pra mim tem sido bom, porque não vou mais ficar chorando pelas pessoas, você tem a certeza de que é sozinha e sempre será sozinha: live together die alone! Já diria o doutor Jack Shepard...

E depois de um acontecimento ontem, tive mais certeza de que não me prendo a ninguém...
Uma amiga não entendeu o texto sarcástico que compartilhei no facebook e começou a me dizer sobre "se você fosse mãe não postava isso porque isso é exu" disse algo assim...

E, quem acompanha esse blog desde o começo sabe o que esse "como você não é mãe" já me fez sofrer duramente. Então, mais um pouco, e realmente, é menos uma amizade que preferiu ficar falando da sua nova ordem no mundo e agora "mulher de bem" do que entender que havia um "SARCASMO" escrito em letras garrafais. Afinal, essa pessoa deveria entender porque era uma foto da nossa antiga faculdade, e que ela deveria ser a primeira pessoa a lembrar como as coisas funcionam lá e conhecer muito bem esse sarcamos pra ficar dando uma de "mulher de bem"... e não se tocou da frase acima...o pior é que eu escrevi na postagem respondendo a tal amiga: realmente, fulana, eu não sei como é ser mãe e talvez nunca saiba porque há 95% de chance de eu não saber...
E nada! E a pessoa não entendeu o que eu quis dizer! Continuou na história de mãe de bem...

Não fico chateada mais por não ser mãe, não estar casada. A verdade é que eu nem me enxergo mais assim. Não consigo me ver desse jeito, nessa vida de filhos e marido... parece que não se encaixa comigo mais... acho que as coisas tem prazo pra acontecer e se não aconteceu, sua vida anda e pronto, não tem volta.
Posso estar enganada, mas assim que me sinto. E não me sinto mal por isso, só pensativa sobre o que seria melhor.
A verdade é que se estivesse amarrada a marido e filhos, não tinha feito toda essa minha trajetória e nunca saberia como seria. Eu pelo menos sei como é morar fora e conhecer lugares e pessoas diferentes que casada, pagando contas e sem vida, naõ saberia... São escolhas...
Foi a minha e não acho que os outros têm o direito de jogar um "como você não é mãe" na minha cara.

Acho que se as pessoas não conseguem pensar antes de falar e escrever e não conseguem ver meu lado, também não pretendo ver o lado de ninguém e seguir em frente sem gente para me falar coisas inúteis, das quais nem estávamos falando...

É, eu também ando beeeem egoísta.

E na escola? Na escola eu não dou mais a mínima pros alunos. Só faço meu trabalho. Dou atenção se se interessam, senão, fuck off!

Não pretendo me estressar nunca mais com gente boçal! (fiquei arrogante também...)





A postagem no facebook continua lá, menos a conversa nessa parte, preferi deletar aquelas postagens a deletar a amiga, por enquanto. Assim como bloqueei pessoas que possam vir a me estressar, mesmo não estando entre meus amigos, estou cautelosa a encrencas... porque, sabem, se um amigo pode lhe estressar, imagine alguém que não gosta de você e pode entender mal uma postagem sua no mural de amigo em comum...

27 janeiro 2012

Da depressão, do colchão e tudo mais...

Quando comecei a morar na casa da Marciana, foi tudo muito duro pra mim, principalmenter por ter que dividir quarto. Eu sempre direi isso: foi uma das experiências mais horríveis da minha vida. Tanto que hoje, penso muito em Londres, mas não troco meu quarto no Brasil pra dividir com nenhum fdp em terras londrinas.

Um quarto com três pessoas, um quarto não muito grande, mas cabia a cama da bruxa, a beliche, 3 pequeníssimos guarda-roupas (apenas duas portas sem nada, sem gavetas) uma cômoda caindo aos pedaços - as gavetas, se você mexia, desmontavam e o nosso maravilhoso varal que já contei que a Bruxa se sentia a dona.

Era um ambiente extremamente triste pra mim, que relutei até o dinheiro acabar para dividir quarto. A maior parte das minha coisas ficavam em sacolas, caixas de sapato dentro do guarda-roupa, em cima dele e, uma mala cheia de roupas debaixo da beliche - que consegui colocar com muito custo.
Minha vida estava enfiada dentro daquelas coisas, sem espaço, meu laptop, dentro da mochila. 
E um colchão, um colchão de faquir como cansei de falar, porque o que existia era um retângulo coberto por um pano cheio de molas dentro. Só se sentia as molas, se dormia mal, quando se dormia...

A bruxa preferiu ficar sem cama: colocou o colchão no chão e tinha um edredon a mais só para "acertar" o problema do colchão. Eu e a roommate da beliche não tínhamos outro jeito senão mudar de lado e ver se dava jeito, o que não adiantava muito. Eu dormia na parte de cima, cheguei por último... e foi o que tive...
Demorava até meses pra lavar minha roupa de cama por causa do trabalho de tirar a roupa de lá e, por conta também do problema de estender no varal e a Bruxa tirar, levava na lavanderia pra secar.
Na verdade, eu estava era muito deprimida pra dar bola pra lavar roupa. Usava uma mesma roupa por quase um mês. Sério! Tudo isso para não ter que usar o "varal da bruxa" e não me estressar e eu pensava: e daí? tá frio, ninguém repara, ninguém liga...

As molas realmente machucavam, no começo fiquei preocupada. Achava que era por causa do trabalho pesado de limpeza das casas que acordava com meus braços dormentes. Depois percebi que só poderia ser aquilo que chamavam de colchão...
Muitas vezes tinha que tentar dormir de um mesmo jeito sem me mover para que a mola não me machucasse, principalmente na costela e perto do estômago.
Fiquei realmente preocupada achando que estava com um problema muito grave de saúde (o que com certeza eu ganhei...) de acordar com aqueles braços sem movimento. Imagina você acordar e seu dedo mindinho parece não estar ali... não ter movimento, não sentí-lo!
Algumas vezes me desesperava de medo com isso.
Não tinha mais como chorar sozinha à noite. Se quisesse chorar era quando todos já tinham ido trabalhar, mas tendo certeza disso.
O banheiro era ainda pior que da outra casa, não tinha casais tomando banho, mas a banheira sempre entupia e duas vezes aconteceu comigo e Marciana me olhava como a culpada e não a velharia mal cuidada que aquele lugar era...
O microondas esquentava a caneca e não o que tinha nela. O elevador sempre cheio de xixi... uma vez era cheirando maconha, outra vez, até fralda suja (e você achava que não poderia ouvir que isso acontece em Londres, né? como eu já disse, morava na Cohab Elefante Castro onde o fim da linha da humanidade de qualquer canto do mundo morava).
A única coisa legal era numa das casas vizinhas que tinha um senhor que sempre passeava com a labradora dele, a Kia, já idosa e fofa e ele também um senhor simpático que falava comigo, um inglês.

No mais do tempo, principalmente enquanto só ajudava Marciana, ficava muito mal. 
Minha depressão deve ter estado num dos estados piores porque eu comecei a sofrer demais. A achar que ninguém realmente se importava comigo e cheguei, aqui, a fechar meu blog porque ninguém comentava. 
A carência era grande, a tristeza insuportável em alguns momentos, mas tentava me focar no que tinha ido fazer lá e por mais que me dissessem: volta pro Brasil e para com isso!
Eu dizia não.
Porque na minha cabeça voltar era o mesmo que dizer: só gastei dinheiro e piorei minha depressão. Tinha que ter algo além daquilo, tinha que tentar mais um pouco.
Fui teimosa e doente.
Sofri muuuito ali dentro.
E morando com a Marciana que sempre jogava uma indireta do tipo: quem quer trabalhar trabalha até virando a noite - percebam, eu não nunca deixei de pagar aluguel pra ela, mas ela se sentia no direito de julgar as pessoas. Sempre se achou a dona da razão, achava que eu tinha que trabalhar o dia todo e estudar quando desse, só que ele não conseguia entender que não tinha ido lá pra trabalhar como uma mula com ela!!!!
E ela me ajudava mais ainda, a Bruxa não deixava eu dormir e minha Roommate me convidava pra sair todo o final de semana, mas eu estava muito mal para achar que me divertiria de verdade. Até me divertia, mas...  a Roommate tinha toda a atenção sempre e eu fui me sentindo ainda pior! (isso deverá ser uma postagem)
Quando comecei então a trabalhar no Império do Fado e sofrer assédio moral por Darthvedrina aí que eu não via mais solução para nada...

Nesse período ainda, um ex-namorado meu começou a namorar e aí sim eu me senti um lixo, porque todo mundo que o conhecia o achava o maior loser da face da terra e quando ele arrumou uma namorada eu pensei: eu sou pior que o maior loser da face da terra! 
Então, imaginem que eu devia me sentir o pior ser vivente e que não queria viver nesse mundo.
Essa história do ex ainda deu mais problemas: a atual namorada me descobriu (ou ele deu toda a minha ficha pra ela) e ela apenas tirava o sarro da minha cara com os amigos via twitter. (tenho que contar melhor depois...)
E aí, nesse tempo ainda tiveram os casos da Italiana 1, 2 e da Botocada para me ajudarem ainda mais!

Agora, as imagens:
Minha mala debaixo da cama e meus sapatos
tampa do vaso sanitário
conseguem perceber como era a "cortina"?



teto do quarto



a tal cômoda e as coisas da bruxa
nossa maravilhosa veneziana
minha cama na parte debaixo, qdo a room foi embora
cantos da parede do quarto
meu guarda-roupa
cama da bruxa no chão






a bagunça da minha cama - já no chão




O que eu queria mesmo nessa postagem era pedir desculpa a todos os amigos que de algum modo eu tenha magoado de tão louca que fiquei nessa época.

Desculpem! Minha consciência pesa e sofro muito por ter magoado pessoas que tentavam me ajudar de alguma forma. Sinto muitíssimo e espero nunca mais agir da mesma forma.

11 janeiro 2012

1 mês de volta ao Brasil

Amanhã, exatamente, fará um mês que estou de volta ao Brasil.

Calma! Ainda tenho muito o que contar, esse blog não acaba assim, falta muita coisa ainda... mas talvez o meu antigo blog volte a funcionar, tudo depende de o quanto eu consigo me virar em atualizar tanta coisa, mas por enquanto tenho o que contar de lá e da minha readaptação de cá.

O que mais tem sido difícil pra mim é a educação das pessoas.
Depois que você se acostuma às pessoas evitarem qualquer tipo de contato com você - não no quesito antissocial, mas sim no quesito, respeitar seu espaço. O inglês tem um jeito diferente de dizer que te respeita, e eles têm o maior respeito para não encostar em você e te aborrecer.
Para eles é simplesmente ruim esbarrar em alguém, mesmo que seja numa balada todos estejam bêbados, ele sempre dirá: sorry! I am so sorry!

O brasileiro não, parece que faz questão absoluta em te esbarrar e praticamente se esfregar em você pra mostra a presença dele.
Nem em ônibus cheio um inglês esbarra em você e se isso acontecer, ele falará sorry e ficará muito, muito sem graça.

Então, você começa a andar por aí e todo mundo quer passar literalmente por cima de você num frenesi (nem é o filme do tio Hitch) maluco para estar na frente, na frente na entrada do busão, na entrada do metrô (do trem eu nem falo) passar na sua frente na escada, passar na frente na rua...
Brasileiro parece ser um total obcecado para que fique sempre na frente, sempre levando vantagem em tudo, nem que seja na calçada atropelando a velhinha que vai de bengala.
E aí começa a te empurrar com o corpo, com a bolsa, com o que puder porque ele TEM que ficar na frente, mesmo que ele vá descer no ponto final, na última estação, ele quer ficar na sua frente, na porta, ele é o porteiro-mór.

A linguagem que as pessoas usam, pelo menos como eu moro em findomundópolis..., vocè só ouve imbecilidades, conversas totalmente baixas e muitos, muitos palavrões. O brasileiro não tem vergonha de expor sua vida pra qualquer um. É legal andar no trem e falar do cara que pegou, da mina que catou, da vizinha que quase você meteu a mão na cara.


As pessoas tomam conta do seu espaço e do outro em bancos, filas e tudo mais.


Segunda-feira, no trem, um cara estava com um altofalante e foi o caminho todo tocando a porcaria, quando desceu em Itaquera (Curintia!! aeee!) talvez alguém tenha avisado aos guardas do que o cara fazia, mas quando o cara desceu em Itaquera ele mostrou a língua por guarda!!!!!!!!!

Daí que educação não é só o problema, o problema é que quem tem que cumprir leis, não as cumpre, faz papel de idiota e, vai continuar sendo chamado de coxinha enquanto fizer vista grossa pra tudo. Nunca em Londres um cara sairia sem algum tipo de advertência, no minimo, por ter feito de bobo uma "autoridade". E olha que nem arma eles usam.
Mas existe algo lá que não existe aqui e é muito grave: respeito. E que se faça respeitar.

Não é proibido agora o celular no banco?
Fui na CEF e várias pessoas receberam ou fizeram chamadas na minha frente, na cara do guarda que fez, novamente, vista grossa.
Eu acredito que um dos bancos onde as pessoas devem ser mais assaltadas seja a CEF, por conta do FGTS etc, e deveria ser o local que mais essa lei deveria ser cumprida.

Lei não pega no Brasil porque não é cumprida e quem deveria garantir seu cumprimento finge que não tem nada com isso.

É medo?
Bem, a maioria dos funcionários públicos não parecem ter medo e deixam em todas as repartições que desacato a eles dá cadeia ou multa. Então, quando um segurança ou policial vão se mexer e fazer o mesmo e fazer valer o cumprimento de leis?

Vai dizer que vem de cima?
A lei veio de cima, agora é cumprir.

O transporte público é ruim e caro. As novas estações do metrô da linha amarela consigo enumerar o que tem de errado, como a plataforma pequena e com a escada rolante quase em cima do trilho, um mix de metrô de Paris e Londres, mas onde as plataformas são realmente espaçosas nas estações mais novas.
Mesmo assim, ainda achei boa a linha e ela até está tentando colocar o povo pra ficar na escada rolante do lado direito, se "pegar" vai ser ótimo!

Você começa a ver as condições de trabalho e vida das pessoas e percebe a diferença gritante.

Não soube da existência de uma "cracolândia" em Londres, mas sei que eles são muito coerentes e certinhos e não fariam essa coisa de jogar todo mundo na rua sem ter pra onde ir e continuarem a se drogar cidade a fora.
Por mais que não pareça pelos meus relatos, Londres acaba sendo muito mais humana nesse tipo de caso.
Londres não foi humana comigo porque vivi cercada sempre, infelizmente, de brasileiros que, como eu disse lá no começo, só querem levar vantagem em tudo e muita, muita falta de sorte (acho que não era pra eu viver mesmo lá, destino, talvez).

Os preços das coisas também me assustam e é engraçado lembrar que McDonalds aqui tem status classe média... enquanto lá é comido em larga escala por ser barato e considerado ruim, mas algo como um mal necessário. Os atendentes aqui tem um sorriso no rosto, os de lá, chegam até a serem sarcásticos e parecem te odiar por entrar na loja. Daí as lendas de que eles fazem de tudo com o seu prato antes de chegar em você e nem quero saber o que fizeram com o meu!

Claro que já estranhei o calor - o "frio" dos dias chuvosos que só andei de camiseta e minha mãe falando pra eu pôr uma blusa porque estava 20 graus (e isso era o máximo da felicidade pra um inglês) - não peguei um verão forte por lá, mas entendo perfeitamente porque o inglês gosta tanto do verão e até do horário de verão: eles mal conhecem dias quentes e no verão, quando tem sol até as 9 da noite é a alegria total! Afinal, agora, deve estar escuro às 4 da tarde por lá...

Fiquei pondo na balança tudo.
Por enquanto, o melhor pra mim é ficar aqui.
Porque é cômodo: tenho um quarto pra mim, tenho todas as minhas coisas por perto e o principal: tenho amigos de verdade e família do lado.
Não me sinto tão solitária como me sentia lá, mas aprendi muito com essa solidão, ela me ajudou a encarar as coisas de outra forma.
Talvez até de uma forma ruim, quem sabe?
Porque eu percebi que não preciso de ninguém e já não me importo muito.
Não, calma!
Com as pessoas que amo e sei que gostam de mim nada mudou. O que mudou é com o restante, já não me importo tanto se vão ou não gostar de mim, se falam isso ou aquilo: que se dane!
Parece que criei uma carapaça, fiquei mais dura pra enfrentar as coisas.
Até minha fluoxetina eu parei há meses e não estou tendo problemas de depressão... mesmo com minha volta que pensei que teria que tomar assim que comecei a ouvir os noticiários da TV...

A questão da segurança também mexeu comigo: no primeiro SPTV que assisti, virei pra minha mãe e falei: quero ir embora!
Nos primeiros dias, pensei que ia ter uma síndrome de pânico.
Saí para resolver coisas e escondi meu computador, máquina fotográfica, ipod e tudo mais de medo de ser roubada, coisa que não faria antes...
Mas você desacostuma a ouvir a todo momento falar de assaltos, sequestros, mortes e roubos...
E isso é muito estranho!
É muito estranho ter ônibus noturno e chegar em casa às 3 da manhã andando duas quadras a pé sozinha. E aqui ter medo de sair de dia pra ir na esquina.
Cheguei a reclamar com a minha mãe por terem falado pros vizinhos que eu estava em Londres, falei: vão fazer um sequestro relâmpago comigo, vão achar que ganhei dinheiro em Londres!

Mas agora passou, estou mais calma.
Meu medo agora é ser ainda mais intolerante com as coisas erradas do Brasil, afinal, eu descobri que SIM existe lugares em que as coisas são feitas de acordo com o que deve ser e existe um respeito mútuo...

Meu primeiro passo intolerante já estou pensando em dar: nunca mais votar e só pagar multa.
Acho que o noticiário fez  mais mal pra mim do que um monte de gente esbarrando em mim a todo momento... mas o tempo dirá o que vai ser...
E se for pra voltar pra Londres, eu já digo: só morando sozinha, não divido quarto nem casa com ninguém, muito menos se for brasileiro! Esses, eu pretendo ver beeeem longe se voltar pra lá.
Claro, tirando algumas raríssimas exceções, não mais que umas 3 ou 4 pessoas.

Dividir quarto foi a pior experiência que já tive na vida.
Até brinquei dizendo que nem com o Gerard Butler eu dividiria quarto.

Mas em breve saberão de mais traumas que minhas roommates me trouxeram...

Em resumo: só volto pra Londres se for pra ter vida, senão fico aqui que tem gente que ainda me atura rs
Ou quem sabe uma tentativa em Edimburgo, um dia, quem sabe?

20 dezembro 2011

Marciana... e quem foi que disse que as mulheres são de Vênus?

Marciana é o exemplo perfeito do imigrante que o único objetivo é juntar, pensar, falar e se obcecar por dinheiro.
Ela está há quase 7 anos em Londres, chegou com um filho de 9 anos que, quando fez 15 (ano passado) não quis mais ficar, mas vocês entenderão o porquê...

Como boa parte dos imigrantes sem formação alguma no Brasil, ela também mente ou manda a família mentir no Brasil sobre seu trabalho: faxineira "horista", como já expliquei que diarista aqui não existe. No Brasil, a mãe diz para todo mundo que a filha é babá de uma família bem sucedida espanhola e que a filha fala o inglês e o espanhol na casa. E não que ela fala o português da maioria: pra MIM comprar, pra MIM ganhar... e assim por diante além do famoso bordão que ela sempre usava: "o tempo não passa, Avoa em Londres".
Avoa é a mulher do avon, né? Pois é...
Não que tudo isso fosse problema se ela fosse uma pessoa humilde. Se você é humilde, diz que estudou pouco e tenta aprender o correto, eu sempre lhe verei como uma pessoa boa e esforçada, mas quando você mente e ainda por cima quer dar aula de "ingrêis", portunhol e português pra mim, perdeu! perdeu!
Além de querer da aula de lição de moral ou qualquer outra coisa sem ter o mínimo de, digamos, jeito pra coisa, por favor: não se meta no meu caminho porque eu não aturo!

Uma das palavras mais famosas no meu twitter é: puMbi.
Quem ainda não sabe, Marciana queria dizer pub.
Como ela nunca se mostrou uma pessoa que quer aprender o correto, deixamos que falasse errado, ela se achava superior, então... pumbi é pumbi!
Ou pãmbi, na sua pronúncia que daria inveja à duquesa de Cambridge. A qual marciana diria: QUEM???

Sim, quase 7 anos no Reino Unido não fizeram com que ela soubesse algo do lugar onde estava, como muitos dos brasileiros ilegais (e acho que legais também) que lá vivem (sim, já estou no Brasil, primeira postagem aqui).

Marciana é o tipo de pessoa que confia em quem não deveria e desconfia de quem não merece desconfiança...
Por exemplo, em seus 6 anos dividindo casa com brasileiros, ela acreditava mesmo que alguns dos seus "convivas" eram ricos no Brasil - e, pelo menos, 3 contaram essa história da Carochinha pra ela - diziam ser fazendeiros em... adivinhem...
E uma dessas tantas vezes eu perguntei:
Como assim se ele é filho de fazendeiros vem trabalhar como cleaner em Londres? Não era pra vir pra estudar e morar sozinho?
E ela:
Você não está entendendo! Ele quer ser independente da família! Fazer as coisas dele! Fazer a vida dele! Está batalhando!

Sei... acredito... e... não saber falar inglês, né? A família má nunca pagou um curso pro coitado que vivia rodeado por ectares e ectares de terra e cabeças de gado... devia até estudar na escola da fazenda, nunca foi até a capital... que judiação!

Ela acreditava em coisas imbecis como essa... e realmente, ouvi outros brasileiros contarem essa asneira de serem ricos no Brasil e trabalharem na faxina etc em Londres... mas... era eu só fazer a minha cara de "como eu acredito em você, tá escrito trouxa na minha testa?" que paravam, mudavam de assunto ou tentavam dar como verdadeira essa história pra outro...
Comigo, só mostrando a escritura da fazenda, que ainda assim desconfiaria se era verdadeira...
Bem, a pessoa pode ser rica e querer fazer sua própria vida, claro, mas se você fica ilegal em Londres, por favor, né? E se teve tanto dinheiro a seu favor, nunca aprendeu nem a falar sua língua direito?
Me engana que eu gosto! Já diria Marciana!

Ela ficava a noite toda brigando com os filhos no Brasil.
Ela e a Bruxa e ainda ouvi uma mulher no ônibus também fazendo isso: se eu estou pagando tudo e me matando aqui, vocês têm que fazer o que mando aí no Brasil! (acho que é melhor fazer uma postagem só sobre isso...)

Minha outra roommate, a quase do bem (claro que isso vai ter postagem rs) tentava ser legal com ela na maior parte das vezes, ela como uma pessoa extrovertida, tentava animar Marciana para fazer outras coisas que não apenas juntar dinheiro pros filhos gastarem no Brasil.
(Marciana acredita piamente que ainda vai comprar uma casa BOA e MOBILIADA DO JEITO QUE ELA QUER e ainda ter um carro BOM na garagem no Brasil, depois de 6 anos em Londres e mal conseguir comprar um apartamento num local que foi um lugar de brigas entre polícia e ex-moradores que lá tinham se assentado - na zona leste de Sampa - ela tentou comprar e não deu certo, então... )

Bem, a roommate tentava animá-la a sair com a gente nos finais de semana.
Marciana sempre cuidava do que fazíamos, sempre dava um jeito pra "jogar o verde" pra descobrir, como se não soubéssemos que ela estava se mordendo de curiosidade pra saber onde estávamos, mas muitas vezes nem adiantava dizer, ela simplesmente não sabia onde ficava a maior parte das coisas em Londres, só conhecia  "ócsfórrrdí" porque era lá a agência de remessa de dinheiro pro Brasil e alguns outros pontos que ela era obrigada a passar de busão pra ir até a Oxford St.
(as filhas devem ter passado o Natal com ela e no telefone ela falava pra filha: o que vocês vão fazer no Natal aqui? ué? eu vou fazer um almoço e a gente vai ficar aqui em casa, não tem NADA pra fazer em Londres - né verdade?)
Ela também cuidava se chegássemos mais tarde que o horário costumeiro de semana e, se ela pudesse, cuidaria até do que fazíamos quando ela não estava presente.

Numa dessas "animações" da roommate, que adorava mostrar as roupas etc que comprava nas lojas em liquidação depois do boxing day, Marciana também se animava e comprava coisas que via na casa das patroas.
Ela comprou uma dessas bandejas de plástico (tipo loja de um real) com a Union jack flag (QUÊ???? HÃ??? diria Marciana) e falava toda feliz:
Vocês não acham o máximo, super chique levar pro Brasil pra receber as pessoas na minha casa?

A Roommate sempre dizia "fan-tás-ti-co" (era a palavra preferida dela), ela queria encorajar Marciana, deixá-la alegre, eu no começo também queria porque sabia que ela sofria por estar longe dos filhos, mas quando você começa a conhecer melhor as pessoas você entende porque os filhos devem preferir ficar longe...
Achei brega, claro e uma coisa que na 25 você vai achar, não precisa trazer de Londres, foi feito na China mesmo!

Daí, numa dessas compras, Marciana comprou um livro absolutamente interessantíssimo e muito bem feito sobre a Segunda Guerra, capa dura, páginas com fotografias e documentos de época. Ela tinha visto um igual na casa de uma das patroas e comprou, falou que era muito "fã" da Segunda Guerra que sempre pesquisava sobre o assunto e tudo mais.
E então eu olho pra capa e digo:
Churchill!!!
E ela: HÃ????
Churchill! O Primeiro Ministro na Segunda Guerra!
E ela continuou com cara de paisagem... parecia que eu acabei de falar em grego com ela... quer dizer, em inglês.

Marciana queria ser igual suas patroas ou melhor - mania de toda brasileira em Londres ou no Brasil... e que deveria mudar, cada um ser o que é e não ser igual ao outro ou melhor -  então, comprou o livro porque deveria ser chique tê-lo e não porque, talvez, alguém da família dessa patroa presenciou a Guerra... imagina! Não pode ser História da família da patroa, é minha também! Meu pai foi amigo do Churchill... quem?

Com essa história de Marciana ser "fã" da Segunda Guerra e morávamos super perto do Museu da Guerra, a Roommate sempre falava de irmos, mas com a Marciana junto. Ficava na minha, estava me adaptando à casa e tentando fazer amigos.

E fomos! Depois de inúmeras vezes que Marciana não pode, conseguimos.
O Museu, para quem gosta de História é maravilhoso! Eu adorei!
Mas só eu levei a câmera para tirar fotos...
Daí Marciana queria MANDAR nas fotos que eu tirava, falando pra tirar foto daqui e dali, porque depois ela ia querer as fotos pra pôr no orkut...
Já cheguei de saco cheio, já tive que virar fotógrafa dos outros na entrada, onde tem até um pedaço do muro de Berlim, mas marciana queria tirar foto do jardim e os canhões do jeito dela (depois quando viu a foto que tirei e pus de capa do álbum ficou: é, você tirou uma boa foto, né?)
Você querer tirar fotos suas é uma coisa, outra coisa e encher o saco falando onde e como quer as fotos e ainda queria que EU fizesse pose pra ela tirar fotos minhas tipo... na frente de canhões... adoro!
E naquele momento da minha vida, eu estava passando por uma crise brava de depressão... amigos chegados devem lembrar de como fiquei, afinal, não dormi à noite e dividir quarto num moquifo não era nenhum pouco fácil.
Daí ela queria que eu fizesse pose pra fotos e eu falava: ESTOU GORDA! e ela ficava falando que eu não tinha que ficar deprimida que isso, que aquilo, pra eu me animar...
Really? No Museu da Guerra na frente de um canhão?

Bem, resumindo, visitar o Museu foi uma bosta com elas. A Roommate já tinha visitado com umas amigas e ficou dando uma de guia chata de turismo que controla sua visita, sabe?
Ah, essa galeria é chata! Só tem quadros! Vamos pra outro lugar.
Que ódio!
Eu estava em menor número e tentando ser legal, mas quando vou num lugar como esse e GRATUITO eu quero ver tudo!
E, claro, galerias têm quadros...
E a cada sala que passávamos, as duas entendiam muito pouco e eu toda animada só dizia "ah, isso é aquele acontecimento tal, igual no filme tal" e as DUAS com cara de paisagem e eu:
Vocês nunca viram a Lista de Schindler? Resgate do Soldado Ryan? O Pianista? Arquitetura da Destruição (é, esse eu forcei ahahaha) etc; não sabem quem é Anne Frank?

Quase virei pra elas e disse: por que vocês não morrem e me deixam curtir esse momento de cultura em paz? Se vocês dizem saber bastante da Segunda Guerra não precisam de mim...

Em um dos momentos altos da visita, Marciana vira para a Roommate e diz: nossa, essas crianças morreram de anemia! (vendo uma das fotos de uma das salas de exposição)
E a Roommate ri a plenos pulmões fingindo ser de outra coisa que ela lembrou e eu de saco cheio, já não prestava mais atenção nas placas etc
deixei passar...
Ela foi me contar em casa que estava escrito "enemy" (inimigo, Marciana, é inimigo em inglês!) e Marciana achava que era anemia...
Perdi a piada bem na hora que aconteceu!

Em um dos locais, havia como era a vida nos anos antecedentes à Guerra, uma casa montada no estilo inglês da época e tudo mais, além de uma estrada de tijolos amarelos e uma tv na parede passando cenas de O Mágico de Oz, 1939. E Marciana simplesmente NUNCA tinha ouvido falar do filme...

Foi aí que eu fiquei ainda mais indignada...
Como alguém que nasceu em 1962 (gente! ela nasceu numa época de mudanças!) nunca na vida tinha ouvido falar em Mágico de Oz e nunca visto nem a propaganda da exibição dele na Globo??? Como????

Daí eu tirei a conclusão: ela não é desse planeta!
Ela é de Marte!

E daí surgiu o apelido...

Não se preocupem, logo vocês saberão ainda mais dessa figura... como no episódio, do show dos Manic Street Preachers, em Brixton, que ela falou: mas você vai naquele bairro de PRETO?

Detalhe, Marciana é afro-descendente.

06 dezembro 2011

Vida de Gado, Vida de Cleaner - parte 2 (terça-feira e sexta)

Como andei contando sobre os donos das casas, terça-feira era pior dia, era o dia da casa da "Feiona" ou porcona mesmo... o nome dela é o mesmo da esposa do Shrek, daí feiona...

Bem, começávamos por ela... era uma casa longe... longe... longe... todas as casas de Marciana são longe... na região de Lewisham, sul de Londres, e do outro lado da rua ficava a casa da amiga dela que também era cliente de Marciana, iriamos pra lá depois... e mais história...

Mas Feiona tinha dois filhos e uma casa como as tradicionais inglesas e não lembro se já falei aqui sobre isso: por fora, você não dá nada, por dentro, ela expande para o fundo e para cima... são enormes!

A Feiona deixava a casa simplesmente emporcalhada... eu não cheguei a conhecer uma pessoa mais imunda que ela, mas várias que chegaram beeem perto, porque inglesa não liga muito pra manter a casa limpa, acha que é só se faxinada algumas horas na semana por uma cleaner...

O primeiro dia que cheguei, já assustei com a cozinha: ela também deixa a louça naquela bacia nojenta, só que a bacia nojenta dela é mais do que nojenta! Toda a louça estava lá no meio da gordura e restos de comida.
Marciana não sabia ligar a máquina de lavar louça (já estou dando uma pista do porquê do apelido dela...) e não me avisou que havia uma e lavei aquela nojeira na mão, claro, jogando beeem longe aquela bacia imunda. E Marciana reclamando comigo porque tem um jeito próprio de se lavar louça na bacia, que é uma combinação com as torneiras fria e quente e eu pouco ligando pro puxassaquismo dela. Combinação de água quente com fria? Jeito certo de lavar? Economizar água?
O caralho pra aquela porquice!

Imagine: o fogão estava todo cheio de porridge, o mingau de café da manhã dos ingleses, cheio de leite grudado com aveia e... Feiona é tão boa dona de casa que para fazer tudo mais rápido, pelo rastro que deixou no chão, tirava correndo do fogão imundo e jogava na mesa de jantar para que comessem, também tinha restos do café da manhã pela mesa e chão, claro!
Todos os cereais das crianças e suas canequinhas etc.

A cozinha, como deu pra perceber era imunda. E Marciana ficava mandando eu limpar melhor a cozinha. Juro que quando vi aquela cozinha desanimei e fiquei pensando que dar uma enganada naquela casa seria o melhor, mas Marciana ia lá e falava pra eu deixar brilhando o vidro do fogão... era pra tirar uma meleca danada! E imagina que Marciana fazia isso toda a semana!
Quer dizer, só uma vez na semana o fogão era limpo.

A sala era enorme, dividida em sala e sala pras crianças brincarem, ou seja: muita bagunça. Era fácil achar pedaços de doces no meio dos sofás.
O banheiro não era tão imundo, afinal, ainda bem! Era janeiro e eles não tomam banho! Mas... a mulher deixava cabelo por todo o lado...acho que ela precisava de um tratamento pra queda de cabelo porque era um inferno de cabelo pra todo canto!
Eu não tinha muito saco mesmo pra limpar aquela imundice toda e tentava dar um jeitinho, mas Marciana pra mostrar serviço (pra mim, claro) ia lá e mostrava como limpar bem. Então que limpasse, a minha mão estava bem, a dela que não estava e numa casa daquelas, não se merecia muita coisa.
O quarto das crianças também não eram tão problemáticos, mas o problema é sempre o carpete... aspirar os malditos carpetes...

Mas não é só isso!
Como diriam aquelas propagandas...
Tinha o quarto da figura pra limpar e eu já disse, elas querem que se faça até a cama, como se fôssemos camareiras de hotel.
Bem, cama desarrumada já era de se esperar, né? mas roupas todas jogada pelo chão?
As inglesas tem uma péssima mania de largar todas as roupas pelo chão ao invés de guardarem no armário ou pôr numa cadeira... fica tudo jogado... não jogado porque ela e o marido tiveram muito o que fazer durante à noite, jogado porque largam a roupa pra qualquer canto, bangunçado mesmo. No quarto que ela tinha pras roupas, com armários, era igual!
Só que ainda há o pior!
Entre os cantos que sobram entre o colchão e a cama havia vários papéis higiênicos dobrados... não tiramos... nem a Marciana dessa vez pôs a mão... e ficaram lá por quatro semanas, porque o casal Shrek não tirou (ogros...), daí, na última semana resolvemos fazer algo: aspirador neles! rs
Só poríamos a mão com luva, mas até assim ficamos com nojo!

Nas outras semanas, dona Marciana me falou da existência da máquina de lavar louça e eu joguei tudo lá, toda aquela melequice e não via a hora de passarem os dias pra não ir mais naquela casa e ao mesmo tempo pensava que precisava daquele dinheiro...

Ah! tinha que se passar a roupa também! E a feiona queria que passasse até a toalha de banho... mulherzinha dos infernos, a casa uma imundice e cada vez inventava uma coisa: pra limpar rodapé, limpar sei lá o quê... como se em quatro horas (quando eu ia era em 2 horas, duas horas pra cada) desse pra limpar a imundice que ela acumulava a semana toda e ainda queria mais coisas!
Só com um "spring cleaning" a casa ficaria decente.
Spring Cleaning é isso mesmo: a limpeza da primavera, porque no inverno (e em todo o resto do ano rs) a sujeira fica lá se acumulando até que um belo dia de "primavera" a dona da casa pensa: oh! essa casa precisa de uma limpeza pesada!

Marciana me pagava 7 libras a hora para ajudá-la. Nessa casa, na da segunda-feira e da próxima, elas eram amigas e pagavam igual: £8,50 a hora. Em algumas casas ela ganhava 12, em outras 10.

Dessa casa, íamos pra amiga da Feiona que tinha um casal de filhos, casa mais bem arrumada, tinham acabado de reformar e para me alegrar a vida colocaram nos quatro andares carpete creme... ah! como eu amava ir naquela casa e passar aspirador cômodo por cômodo, escada por escada... e sempre os malditos carpetes felpudinhos pegavam e não largavam os fiapos de roupa... ah, que lindo que era ver aquele monte de bolinha de roupa naquela merda creme...
E o aspirador que pesava uns 10 kilos... ah, que vontade de jogá-lo pelos 4 andares abaixo... ou na cabeça de quem comprou aquela merda que mal aspirava, só pesava.
A menina, de graça, tinha uma beliche no quarto, só pra ela e eu pensava: vc tem uma beliche porque é divertido quando é criança, né? Vai dormir na minha!

Eu ficava olhando... a mãe levava a menina pra escola e o menino, muito pequeno, pra passear no parque, aí ela voltava, mas como ela era uma mãe estranha... ou todas as inglesas têm essa estranhice maternal?
Ela não fazia almoço, comia um lanchinho como todo inglês e fazia o mesmo com o menino de uns 2 anos que amava Toy Story e tinha os bonecos. Um menino fofo!!
Um dia, ela voltava pra casa com o menino dormindo no carrinho e empurrava, empurrava o carrinho pra entrar e não entrava, tive que ir lá falar e mostrar pra ela: o pézinho do menino ia se enfiando cada vez mais debaixo do carrinho, dobrando por conta da pressão que ela fazia pra empurrar e o tapete de entrada.
O menino não chegou a chorar, mas eu a vi como uma louca que não reparou um só momento e que nem ficou preocupda quando mostrei, só tirou o pé do bebê... e ficou lá... mandando mensagens sem parar no celular, como sempre a via fazer.

Marciana, como boa puxa-saco, achando que a dona da casa se importava com ela, começou a falar que estava com saudade do filho que tinha ido pro Brasil (história pra outro post) e também comentou da enchente no Rio de Janeiro que aconteceu naquele mês de janeiro.
Falava no inglês dela: see the flódi in Rio de Janeiro? My son is in Brazil.
A mulher só olhou pra ela e disse: não sei disso não. E continou com a vida atarefada de mandadora de mensagens por IPhone.

Dessa casa, tínhamos uma terceira, ainda mais longe e que pra voltar tínnhamos que pegar o trem até London Bridge se estivéssemos com pressa.
Era a casa de um espanhol e como bom latino, a casa de um homem solteiro era mais limpa que qualquer casa de uma inglesa casada.
Aí sim fazíamos o que a faxineira faz no Brasil: limpa o que não dá pra limpar no dia a dia com a correria. Era uma casa tranquila, sem grandes problemas por ser muito limpa e organizada.

Mas Marciana acabou dando um grande fora e a máscara de boa mãe, religiosa, temente a Deus, fiel aos bons costumes e honesta começou a cair...
Ela, dias depois, acabou comentando que o espanhol era tão gente boa que como não a dispensou do trabalho por conta de ela estar com a mão operada resolveu pagar além da hora para ela, para a ajudante (ou seja, eu!). Ela sem perceber me contou que era pra eu estar ganhando mais, não só 7 por 1 hora e meia nessa casa... mas acho que 10 por 3 horas! 10,50 para 30 libras é uma boa diferença no bolso meu e, claro, de Marciana...

Quarta e quinta-feira as donas das casas, algumas a dispensaram e até pagaram pra ela ficar em casa, outras não queriam ajudante e só fui numa das casas de quinta, de, como diria a própria Marciana: a casa do gay. Nunca o conheci, mas era uma casa também tranquila e longe, essa era preciso pegar o metrô e era em outro sentido, noroeste de Londres, perto de Wembley.
Só tinha muitas camisas sociais para passar e aí aprendi a passar (ou a enganar) essas horripilantes roupas...
Ela o chamava assim porque fazia a casa do companheiro dele, então, ela sabia bem a vida dos patrões...
Ela não fala inglês, entende pouco, mas acredito que muita das coisas que tenha percebido sobre a vida deles, foi porque anotou e mostrou pro filho, não só esse casal, mas das outras famílias.
O filho mandava e respondia as mensagens do celular para ela. Como já disse, outra história.

E sexta tinha mais! Tinha uma casa também tranquila que era de 15 em 15 dias que se tinha que passar roupa e uma de uma professora quase para se aposentar que Marciana, finíssima, chamava de "a casa da sapatona".
A dona da casa era simpática e até deu uma garrafa de vinho para Marciana e outra pra mim, pelo Ano Novo que se iniciava - o vinho da minha mala, sabem já a história toda dele... - ela conversava bastante e saia para podermos limpar a casa tranquilamente.
Eu não vou esquecer de um dia, arrumando a cama de um dos quartos da casa, que era uma espécie de duas camas juntas formando uma cama de casal com um aparato tipo aqueles de deixar a cama mais alta igual em macas e a mulher de Marte disse: sei lá que cama maluca é essa, deve ser pra imundices de sapatona!
Não sei que tipo de cama era aquela, me parecia pra algum tipo de problema de coluna ou algo assim, mas Martian (rs) como uma pessoa sem preconceito, já tinha julgado e condenado a professora.

Salvem a professorinha!

Havia outra casa na sexta, mas era a mesma de uma mulher da quarta que a dispensou.
E assim minhas semanas de janeiro se passaram, mas antes que janeiro terminasse, tive que conciliar esse trabalho com um durante os finais da tarde, limpando escritórios, nooooooooooo

Império do Fado!
(próxima parada)